Maurício Righi: “Dalrymple critica a modernidade nos termos da própria modernidade”

Theodore Dalrymple. O profícuo ensaísta britânico – atualmente um dos nomes mais importantes do pensamento -, escreve sobre o que quase ninguém gosta de escrever e de um jeito que poucos conseguem escrever. Sem que tenha de abrir mão de análises profundas para alcançar o leitor geral, Dalrymple tem sido uma leitura cada vez mais urgente em tempos de aprendizados rápidos, e por isso mesmo superficiais. Quem ainda não conhece o autor de Podres de Mimados ou A Vida na Sarjeta, entre outros títulos interessantes, pode começar por Theodore Dalrymple – A Ruína Mental dos Novos Bárbaros, de Maurício Righi, parte da coleção Biblioteca Crítica Social, lançada pela É Realizações. O ensaio envolvente e bem fundamentado apresenta o escritor e tece um panorama de sua obra. Com exclusividade para a Fausto, o historiador formado pela USP e doutorando em Ciência da Religião pela PUC-SP, bate um papo sobre o também psicanalista que, segundo o nosso entrevistado, “dispõe de qualidade intelectual, experiência profissional e autoridade moral”. Confira!

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Fausto – Por que é urgente ler Theodore Dalrymple?
Maurício Righi: Vejo Dalrymple como o representante atual mais completo da face “iluminada” do iluminismo britânico, essa tradição formidável do pensamento largamente responsável pelos ventos de liberdade ainda presentes nesta porção do mundo. A urgência das reflexões que Dalrymple nos recomenda é proporcional ao imperativo de se preservar uma cultura de pessoas livres, e que se faz absolutamente necessária em nosso tempo; na verdade, em qualquer tempo. A tradição em que ele se fundamenta e da qual se faz representante ilustre continuará urgente, na medida em que “baixar a guarda” significa retroceder aos perigos de formas e práticas totalizantes que estão sempre à espreita, prontas para tomar sociedades inteiras de assalto. Mais ainda, ele nos fala da falência de certos modelos igualmente iluministas, e que respondem por sua face “obscura”. Estes sequestraram a iniciativa do homem comum, acorrentando-o na dependência das estruturas políticas. Dalrymple tem a mesma urgência que tiveram, em suas épocas, pensadores e escritores como Samuel Johnson, Edmund Burke, Alexis de Tocqueville, Ivan Turgueniev, Lorde Acton, T. S Eliot, dentre outros. Trata-se de um autor que critica a modernidade nos termos da própria modernidade; um pensador integrado ao seu tempo, mas que não se deixou escravizar.          

Dalrymple traz um novo olhar sobre a responsabilidade do indivíduo?
Essa “novidade” é velha conhecida. Dalrymple nos recorda de antigas e imprescindíveis verdades partilhadas pelo senso comum, mas que foram soterradas por gerações e mais gerações de retórica vitimista. Como ele mesmo diz, o mandarinato intelectual do Ocidente se fez de cego às mais simples evidências da vida concreta, como no caso da responsabilidade de cada um por suas escolhas e sua vida, ainda que a dose de responsabilidade varie em cada caso e circunstância. Ao mesmo tempo, esse mandarinato elevou à categoria de verdade inviolável as mais tolas abstrações, como no caso da hipótese do bom selvagem. Esse tipo especialmente venenoso de desonestidade intelectual foi se acumulando e, hoje, representa a maior ameaça para as sociedades livres e prósperas.

Qual é a hipótese do bom selvagem?
Em resumo, trata-se de supor uma origem do homem sem a categoria teológica da queda adâmica. Uma forma de substituir a cosmologia cristã por outra cosmologia. No caso, uma que idealiza as paixões humanas. A ideia do bom selvagem pode ser lida como mais uma tentativa de restaurar a cosmologia de uma época de ouro perdida. Não há nada de muito novo nisso. Conceber o homem em pecado é essencial para a ética do perdão e, consequentemente, da reparação e da responsabilidade da consciência.

Quais são os principais equívocos que se atribui a Dalrymple, mas que em sua obra não há registro?
Como ocorre em geral aos pensadores conservadores de qualidade, seus críticos dirigem-se menos às ideias em discussão e mais aos supostos “interesses” por trás das ideias. Na verdade, trata-se de um subterfúgio bem conhecido que busca desqualificar a pessoa sem precisar entrar na discussão em si. No caso de Dalrymple, no entanto, essa manobra se torna particularmente difícil por dois motivos: em primeiro lugar, seu pensamento faz restrições severas tanto ao protecionismo estatista/corporativista quanto ao individualismo radical, o que o liberta dos alinhamentos tradicionais dos poderes político e econômico; em segundo, além da simples discussão de ideias, Dalrymple trabalhou por anos como médico junto aos segmentos mais pobres, degradados e maltratados da sociedade, e não só nos rincões pobres da Inglaterra, mas também em diversas regiões do chamado Terceiro Mundo. Estamos diante de alguém que dispõe de qualidade intelectual, experiência profissional e autoridade moral.  

Pelo caráter direto de suas ideias, Dalrymple também pode ser uma arma na voz de extremistas ou formadores de opinião mal-intencionados?
Essa pergunta é interessante, pois me faz pensar que qualquer divulgador e articulador de ideias pode ser mal interpretado e ter seu pensamento deturpado por extremistas ou por sabotadores. Uma vez alocadas no domínio público das discussões, as ideias de um autor perdem automaticamente o vínculo exclusivo com este. Autores de peso precisam de comentadores qualificados, o que felizmente ocorre em sociedades cuja vida intelectual tem certo lastro. Mesmo assim, sempre haverá o risco de um autor de qualidade ficar submerso no zeitgeist de uma época obtusa. Ou mesmo de uma época que ainda não pode compreendê-lo.

É imprescindível não fazer generalizações para entender Dalrymple?
É imprescindível que não se façam generalizações sobre qualquer autor mais sofisticado, incluindo Dalrymple, é claro. Infelizmente, vivemos numa era de generalizações e leituras “fáceis”. Muitas vezes, falta ao público falante certa introspecção e disciplina de leitura que antecede, ou deveria anteceder, a discussão. Por outro lado, Dalrymple não é um autor difícil, muito pelo contrário, e sua atual popularidade se deve muito ao seu ensaísmo. Ou seja, ele é alguém que fala de coisas sérias e profundas em linguagem acessível ao público relativamente interessado e educado. No entanto, aqueles que colocam generalizações cristalizadas em cima de qualquer assunto continuarão a incomodar, mas isso faz parte do debate público, especialmente no campo da crítica social. De nossa parte, devemos continuar atentos e separar o joio do trigo.
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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