Sábado

Há situações que os homens captam com o instinto, mas são incapazes de comentar com a inteligência, escreveu um dia Alexandre Dumas em seu tempo romântico. Séculos depois, hoje é sábado.

Dia de chinelo. Dia de meia no chão da casa a limpar a sensação de esmagamento da semana. Ou da vida, e que o sábado alivia porque é o dia de descanso do Senhor das coisas frustrantes dos outros seis.

Sábado.

Sábado é dia de andar pelo bairro. A menina magrela passeia com seu cão. Ela veste meia preta até a canela, algo estranho. Ele tem patas cor de madeira nova. O cheiro dela é de cama ainda quente; o dele, dele mesmo.

Ela aparenta ter uma vida que só começa de verdade depois do animal satisfeito. Talvez por isso a impressão é a de que não se importam com o cheiro um do outro. Será esse o segredo do bem conviver?

Ao longe, mas não tão longe, ouvi Vivaldi, uma de suas valsas. Não sei o nome de memória, mas sei ser ele. Há mesmo algo de sábado em Vivaldi.

O som parecia vir de um daqueles apartamentos. E quem ouvia devia estar em êxtase. Até nós estávamos.

Nós, transeuntes da inércia do dia que a tudo se perdoa. Porque é domingo o dia dos rancores. Por distração, passei então a tentar adivinhar de onde vinha a valsa.

Mais alguns passos e a cena fulminou minha razão. O som não vinha de nenhum apartamento de janelas amplas, típicas dali.

No quintal de um casarão antigo, um senhor e uma senhora, ambos grisalhos, dançavam. O tempo parou diante da cena. O tempo do bairro e o tempo em mim.

O sorriso dela era como um milagre. Vestia vermelho. Parei alguns minutos, ali, diante deles a irem e virem. Eles tinham um plano.

Foi quando abriram o portão e pediram para que entrássemos. Já éramos muitos a olhar, sem conseguir explicar, aquilo que víamos. Quem se rendeu, entrou, e se sentou na grama bem cuidada, sem excessos.

Outros, do lado de fora, eu, continuaram a olhar sem coragem, porém cheios de gratidão. Por que gratidão, não tenho certeza. Talvez por ser capaz de regenerar as emoções feridas.

Eram eles o senhor e a senhora do sábado. O plano era que todos dançassem. Então quem ousou formou seu par. Alguns em roupa de ginástica, outros em roupas sem cor. Os gestos desajustados pouco importaram. E de repente o jardim daquela casa, naquele bairro, tornou-se um baile descontraído, embora com uma reverência quase religiosa: vem como estás.

Há situações que os homens captam com o instinto, mas são incapazes de comentar com a inteligência. Todo o restante do dia foi uma inusitada reflexão sobre o nascer de novo, a função do sábado. Sobre o que o pensamento não alcança. Só a música. A dança. O par.

 

Fausto

Fausto

Fausto

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

Os Comentários estão Encerrados.