Só os corajosos são vulneráveis

Só os corajosos são vulneráveis. Só os vulneráveis amam verdadeiramente.

Não, não há contradição nas sentenças.

Eu, que elaboro, elaboro, elaboro, quase sempre elaboro demais. Quem sabe a hora exata de parar o pensamento? A lembrança de seus olhos é a primeira transcendência de meu dia.

Sou corajosa quando paro de pensar se existe saída para que saia de mim e passo então a vivê-lo como um encontro com Deus. O meu sublime é sua voz desalinhada com as vogas do mundo, como se apenas nós estivéssemos a salvo em nós.

Recordar, repetir, elaborar, se esse é o caminho para ressignificar tudo, só não funciona quando o amor é condição espiritual.

Em poder dos anjos está toda a minha capacidade de escolher certo; que escorreu entre meus dedos quando os estendi para que os beijasse. Depois de então guardei meu corpo.

Hoje pensei em escrever uma história de amor. Incompleta como eu, cruel como o destino que me escolheu quando tão raro e impróprio, hoje, é amar.

Amar é perder a vez.

É ser subscrito com procuração.

Ainda que me custe perder a vez, escolherei que me deixe como o seu refúgio. Quando me olha sei que deseja essa paz de olhos furiosos que sou. E também não sou uma contradição de termos.

Amor é de repente areia movediça. Basta, contudo, a paciência para que o corpo flutue e volte à superfície e a experiência de se abandonar se revela um riso infantil.

Respirar fundo é mentira moderna. Controle? Cilada satânica que tiraniza. Desconjure! Amar é se deixar ser vulnerável aos pedacinhos, todos os dias. É se perceber mutilado por escolha.

Leve de mim, leve! Leve de mim o tantinho que melhor lhe sirva para ser maior do que eu. Quando me levar toda, serei parte sua.

Ou não serei mais nada.

Também um bom fim.

 

Fausto

Fausto

Fausto

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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