Pedro Sette-Câmara: “Acho que a leitura é muito mistificada”

A respeito da literatura, uma das frases que mais me toca é assinada pelo argentino Alberto Manguel: “Primeiro você descobre a vida nos livros e depois você vai vivendo e a vida começa a soar um déjà-vu.” Foi assim em minha vida até aqui e estou certa de ser destino. À FAUSTO, convidei ao tema Pedro Sette-Câmara, doutor em Literatura Comparada, biógrafo de Bruno Tolentino e tradutor. Será a leitura mistificada, inalcançável para alguns? Quem sabe…

Pedro Sette-Câmara, doutor em Literatura Comparada, biógrafo de Bruno Tolentino e tradutor.

FAUSTO – A inteligência exige responsabilidade?
Pedro Sette-Câmara:
Até a burrice exige responsabilidade. Ontem ou hoje vi alguém reformulando a frase da Ayn Rand: você pode fugir dos fatos, mas não pode fugir das consequências dos fatos. Você sempre vai responder por algo, seja você Einstein ou o Pedro.

É possível desenvolver a intelectualidade sem desenvolver a espiritualidade?
Como um escolástico, tenho vontade de primeiro definir o que seriam “intelectualidade”, “desenvolver”, e “espiritualidade”, mas isso exigiria muitas páginas. O máximo que posso fazer é dizer que, para mim, o mundo espiritual existe. Quando você diz isso, parece que está querendo rivalizar com uma postura cientificista: vocês não creem, mas eu creio! Mas não é essa a questão. Ao mesmo tempo, muitas realidades tremendas, que poderiam remeter a um “transcendente”, são perfeitamente explicáveis. O que eu posso dizer, enfim, é que, se o mundo espiritual existe, à medida que você vai pensando e tentando entender as coisas, você o leva em conta. Agora, se você me perguntar se eu preciso me tornar uma pessoa “mais espiritual” para atingir certas verdades… O diabo sabe todas as verdades.

Educação para a leitura e educação moral são dissociáveis?
Não entendo bem a pergunta. Não sei o que é “educação para a leitura”. Na escola havia aula de educação física, e isso não fez de mim um esportista. Minhas leituras vêm principalmente de fora da escola, e o ensino formal, na maior parte do tempo, foi mais um tributo a César do que uma formação. Também não sei o que seria “educação moral” — ter contato com grandes exemplos, reais ou fictícios, me parece valer mais do que uma doutrinação “do bem”. Mas, ao mesmo tempo, noto algo interessante. A literatura do século XIX é repleta de dilemas morais. O drama principal de Middlemarch é um grande dilema moral. Os personagens de Os miseráveis enfrentam dilemas morais. Mas você pega a série de David Kepesh, escrita por Philip Roth, e vê que ali não tem nenhum dilema moral. Mesmo que eu admire Philip Roth, será que esses romances terão a mesma longevidade? O público anseia por dilemas morais na literatura, porque os vive. Até no Brasil, veja que coisa interessante: conheço várias pessoas, normalmente mulheres, que dizem amar José de Alencar. Em Alencar há dilemas morais. Em Machado de Assis, não. Machado é admirado pela crítica, Alencar é amado pelo público.

Qual é o lugar — e a importância — da contradição durante a leitura?
A contradição é responsabilidade do leitor. Se ele lê algo, concorda com tudo, e nunca se pergunta se ninguém nunca disse o contrário, se ele não tenta derrubar as teses, ou ver algo de outro lado, ele está condenando a si mesmo à idiotice. Idiotice em sentido etimológico, ficar preso em si mesmo. E claro que é preciso procurar os argumentos contrários nas fontes. Muitas vezes, apenas averiguar o que está sendo dito já pode ser muito esclarecedor… Lembro do seguinte. O Joseph Farah, colunista conservador americano, escreveu que o Al Gore tinha dito em seu livro Earth in the Balance que era melhor poupar uma árvore da Amazônia do que tratar pacientes de câncer que precisavam de um extrato dela. Durante anos acreditei nisso, porque não gostava do Al Gore. Um dia fui verificar: na verdade, Gore dizia que, se todos os pacientes fossem tratados, as árvores acabariam, o que impediria o tratamento de outros pacientes no futuro. Ele apenas dizia isso, não defendia nada; apenas apresentava essa questão. Não foi uma contradição vinda de outros argumentos, foi uma contradição vinda dos fatos. Aliás, um pouco como Goethe chegando à Itália e descobrindo que os católicos eram mais normais do que os protestantes diziam na Alemanha, e ainda tendo de explicar aos católicos que, por exemplo, não, os protestantes não podiam se casar com suas irmãs…

Quais são os perigos da subjetividade na construção de opiniões?
Nenhum. Qualquer verdade “objetiva” só é percebida por um sujeito, isto é, dentro da subjetividade. O único perigo é você esquecer que é um sujeito humano concreto e começar a falar em nome de abstrações.

Qual é a mais nociva “verdade preconcebida” no exercício da leitura?
Desde que comecei a investir no Instagram, descobri que as pessoas se sentem incapazes de ler. Acho que a leitura é muito mistificada. Não é bem uma verdade preconcebida, é uma atitude de inferioridade. Não entendo de onde ela vem. As pessoas têm cérebro e são alfabetizadas. Talvez elas esperem que coisas místicas aconteçam logo de cara. Isso é muito raro. Eu mesmo só fui me comover com Dom Casmurro, por exemplo, quando li o livro já adulto, com trinta anos. Também existe a mistificação da leitura em si, da leitura como um valor em si. Para mim, isso é como dizer que o jet ski é um valor em si: eu não tenho lá muita vontade de andar de jet ski, mas não tenho nada contra quem tem. Eu mesmo busco livros não apenas para entender o que está escrito neles, mas também como fonte de entretenimento. Se você não é assim, tudo bem. Não se sinta obrigado a ler nada. A escola acabou. Ninguém vai te dar nota. Não quero me aproveitar de uma sensação de inadequação totalmente injustificada que as pessoas têm só para vender um produto.

Quais são os pressupostos indispensáveis para uma proveitosa leitura?
Boa vontade. Boa vontade inclui você entender que nem todos os livros são para todas as pessoas a todos os momentos. Não exigir do autor o que ele não está dando. Agora, boa vontade também não precisa ser generosidade; se você achar que sua atenção não está sendo recompensada, feche o livro. Eu fecho vários, e nem me lembro.

 

Confira o artigo exclusivo sobre Bruno Tolentino, escrito por Jessé de Almeida Primo.

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Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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