Paixão: a teoria de tudo

Fiquei feliz com a morte de Hawking. Talvez a filosofia explique esse meu sentimento.

Não fiquei feliz porque sentia pena e creio ter sido a morte um alívio. Esse tipo de felicidade que senti talvez tenha a ver com o fato de que Hawking foi uma das pessoas mais apaixonadas que tive a oportunidade de entrar em contato pela trajetória.

Em casos de uma vida de paixão a morte me soa como apoteose.

Stephen Hawking.

Lembro que li Minha Breve História num tempo sombrio. Lembro que numa tarde pós-trabalho em que me encontrava muito triste, sem nenhuma perspectiva, fui a um parque e me sentei frente a um lago. O sol se punha lindamente. Descalcei os pés e na grama os finquei como que para sugar da terra qualquer força que pudesse me envolver de esperança.

Esperança, naquela época, era como artigos de luxo em revistas que não eram feitas para pessoas como eu. Naquela época, eu entendia a esperança como sentença, como olhos azuis com os quais se nasce ou não se nasce. E nada é capaz de mudar isso.

Contudo, naquela tarde de vazio Hawking não virou meu exemplo de resiliência, como normalmente é visto, mas de um verdadeiro apaixonado!

Porque é isso. Nada ao redor pode matar uma paixão. Nada. Enquanto inflamar dentro haverá o que fazer de significativo com a própria vida.

A Teoria de Tudo, longa do diretor James Marsh, que foca na juventude de Stephen, a descoberta da doença e o seu relacionamento com Jane Hawking, com quem foi casado por 25 anos, revela isso. Biográfico, o filme conta não apenas sobre os avanços científicos de Hawking, mas também sobre a relação com Jane.

Foi aos 21 anos que o cientista foi diagnosticado com Esclerose Lateral Amiotrófica, a tal ELA, uma doença degenerativa que destrói células cerebrais que controlam atividades musculares essenciais como o falar, o andar, o respirar e o engolir. Na época do diagnóstico, a expectativa era que Stephen tivesse apenas mais dois anos de vida.

Nessa mesma época, Jane era namorada de Hawking e decidiu assim mesmo continuar o relacionamento. “Vamos viver o tempo que tivermos”, é uma das falas de Jane, no filme. Ela que é interpretada por Felicity Jones.

E assim, contrariando a medicina, os dois anos se passaram. Quando o filme foi lançado, Stephen Hawking estava com 73 anos.

A Teoria de Tudo não é apenas sobre Stephen, mas também sobre Jane. Observamos, cena a cena, os sentimentos de uma mulher que decidiu ficar e lutar pela relação diante de qualquer dificuldade que viesse a atingi-los.

A vida, porém, é muito menos romântica. Durante o longa, acompanhamos o avanço da doença, assim como a dificuldade de Jane em cuidar do marido, da casa e dos filhos.

Eddie Redmayne, que interpreta Hawking brilhantemente, trabalhou com um bailarino e um fonoaudiólogo para reviver nas telas a progressão da ELA. E ele consegue mesmo expor sentimentos sutilíssimos, principalmente nas cenas em que mexe apenas os olhos e as sobrancelhas. Belíssimo! Quanta vida pode haver em apenas um olhar.

Quem ainda não assistiu A Teoria de Tudo, é uma forma de entender isso que julgo ser o elemento genial de Hawking – e que, para mim, nada tem a ver com ciência, mas com o espírito.

O filme não pende ao melodramático, principalmente quando mostra o avanço da doença. Pelo contrário, a emoção na narrativa é contida. Fica no lugar o jeito bem-humorado do cientista ao lidar com situações dificílimas; além, claro, da força de Jane em se manter ao lado de Stephen, lutando pela relação e muitas vezes pela própria vida de marido.

A quem assiste, ficam todas as lições sobre abnegação, sobre os limites quando o amor, elevado ao nível máximo de exigência da contingência, sucumbe sem que haja culpados.

Essas lições ambientam o filme inteiro. E não diz apenas sobre amor conjugal. Creio até que é mais belo porque diz sobre o amor por aquilo que define quem somos. No caso de Hawking, a ciência.

Enquanto houver vida, haverá esperança”, diz Hawking em uma das cenas.

Enquanto houver vontade imensa de seguir em frente mesmo com todos os percalços, haverá esperança. A única coisa passível de nos parar é a ausência de paixão. Para mim, a teoria de tudo.

 

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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