Os Arrais e o sentimento “oceânico”

Sabe o sentimento “oceânico” ao qual se referiu Freud em “O Mal-estar na Cultura”? Se não sabe, vale a pena passar na próxima banca de jornal e adquirir o livreto a um preço inacreditavelmente baixo comparado à experiência que proporciona para o pensamento. É neste livro que está uma das passagens mais lindas escritas pelo psicanalista austríaco. Freud cita o termo que se tornou famoso quando relata uma conversa que manteve com um amigo. “Sentimento oceânico” é então uma expressão do amigo, e não dele. Ela está relacionada à “genuína fonte da religiosidade” que Freud, como ateu, nunca havia apreciado: “Não consigo descobrir esse sentimento “oceânico” em mim mesmo.”

O que isso tem a ver com “Os Arrais”? Se não tudo, muito. Sabe quem viu os rapazes no Teatro Bradesco, em São Paulo, na última segunda-feira, 4 de julho. Ou quem prestou atenção.

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Foto: Lucas Motta.

Dois irmãos. Tiago Arrais e André Arrais. Eles formam uma dupla brasileira de indie folk cuja inspiração artística é religiosa. Talentosos rapazes que veem em Deus a razão de tudo e a religião como um, sim, sistema cultural, mas neste caso não imposto como uma farsa, ou adotada como ilusão, subterfúgio, máscara narcísica ou qualquer coisa do tipo. Ver e ouvir Os Arrais deixa isso muito claro. Há neles o sentimento “oceânico”. Interessante é que o nome “arrais” significa “pequena embarcação” e os irmãos usam constantemente imagens de barco e oceano.

Mas este artigo não é sobre a apresentação musical que lotou o teatro paulistano em plena segunda-feira? Sim, porém, não. É que é impossível. Trata-se na verdade de outra singularidade da música de Os Arrais. Alguns diriam ser a segunda faceta do trabalho da dupla, mas pode configurar-se, com boa dose de segurança, como um grosseiro erro. É a primeira faceta. A música que apresentam é a forma onde guardam o tesouro: o conteúdo. Tem que ouvir “Mais” e “As Paisagens Conhecidas”.

A proposta artística de Os Arrais possui um elemento talvez pouco conhecido, ao qual damos o nome de “numinoso”. Aquilo que é numinoso é o que não pode ser compreendido de modo racional, mas somente quando é “experenciado”. O conceito é do teólogo protestante alemão Rudolf Otto, séculos XIX e XX. Talvez, por isso, só será possível compreender a proposta dos irmãos quem experimentá-la e com espírito contemplativo que, sim, quer dizer desconectar-se de tudo: desde os aparelhos eletrônicos aos interesses cotidianos.

A arte é uma fonte infinita de experiências numinosas. Assim como a religião. Separadas, elas já proporcionam sensações capazes de mudar a estrutura tanto psíquica como de valores de uma pessoa. Juntas, elas são capazes de abrir um caminho de mudança real no ser. Esta a que Tiago Arrais tão sabiamente delimitou: não mais – ou não apenas – uma experiência estética, mas sim ética (o que jamais pressupõe ser uma experiência destituída de beleza, o que é sempre bom deixar claro). A diferença, grosso modo, é abrir mão da superficialidade para viver algo maior.

O sentimento “oceânico” não é composto de rompantes emocionais repletos de uivos de “glória” e “aleluia” que não ressignificam o tempo todo quem somos. Não tem nada a ver com isso. Saber mais, sentir mais, experimentar mais – se conhecer mais. A experiência que propõem é mais elevada. Vai além de meras músicas organizadas em um álbum precificado.

Fausto negociou com o diabo para se sentir preenchido, para achar a resposta, para suprimir a vaidade de poder dizer – e viver – como quem sabe quem se é e para quê veio ao mundo. “Só a cruz esconderá quem você não é”, diz uma das letras. Os Arrais apresentam uma experiência artística – literária e musical – que propõe uma luz. Ou pelo menos caminhos menos angustiantes para se chegar ao que faz sentido.

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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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