Ricardo Rangel: “Se queremos reconstruir nosso país, precisamos parar de nos odiar”

Uma nação sem noção é o título do mais recente livro de Ricardo Rangel. Por que será, hein? Homem da mídia, o carioca é colunista do jornal O Globo, sócio-diretor da Conspiração Filmes e diariamente em sua página do Facebook opina sobre os fatos relevantes de nossa política, além da relevância dos fatos irrelevantes que também diariamente tomam conta de manchetes e feeds e nos afundam cada vez mais nesse buraco que parece não ter fim. A internet poderia ser uma arma contra aqueles que roubam. As redes sociais, um poderoso megafone. Contudo, todos os dias viramos essa arma contra nós mesmos e ensurdecemos uns aos outros. O que mais poderia nos tornar uma nação sem noção? Exclusivo para a FAUSTO.

Ricardo Rangel, autor de Uma nação sem noção.

FAUSTO – O que a internet tem feito com o processo do pensamento? Vem representando o maior dos paradoxos? Disponibilizar tanto conhecimento e encurtar tanto a reflexão.
Ricardo Rangel: O acesso instantâneo a todo tipo de referência é um fabuloso passo à frente para quem quer pensar com seriedade. Isso é indiscutível. E, nos círculos onde o pensamento é realmente apreciado, o falso pensamento, como o chute e o plágio, tornou-se virtualmente impossível. Na maior parte dos casos, entretanto, a verdade é que pouca gente tem o tempo ou disposição para pesquisar e chegar a suas próprias conclusões. Na prática, a internet facilita o não-pensamento: a maior parte das pessoas simplesmente compra pelo valor de face um recorte tendencioso, quando não simplesmente falso, da realidade, e o passa adiante sem a menor cerimônia. Antes, a maioria das pessoas não tinha capacidade de entender o que estava acontecendo e simplesmente não tinha opinião. Agora, essas pessoas continuam sem entender, mas têm opiniões enfáticas e definitivas. Nesse sentido, Umberto Eco tinha razão: as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis. Ou, para citar um filósofo brasileiro, Nelson Rodrigues, em outro contexto, os idiotas perderam a modéstia. E essas pessoas atrapalham muito o debate.

Deveríamos ter muito mais cuidado com o vocabulário? O uso indiscriminado de determinadas palavras estimulam comportamentos ou é uma suposição alarmista? Tomemos como exemplo a palavra “fascista”.
Quem quer ser compreendido, com certeza deve ser cuidadoso com as palavras, mas quem chama alguém de “fascista” não quer ser compreendido, quer apenas insultar. O petista usa “fascista” porque é o pior palavrão que consegue imaginar; a direita faz a mesma coisa ao usar “comunista”. É ridículo, porque nem uns são fascistas nem outros são comunistas, e a maioria nem sequer sabe o que essas palavras significam. Devemos ter mais cuidado com o vocabulário não porque chamar alguém de fascista estimule que ele tenha um comportamento fascista, mas porque insultá-lo estimula o ódio. E, se queremos reconstruir nosso país, precisamos parar de nos odiar.

Nós, brasileiros, somos mestres do pensamento maniqueísta?
O pensamento maniqueísta é o antipensamento, é a negação do pensamento. Nós não éramos mestres nisso, mas, hoje, com certeza, parecemos. Não é privilégio nosso, a polarização parece ser um fenômeno mundial, mas nosso caso é, de certa maneira, pior. Enquanto petistas continuam a idolatrar um criminoso que acaba de ser condenado pela segunda vez, antipetistas, mesmo tendo vencido a eleição, continuam mais interessados em odiar o ídolo inimigo do que em olhar para frente. Estamos presos não só ao maniqueísmo, mas também ao passado e ao atraso.

Para Marshall Mcluhan, os meios de comunicação elétricos – rádio, televisão… – romperam a tirania do texto. Nos “debates” das mídias sociais o texto tem vez. A interpretação de texto, mais ainda, porque permite direito de resposta imediato, algo que o livro impresso não permite. Vivemos a democratização da opinião ou a vulgarização da opinião?
Democratização e vulgarização são basicamente a mesma coisa, dois lados da mesma moeda. Por um lado, é positivo que todos tenham oportunidade de dizer o que pensam; por outro, parece que rigorosamente todos se sentem na obrigação de aproveitar essa oportunidade, mesmo sem ter nada a dizer, e o resultado é a cacofonia que nos assola. Há uma ironia e um paradoxo aí: a democratização extrema, o “empoderamento” — para usar esse termo lamentável —  total da massa, é um enorme risco, porque não existe nada mais brutal e intolerante, mais antidemocrático do que a multidão. Nesse sentido, as redes sociais — ou “antissociais”, como diz um amigo — são, em grande medida, um retrocesso, pois não só permitem como estimulam o ódio e os linchamentos.

O que pode ajudar cada um na avaliação das próprias opiniões?
O de sempre: desconfiar, verificar fatos, consultar fontes abalizadas etc. etc. Mas a minoria que está de fato interessada em avaliar suas próprias opiniões já faz isso, não precisa de ajuda. A maioria, que precisaria dessa ajuda, no entanto, está interessada apenas em confirmar suas próprias crenças e atacar seus adversários, muitos dos quais só existem em sua imaginação. O mundo de hoje é caótico e fragmentado — ou “líquido”, para citar o filósofo da moda —: todo mundo tem dificuldade de compreendê-lo e se sente inseguro e amedrontado. Em busca de conforto, em vez de examinar suas crenças, as pessoas tentam confirmá-las, menosprezando opiniões contrárias e disseminando fake news. Isso, por sua vez, gera mais incompreensão, incerteza, insegurança, medo. É um círculo vicioso.

Se tomarmos as redes sociais como instrumento político e analisá-las pela ótica da famosa frase do Mcluhan – “O meio é a mensagem” –, qual é a principal mensagem desse meio?
A principal mensagem é que as pessoas querem se convencer de que são importantes, de que sua opinião conta: todo mundo quer ouvir sua própria voz, todo mundo fala e pouca gente ouve. Essa fragmentação e essa cacofonia são causa e consequência de tanta confusão, incompreensão e insatisfação. No Brasil, em particular, há uma mensagem mais conteudística, que é a insatisfação com a crise, o desemprego, a violência, a corrupção, além de uma raiva furiosa com a classe política, incluído aí o Supremo. A percepção é que a classe política rouba do povo, é responsável pelo sofrimento do povo, mas não compartilha desse sofrimento, e é insensível para com esse sofrimento. Em que pese essa percepção ser basicamente verdadeira, a raiva é um problema, porque a solução desses problemas necessariamente passa pela classe política.

As redes sociais já se tornaram mais importantes do que o conteúdo que nelas é exposto? Ou seja, pouco importa o tanto de informação relevante que postamos, a lógica do algoritmo é que dá a última palavra?
Nas redes que têm algoritmo, como Facebook ou Twitter, é o algoritmo que dá a última palavra, mas ele usa como insumo nossos gostos e interesses, de modo que o que vemos não deixa de ser um espelho, ainda que distorcido, de nós mesmos. Nas redes sem algoritmo, como WhatsApp, nós vemos o que escolhemos, mas a maior parte das pessoas só escolhe ver aquilo com que concorda — ou de que discorda para poder xingar. Com ou sem algoritmo, a maior parte das pessoas é pouco exposta a argumentos contrários a seus próprios pontos de vista, o que fortalece ódios e preconceitos. Então, nesse sentido, acho que sim, as redes se tornaram mais importantes do que o conteúdo. Para voltar a sua citação de McLuhan, o meio é a mensagem.

É arrogante pensar que temos controle sobre o que consumimos na internet?
Absolutamente arrogante. Qualquer pessoa que acredite, de verdade, em livre-arbítrio, está mal informada — e isso muito antes da internet. Quase todas as nossas decisões são tomadas de forma automática, inconsciente, e mesmo as decisões conscientes são fortemente influenciadas por fatores que não controlamos. Até recentemente, essa automatização era positiva: se você tiver que pensar para frear o carro, vai bater. Hoje, entretanto, somando-se Big Data, poder de processamento, estatística e psicologia, é possível conhecer você melhor do que você mesma se conhece. É fácil induzir você a tomar decisões que não são boas para você. E se você acredita que tem controle… bom, aí mesmo é que você não tem a menor chance de defesa.

Hoje já pensamos, inconscientemente, que o Google é uma extensão de nós mesmos, e que por isso mesmo estamos “protegidos” de sermos passados para trás?
Não sei se “pensamos” isso, assim, de maneira ampla. É certo que é quase impossível enganar quem se dá ao trabalho de pesquisar. Mas a impressão que tenho é que quase ninguém se dá ao trabalho de checar nada no Google, basta ver a quantidade de fake news absolutamente alucinadas que são levadas a sério e disseminadas sem nenhuma cerimônia. Ou as perguntas mais triviais ou estúpidas que são feitas nos comentários de qualquer post. Aliás, é divertido ver quanta gente se orgulha de não ser “passada para trás” por conspirações que só existem em sua imaginação. Ou seja, foram facilmente passadas para trás pelos vigaristas que engendraram as tais teorias conspiratórias nas quais acreditam. E tem teoria conspiratória maluca para tudo o que é gosto.

 

Fausto

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Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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