Sobre meu amigo Antônio

Todo dia, às 9h30, ele passava pela minha mesa. Antes de subir a escada de madeira que rangia, dizia:

_ Bom dia, Amarela!

Roubei-lhe de sua turma já nos primeiros dias. Pensaram que havíamos nos tornado amantes. Que nada! Foi encontro de alma gêmea, como se diz nas crendices. É que havia nele um espaço que me coube por completo. Sem aperto de alma, sem sufoco de emoções, sem desalinho das ideias. Antônio era o seu nome.

Foi já no segundo almoço, num casarão da Alameda Jaú, que Antônio me contou como conhecera sua mulher. Ele repetia em intervalos:

_Sou louco por ela!

Jamais duvidei disso por todo o tempo que se seguiu de nossa amizade. Muitas vezes até a invejei. Não porque eu achasse que Antônio era perfeito. Não, não. Eu achava Antônio engraçado. Meu riso era sempre muito alto com ele. Meu riso com ele era tudo o que eu jamais conseguira ser até então: livre.

Nunca conheci uma pessoa tão elegante no trato social com desconhecidos, de um apuro da linguagem que encantava. Entre os íntimos, contudo, nunca conheci alguém de fala tão chula, jocosa, divertida. Hoje, totalmente o dito incorreto. E hoje, dou nome a isso de intimidade. Intimidade é o espaço mais seguro. O espaço mais belo. Esse homem tão de extremos era meu espaço seguro.

Lembro agora de Roth. Não tive tempo de conversar com Antônio sobre Roth. Falamos tanto de livros, de vinis, de amor, mas não deu tempo de falar de Roth. Tempo. Aproveitamos todo ele, enquanto o tivemos juntos. Horas de sebo, horas de chá e chocolate quente com coco. O primeiro dele; o segundo, meu.

Valor enigmático é o do tempo. Um enigma subjetivo, porque para cada um significa uma coisa. E temos mais certeza disso quando não o temos mais, principalmente com quem amamos.

Três dias antes de partir para o mundo de além, Antônio me telefonou. Lembro que eu estava de passo apressado pela Estação Luz, quando ouvi sua voz e a frase que jamais esquecerei:

_ E aí, Amarela? Como você está? Estou com saudades.

Falamos amenidades em segundos. Desligamos dizendo:

_ Amo você.
_ Eu também.

Enquanto amo alguém, não tenho medo de amar. Não tenho medo de palavras de amor, de lágrimas de amor, de dores de amor. Se o amor não é a experiência mais transformadora da existência, não sei o que pode ser. Mas esse meu dizer já é arroz.

Quando soube de sua partida para o mundo de além, chorei duas ou três lágrimas quentes. Senti-me insensível porque não chorei mais. Embora só até compreender em mim que quem amo é a poesia que nunca se esgota. Quem parte, permanece em versos.

É facílimo dizer que seríamos melhores hoje com quem ao lado não está mais. Nada prova ser verdade. Casais que reatam ante promessas de nunca mais, sabem. Assim como amigos que se recuperam e mentem sobre os abismos em que se perdem assuntos valiosos, que jamais voltarão a ser conversados.

Contudo, sei que eu seria melhor com Antônio hoje do que sei que fui. Hoje sou leitora de Adélia. Não há cotidiano que me escape sem um verso sentido. Não há segundo que eu perca sem olhar nos olhos de quem amo. Antônio me voltou à mente como uma régua de sentido em meus movimentos de ouriço.

Nos momentos mais difíceis de anos atrás, Antônio me vinha em sonhos. Não foi uma ou duas vezes. Pensava que sentia saudade de mim no mundo de além. Hoje, Antônio celebraria minhas conquistas tirando o sarro de sempre de minhas vaidades e minhas paranoias. Mostraria de maneira divertida que sempre escolho mal meus amores, mas jamais deixaria de encorajar minha sensibilidade. A verdade é um jogo de percepções, só enxergamos o que podemos suportar.

Por que escrevo hoje sobre Antônio? Porque venho pensando nisso de que, em amor, ninguém vai ao fim em suas teorias. No espaço com aqueles que amamos o mundo é melhor. Que louco abre mão do riso livre para ter razão? Se abre, não ama. Onde não se ri livremente ninguém deveria ficar. Antônio era esse riso desmedido do não julgamento.

O tempo não volta.

O tempo é suspensão. Quem amamos ou a lembrança de quem amamos é uma forma de suspensão. Para além da retórica está quem verdadeiramente nos mantém vivos. Que haja sabedoria para percebermos quem nos mantém vivos.

 

 

Dedico à Andrea Kogan.

 

leia fausto

Eliana de Castro Written by:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP.

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