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Quem é Eliana de Castro?

No silêncio de casa, cercada por livros e anotações, Eliana de Castro costuma começar o dia como muitos escritores fazem há séculos: lendo antes de escrever.

A rotina é discreta. Entre páginas sublinhadas e pensamentos que surgem ao longo da manhã, ela constrói lentamente o território no qual suas histórias nascem. Tudo é anotado.

Reservada, disciplinada e essencialmente caseira, a escritora prefere a intimidade do lar à exposição constante. É nesse espaço silencioso, entre leituras, pensamentos e memórias, que sua literatura ganha forma.

A literatura, para algumas pessoas, é uma escolha. Para outras, é destino. Como é o caso de Eliana de Castro.

Romancista, jornalista e entrevistadora, tornou-se conhecida por fundar a revista de cultura, filosofia e literatura clássica FAUSTO, um espaço dedicado a entrevistas e reflexões com alguns dos principais intelectuais contemporâneos.

Nesse território editorial transitam filósofos, escritores, cientistas e pensadores que discutem temas como espiritualidade, cultura, política e literatura.

Entre os entrevistados estão nomes de renome internacional como Camille Paglia, Oded Galor, Steven Levitsky, Andrew Roberts e Frédéric Martel, além de personalidades midiáticas de alta relevância no Brasil, como Lobão, Jards Macalé e Fafá de Belém.

Mais do que uma revista, a FAUSTO tornou-se um laboratório de ideias refinadas — e, em muitos aspectos, um prolongamento da própria curiosidade intelectual de sua criadora que foge do óbvio.

Formada em Jornalismo e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), Eliana aprofundou sua investigação sobre o sentido da experiência humana ao realizar um mestrado em Ciência da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Essa formação interdisciplinar — entre literatura, romantismo e espiritualidade — ajudou a delinear o eixo central de sua própria obra literária: o confronto entre o íntimo e o transcendental.

Entre as influências que atravessam seu pensamento estão a escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís e o filósofo romeno Emil Cioran. Da primeira, parece herdar o gosto pela densidade psicológica e pela observação penetrante da natureza humana; do segundo, a inclinação para o pensamento aforístico e para perguntas que raramente buscam respostas fáceis.

Sua estreia na ficção veio com o romance NANA, publicado em 2023. O livro chamou atenção pela densidade emocional e pela escrita de caráter contemplativo.

Em vez de apostar na velocidade narrativa típica da ficção contemporânea, Eliana construiu um texto que pede pausa — quase como se o leitor fosse convidado a saborear cada frase. A história atravessa temas como memória, amor e perda, explorando os labirintos afetivos que moldam a experiência humana.

Críticos destacaram justamente essa capacidade de transformar emoções cotidianas em matéria literária delicada e reflexiva.

O segundo romance, Valha-me Deus, amplia esse universo. Ambientado em Ouro Preto, o livro entrelaça a história de treze mulheres cujas vidas se cruzam em meio às contradições da fé.

A cidade histórica, marcada pelo barroco e pelo sincretismo religioso, funciona como um personagem silencioso da narrativa. Entre igrejas, ladeiras e sombras históricas, a autora investiga um tema recorrente em sua obra: a tensão entre o sagrado e o profano.

A espiritualidade, aliás, não é apenas um tema literário em sua obra — é também um fio condutor de sua própria trajetória.

Em textos autobiográficos, Eliana já afirmou que muitas de suas histórias nascem de experiências emocionais intensas, de perdas e de reflexões profundas sobre a condição humana. A literatura surge, assim, como um processo de elaboração, uma forma de transformar sofrimento em linguagem e memória em narrativa.

Para ela, escrever nunca foi apenas inventar histórias, mas tentar nomear aquilo que muitas vezes permanece invisível na experiência humana.

Talvez por isso sua prosa seja frequentemente descrita como poética e aforística. Em vez de oferecer respostas, seus textos preferem formular perguntas — perguntas que atravessam religião, filosofia e psicologia.

Não por acaso, Eliana de Castro se define como “uma mulher dos clássicos”: alguém que escreve olhando para questões que nunca envelhecem. Temas antigos como a própria literatura.

Reduzir sua trajetória apenas à ficção, no entanto, seria insuficiente. Eliana pertence à linhagem de intelectuais que enxergam o pensamento como um diálogo permanente e cotidiano.

NANA será adaptado para o cinema e Valha-me Deus será adaptado para uma série de streaming pela produtora Academia de Filmes/ Ink Company, levando a riqueza de suas personagens para um público ainda maior.

Ao longo dos anos, suas entrevistas reuniram vozes de diversas áreas do conhecimento, criando pontes entre disciplinas que raramente conversam no espaço público.

Essa vocação para o diálogo talvez seja uma das marcas mais singulares de sua atuação. Ao entrevistar pensadores e artistas, ela não assume apenas o papel de mediadora entre leitor e entrevistado; constrói uma espécie de palco intelectual no qual ideias podem se confrontar, amadurecer e, às vezes, transformar quem as escuta.

Na literatura, essa mesma disposição aparece na maneira como seus personagens são construídos. Eles raramente são unívocos. São figuras complexas, atravessadas por dúvidas, contradições e desejos — exatamente como todas as pessoas que habitam o mundo real.

Há também um elemento de contemplação em sua escrita. O tempo, em seus romances, não corre apressado. Ele se dilata. Momentos aparentemente simples — uma lembrança, uma conversa, um silêncio — tornam-se centrais na narrativa.

Esse ritmo mais lento aproxima sua prosa de uma tradição literária que valoriza a interioridade e o pensamento.

Talvez por isso sua literatura pareça nascer menos do espetáculo do mundo e mais da escuta silenciosa da vida interior.

No fim das contas, perguntar quem é Eliana de Castro talvez seja apenas uma maneira indireta de saber como ela tece suas linhas efabulares.

Em seus livros e entrevistas permanece a mesma inquietação fundamental: a busca infinita por sentido — expressão que também se tornou o lema de sua revista. FAUSTO, aliás, vem de sua paixão pelo conhecimento como o personagem de Goethe.

Seus romances são obras abertas com cenas inacabadas e inconclusivas. Espaços para que o leitor se sinta livre para refletir suas próprias questões existenciais.

Num tempo marcado pela pressa e pela dispersão, sua obra parece lembrar algo simples e antigo: que a literatura continua sendo um dos poucos lugares onde ainda é possível parar, pensar e escutar o mistério da existência.

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