Que mal eu fiz a Deus? Utopia? Esperança?

Seria lindo se o filme francês Que mal eu fiz a Deus? representasse uma realidade. Em um mundo cada vez mais intolerante, o longa de Philippe de Chauveron pinta, na verdade, um quadro utópico.

Para os pessimistas, é claro. Já para os otimistas, talvez, sirva como inspiração, a fim de que a esperança não se esvaia de vez. Como se fosse um amparo. Cinema não deixa de ser isso…

A divertida história do casal Claude e Marie Verneuils, vivido por Christian Clavier e Chantal Lauby, fala sobre preconceitos e estereótipos, mas fala também sobre o amor e a disposição de se despir de julgamentos que só fazem sentido numa determinada cultura. Afinal, o que é a verdade?

Esse é o drama do casal católico e patriota que casa suas três filhas com filhos de imigrantes, cada um de uma religião. Um genro é judeu, o outro muçulmano.

O terceiro é chinês. E isso é bastante curioso. Porque não estamos falando apenas de religião quando dizemos judeu e muçulmano. Estamos falando de raça também – de cultura, principalmente.

As reuniões de família quase sempre terminam em conflito. Basta uma frase mal colocada, intencionalmente ou não, e carregada de lugares-comuns, para detonar uma briga. Cada filha, a seu modo, tenta amenizar o caos a cada reunião, pedindo tolerância com os comentários possivelmente racistas, de todos os lados.

Que mal eu fiz a Deus?

É evidente, assim como estereotipada, as funções dos homens e das mulheres da casa.

Eles são animais ferozes que defendem suas raças, e elas as dóceis fêmeas que fazem de tudo para preservar a paz.

Eles brigam na sala e elas conversam na cozinha, arrumando a louça pós-jantar.

A filha sensível chora o tempo todo e pinta quadros depressivos. Uma visão outra vez exagerada. Todavia, não mais que a do genro muçulmano, claro, o mais agressivo dos genros. Errou Chauveron em deslocar tanto seus personagens para os extremos? Fica a reflexão.

Em meio à confusão, não dá para saber quem é mais racista. Ou, como diz o sogro, Claude, quem é o mais “melindrado”. O autoexame é quase nulo. O problema é sempre o outro.

Às vezes, parece mesmo que a intenção de Chauveron é jogar pedrinhas no teto de vidro da sociedade atual. Somos mesmo tão arraigados às nossas raízes que nos ofendemos com tudo ou estamos cada vez mais contaminados pelo ódio e reagimos a tudo, mesmo às bobagens, sem reflexão? Fica outra reflexão.

A matriarca, Marie Verneuils, em determinada cena resolve se confessar ao padre, que na trama é ultra globalizado.

Ela diz: “Dediquei toda a minha vida às minhas filhas. Sacrifiquei tudo para que elas fossem felizes, para não faltar nada, e eu não as vejo mais, mal conheço meus netos. A vida familiar já é complicada o suficiente, se acrescentarmos os problemas de cultura, religião, educação. Ai, eu não sei…

O sacerdote ouve o desabafo da senhora, sem paciência, enquanto navega em um e-commerce. Logo a interrompe e responde: “Eu já te falei, senhora, o que acontece na sua família não é grave, precisa se adaptar, é a globalização. Meu bispo é de Madagáscar. No início foi difícil, mas agora nos damos muito bem.

Os antigos e os novos costumes estão tão próximos quanto um padre e um fiel num confessionário, porém, separados por uma frágil treliça. Sentido figurado para sensibilidades ideológicas ou fundamentalistas. Quem, hoje, assiste aos acontecimentos do mundo, principalmente os ligados à religião, com indiferença? Indiferença que, aqui, significa o que chamamos nos estudos de religião de ateísmo metodológico. É possível não se sentir dono da verdade? Ou servindo ao único Deus?

A tensão do filme Que mal eu fiz a Deus?, contudo, aumenta quando a única filha solteira, Laure, interpretada por Elodie Fontan, anuncia que vai casar. Os pais, esperançosos de que o próximo genro seja católico, depositam todas as suas expectativas na moça. O derradeiro genro é, sim, católico, mas…

O filme fez o maior sucesso na França. Foi uma das maiores bilheterias do cinema no país, somando mais de 12 milhões de ingressos vendidos. É claro, depois de tantos casos aterradores de intolerância racial e religiosa, sendo o atentado à sede do jornal Charlie Hebdo um dos mais marcantes, falar sobre o assunto com graça e humor foi uma sacada de Philippe de Chauveron.

O filme tem o objetivo claro de trazer à luz uma reflexão muitíssimo importante, embora não faça um mergulho profundo. Todo caso, fica a quem assiste mais uma reflexão: religião é e sempre será um enigmática gatilho das paixões humanas.

 

Fausto

Fausto

Fausto

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

Os Comentários estão Encerrados.