Ricardo Quadros Gouvêa: “a experiência religiosa mais profunda é aquela em que eu me individualizo”

Angústia, desespero, quem está livre? Fugir ou aceitar os próprios abismos depende da coragem ou de um encontro com o transcendente. Quem destrincha a possibilidade é um dos mais renomados especialistas em Søren Kierkegaard: Ricardo Quadros Gouvêa. A trajetória louvável, invejável e aparentemente insuperável do intelectual não supera, todavia, a gentileza do trato e a generosidade com a qual recebe questões tão pueris. A conversa a seguir apresenta, curiosa e magicamente, como o Sagrado em um encontro de dois…

Ricardo Quadros Gouvêa: um dos mais renomados especialistas em Søren Kierkegaard.

FAUSTO – “Ignorância é uma benção?” Quanto mais temos consciência do eu mais aumenta nosso desespero?
Ricardo Quadros Gouvêa: A ignorância pode ser uma benção ou uma maldição, depende das circunstâncias, assim como depende do conhecimento. Não dá para sermos taxativos, mas não há dúvida de que, como diz o ditado popular, também muito comum nos Estados Unidos, “ignorance is bliss”. Quer dizer que há, sim, um alívio na ignorância, permite que não pensemos nos problemas, na própria condição humana. É por isso que o ser humano busca a bebida, por exemplo, além de outros meios que faça esquecer sua condição existencial.

Drogas, jogos, sexo…
Por outro lado, o conhecimento pode ajudar, desde que ele seja não apenas teórico – poderíamos chamá-lo de conhecimento místico, que se aplica às questões mais profundas do ser, que pode levar o indivíduo ao autoconhecimento, a integrar-se com o mundo em que vive e, inclusive, com os mistérios insondáveis, esse conhecimento faz com que seja possível encontrar a paz apesar de. Uma ideia comum nos livros dos pensadores existencialistas é que é preciso encontrar alegria e paz apesar de e não por causa de. A vida é mesmo dura, então é bom aprender a esquecer aquilo que não é mais útil e saber lembrar o que pode ajudar na caminhada. No entanto, o conhecimento real, que tem esse caráter esotérico, de possibilitar enxergar a beleza, o Sagrado nas coisas do dia a dia, esse conhecimento é profundamente benéfico e pode trazer libertação do medo, das angústias.

O que é o desespero?
Søren Kierkegaard fala muito sobre o tema em seu livro A Doença Mortal – ou, como é conhecido no Brasil, O Desespero Humano. Ele explica que há vários tipos de desespero, não existe apenas um. Uma pessoa pode desesperar-se da vida no mundo material, desesperar-se da concretude da vida, do tempo, e por isso acaba, vamos dizer, fugindo através das religiões – ou através de outras formas. Só que uma pessoa também pode desesperar-se do infinito, da eternidade, e essa é outra forma de desespero. Nesse caso, a pessoa se apega à matéria, à concretude, à temporalidade, esquecendo que existe, na verdade, uma tensão constante entre esses binômios: finito e infinito, eternidade e tempo, contingência e necessidade. Em Conceito de Angústia, Kierkegaard diz que é preciso fazer uso positivo da angústia, tornando-a um motor que nos leve adiante – em vez de nos fazer fugir.

Pode nos dar exemplos dessas fugas?
O Kierkegaard era, acima de tudo, um fenomenólogo da condição humana; psicologia no sentido mais profundo do termo, antropologia filosófica que examina a condição humana: o que é viver, o que é existir enquanto ser humano. Portanto, precisamos compreender que vivemos na angústia de, por exemplo, por um lado querer ser livre, mas ficamos angustiados quando nos percebemos incapazes dessa liberdade – devido, principalmente, aos muitos determinismos, que pode ser proveniente tanto do DNA como das compulsões que sentimos, ou mesmo das persuasões de que somos vítimas ou das ideias filosóficas e religiosas de que o futuro foi determinado por Deus. Foi o Sartre que disse que estamos condenados a ser livres. Então, a liberdade também é angustiante porque não sabemos o que fazer, o que vai acontecer e temos que assumir a responsabilidade por nossos atos, sem culpar ninguém, nem mesmo o destino, nem mesmo Deus.

Eis algo dificílimo…
Kierkegaard mostra com isso que a angústia é uma faca de dois gumes: existe a angústia da liberdade e a da falta de liberdade, assim como angústia do bem e angústia do mal. Essas angústias todas podem ser como uma força negativa, que atrapalha o indivíduo, mas também podem ser motor que carrega o indivíduo para além dessas dicotomias, para além dessas tensões, rumo a um projeto de autoconstrução.

Isso é bom, hein? Projeto de autoconstrução… E longe de mim que soe como artifício de autoajuda…
Não é autoajuda, é tentar entender o que é a vida humana e como vivê-la. Kierkegaard sugere: é preciso assumir a condição de que somos autores de nós mesmos e, para construir essa realidade da existência de cada um, é preciso superar todas essas angústias. Superando a ideia de que a angústia é algo ruim, em vez de fugir dela vamos abraçá-la, respeitá-la, mas sem deixar que ela nos segure. Dessa forma, é possível viver a vida e existir, como dizem os existencialistas, de tal forma que a existência precede a essência.

O que significa isso?
A grande questão do existencialismo é que a filosofia antes pensava a partir da essência em direção à existência. Existe sempre um ideal, algo essencial que explica a minha existência. Só que o existencialista dirá que é a minha existência que determinará a essência, que ajudará a construir a trajetória de cada um de nós, que auxiliará a construir a essência ou o ser humano ideal, a sociedade ideal, o ideal de justiça, o ideal de amor. Tudo isso é resultado da experiência prática de viver na concretude. Por isso é que a existência precede a essência, em vez de a essência preceder a existência, como acontece na filosofia clássica grega de Platão e Aristóteles.

É possível encontrar uma saída sem a religião?
Trabalho muito com o tema da religião, no âmbito da filosofia da religião e numa perspectiva fenomenológica. O que a fenomenologia da religião tem proposto é que nós, equivocadamente, tentamos entender o que é religião, classificando a vida em diferentes áreas, por exemplo: vida privada, trabalho, relacionamentos, lazer, vida religiosa – que depende da minha adesão a uma determinada instituição, ir à igreja aos domingos, ou à sinagoga, mesquita, fazer orações e ter certas crenças. No entanto, na fenomenologia da religião os autores apresentam a possibilidade de pensar a experiência religiosa de outra forma.

Qual seria essa forma e quais seriam esses autores?
Refiro-me a Mircea Eliade, Rudolf Otto, entre outros que têm apresentado o Sagrado como o conceito fundamental da experiência religiosa. Então, percebemos que uma pessoa pode estar dentro da igreja cantando, mas aquela atividade não tem nada de realmente religiosa, enquanto outra pessoa pode estar sentada no banco da praça assistindo ao pôr do sol e aquela experiência ser profundamente religiosa, de comunhão com o universo, com Deus, com aquilo que transcende a experiência concreta e imanente. Essa é a experiência do Sagrado e pode acontecer em qualquer ambiente, ao ar livre, numa conversa com um amigo. Então, se pensarmos dessa forma, minha resposta é não, não há como fugir da angústia sem religião. Essa experiência do Sagrado independe de crenças, de qualquer instituição religiosa, e podemos, sim, aprender a usufruir dessas tradições religiosas que têm grandes insights, grandes descortinamentos acerca da espiritualidade, ainda que agreguem muitos monturos de coisas que não interessam.

É a isso que Rudolf Otto chama de numinoso?
Sim. Pelo menos interpreto assim. Ele está falando daquela experiência que é ao mesmo tempo aterrorizante. Enxergar o transcendente, mas enxergar o transcendente a partir de uma experiência imanente. É uma experiência fascinante porque ao mesmo tempo você está encontrando, como dizem os antigos profetas, o céu aberto. É como se, de repente, a imanência tivesse se rasgado e você passasse a enxergar por detrás do véu. Isso impacta o seu ser, sua vida, sua existência, e é algo benéfico, em minha opinião, a não ser que a pessoa desenvolva uma fobia do Sagrado, o que acontece também. Se a pessoa adotar uma visão otimista acerca do universo, da transcendência, de Deus, se quiser esse vocabulário, essa gramática, de crer que Deus é bom, que Deus é amor. Tem um versículo bíblico que diz “Deus é amor”. Então, é impossível que a experiência de transcendência, do Sagrado, seja uma experiência negativa.

Minha visão romântica crê nisso e se encanta com isso… Aliás, o trecho em que Freud conta sobre o sentimento oceânico ainda é para mim um dos mais lindos que já li…
Podemos escolher crer na possibilidade dessa experiência. Kierkegaard diz que a vida é feita de escolhas e não há como fugir dessas escolhas. Às vezes ficamos procurando uma explicação racional para poder crer e ele diz: “não há porque buscar explicações racionais porque crer é uma escolha, creio porque escolhi crer”. Essa é a diferença entre fé e razão, Kierkegaard escreve muito acerca da fé, por exemplo em Temor e Tremor. Agora, pode ser também que essa experiência não seja possível, como preciso reconhecer a possibilidade de que essa experiência de transcendência não seja possível para algumas pessoas e, muitas que dizem tê-la, na verdade estão vivendo uma alucinação, uma experiência psicológica.

O que é ser um indivíduo diante de Deus?
Dentro da perspectiva de Kierkegaard, pensamos na religião como uma experiência coletiva. Nascemos numa família cristã – ou muçulmana, budista – e tendemos a seguir naquela tradição e a experiência de culto é sempre coletiva, as crenças são coletivas. Mas a experiência religiosa mais profunda é aquela em que eu me individualizo. Carl Jung fala muito sobre esse processo de individuação, que é a própria razão da existência. Então, é preciso se ver face a face com Deus enquanto indivíduo, na minha individualidade, sem levar em consideração o aspecto coletivo. Isso não significa, evidentemente, que você não deva se relacionar com as pessoas. Pelo contrário, a verdadeira experiência religiosa, em todas as tradições, leva à ação, a uma relação positiva com os outros, mas a experiência com Deus é individual, não posso depender de outros para ter essa experiência mística. Minha relação com Deus tem que ser imediata, como dizem os místicos, e não mediada. Em Migalhas Filosóficas, Kierkegaard interpreta o conceito cristão de salvação como o indivíduo recebendo a condição de ter uma relação com a fonte do seu ser, que é Deus. Ele enquanto cristão reinterpreta o cristianismo, e essa condição é o que significa a presença de Cristo, não é o ensino, não é uma prática de adoração, não é um culto, não é uma crença acerca de Jesus – de que morreu na cruz e por isso é o salvador. Trata-se da união mística com Deus devido a presença de Cristo em mim. É uma interpretação mística, esotérico, das verdades mais profundas presentes no texto fundante do cristianismo, em vez da parafernália religiosa que o cristianismo se tornou, que mais distrai do que conecta com Deus.

 

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Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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