Somem os hiatos

Ainda faz sentido o som do telefone antigo? Aquele que antecede a sentença que pode mudar tudo para sempre: retornos, partidas, rupturas. Estímulo sonoro que cega momentaneamente para o que há ao redor e os ouvidos tornam-se portas da imaginação. Retornos, partidas, rupturas. Reconciliação.

A ligação era inesperada para os dois extremos da linha. Uma ponta movida pela força da compreensão de um sentido; a outra, à espera de um perdão sossegado.

_Estou ligando apenas para perguntar se você ainda me ama?

A risada era a mesma. Ainda fazia sentido para ele o meu humor árido, de frases abruptas sobre afetos brutais. Nesse seu ânimo tão particular, nos situamos Taylor-Button alegóricos. Alteramos o tempo quando voltamos a ser íntimos. Somem os hiatos, tornamo-nos novamente vogais de pico estrondoso.

_Sim. Temos uma história juntos.

Só sei ser em gestos de devoção. Poder adorar abstrações! Ansiar cheiro de pele ou alcançar olhar perdido, tanto faz, quero é estar no exato instante que tudo acaba e recomeça. É vício límpido em minha voz e em minhas lágrimas. Sou loucura espirituosa para os livres, perturbação para quem chora sozinho. Sou a carta de amor ridícula de Pessoa, um eufemismo para assolapada.

Preciso de construções difíceis. Ver-me naqueles olhos para que desabrochem minhas facetas de benevolência. Ele me vê. E não há perigo maior para uma grande alma do que saber ser vista, não importa o tamanho do deus. Então irradio a criatividade que move o eixo do mundo.

O amor é o livro que se quer ler. Uma aventura interpretativa, inesgotável em toda palavra. Faz-se nova a cada releitura. É um mover épico, nem sempre paciente na escolha da melhor palavra. Epopeia, porque sabe ser parte de algo maior. Há sempre um gesto que muda o rumo de tudo.

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

Os Comentários estão Encerrados.