Quando acordo para a vida que eu já tenho…

Há uma canção de Os Arrais chamada dia que toda vez que a escuto mergulho profundamente em contemplação.

Ou, talvez, ela me desperte a consciência a tal ponto que a impressão que tenho é a de ser mar. Não mais revolto, agora suficiente.

Quanto mais profundo desço em sua poesia, mais vejo cristalino os tesouros sentimentais fincados em minha imaginação, essa segunda natureza que a razão não alcança, como escreveu Pascal. Lugar onde tenho certeza que Deus também habita.

O dia nasce e meus olhos estão fechados
O horizonte pega fogo, não vejo
Os lampejos da beleza desse mundo
Como areia, caem no chão por entre os dedos
O sentido da existência é a existência
Quando acordo para a vida que eu já tenho

Quando acordo para a vida que eu já tenho.
Quando acordo para a vida que eu já tenho.

Escrevo agora sobre o que me assola quando não sei o que fazer com os sentimentos que me vêm depois de cada momento espontâneo.

Porque é depois de cada momento espontâneo que percebo a dimensão em mim. E se há ou não, em meu interior, algo que me tire, com ímpeto, paixão e sensação de eternidade, de minhas ocupações excessivas de mim mesma.

Alguns chamam de vida cotidiana.

Outros de vida comezinha.

Outros ainda de vazio.

Religião é saída semântica em minha poesia. Torno todos os sentidos de minha vida sacralidades inalcançáveis à mesa dos outros. Como adoro a Deus, adoro os meus segredos.

Quando acordo para a vida que eu já tenho percebo os aromas de minha casa, preparo os alimentos como se fossem obras de arte, entendo cada gesto de meu cãozinho como uma lição de Deus sobre a singeleza da vida.

Chamo de momento espontâneo, também, o acordar. Não tenho escolha quanto a isso, do contrário estaria morta. E é justamente logo após abrir os olhos, todas as manhãs, que me deparo com a imagem mais honesta e religiosa de minha condição.

Às vezes sou alegre, às vezes sou triste, mas sempre sou bela, reflexo de minha rica vida interior.

Se o sentido da existência é a existência – a minha existência! –, acordar para a vida que eu já tenho é não me afastar daquilo que meus olhos podem alcançar – para me tornar as ilusões de sentido construídas pela performance!

Minha melhor versão? Certamente é quando não torno o mundo um imenso espelho.

Só devo me superar na compreensão da Beleza. Só devo querer ver mais para amanhã ver além. E de além em além alcançar o Absoluto.

O sentido da vida também se faz claro depois do instante do amor. Segundos depois de notar esse incontrolável afeto, destemor e terror que se misturam como se tivessem se unido contra mim Deus e o diabo.

Chamo de sentimento espontâneo tudo aquilo que não planejo sentir e sobre o qual não há elaboração prévia.

É a partir desse sentimento que constato o sentido da vida. Se posso lidar comigo, posso lidar com a vida. O que é, afinal, a vida, se não o potencial inexplorado em mim, agindo em meu entorno, com aquilo que já tenho?

Se sou fiel no pouco, sob o muito Ele me coloca. E de além em além alcançar o Absoluto.

 

Nobre dama ou nobre cavalheiro,
Esperamos que tenha apreciado os nossos sentimentos em forma de prosa. Gostaríamos de deixar o singelo convite para nos acompanhar em nossas “redes sociais”, esse termo ainda estranho para nós, é verdade, de tantos séculos atrás que somos. Doravante, temos de nos adaptar a esse tempo de nuvens! E será muito melhor em sua companhia. Estamos no Facebook e inteirinho em preto e branco no Instagram, à espera dos senhores. Excelente dia!

Fausto

 

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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