Andrew Roberts: “O pai de Churchill escreveu cartas que nenhum pai deveria escrever a um filho”

Andrew Roberts considera Winston Churchill o homem do século XX. E foi para esmiuçar este grande mito que o renomado historiador dedicou 1.300 páginas em quatro anos de trabalho só da escrita – e mais de trinta de pesquisa acerca do mais carismático primeiro-ministro da História. A faustuosa biografia Churchill: Caminhando com o destino apresenta o que todos desejam saber, ainda que não assumam: como foi em minúcias – entre magnificentes decisões e banalidades cotidianas – a trajetória deste líder sentimental, passional, autêntico e, claro, exímio com as palavras. Com exclusividade, simpatia e leveza, FAUSTO conversou com o também biógrafo de Napoleão Bonaparte, este que Roberts crê ter sido o homem do século XIX. Será que o historiador já vislumbra o mito do século XXI?

Andrew Roberts.

FAUSTO – Afinal, existe destino ou não?
Andrew Roberts: [Dá risada] É uma pergunta muito boa. Não, penso que acreditar em destino é uma forma de desordem psicológica, o que para muitas pessoas seria algo ruim, embora para Churchill tenha acabado sendo algo muito bom.

Experiência e reflexão são degraus mais seguros na construção de uma trajetória notável ao contrário de crer em destino?
Sim, muito mais. Penso também que aprender com os próprios erros tem um papel tremendamente importante, e certamente foi o que aconteceu com Winston Churchill. Ele cometeu engano após engano, erro depois de erro, mas aprendeu com todos eles. E se isso não tivesse acontecido em sua trajetória, ela teria sido desastrosa. Uma vez, ele disse à sua esposa Clementine: “eu não teria feito nada se eu não tivesse cometido tantos erros.”

A próxima pergunta já estava na pauta, mas vou adiantá-la. Qual foi o papel de Clementine na construção do mito Churchill?
É uma pergunta muito boa! Eu não acho que ele tenha ouvido os conselhos dela nas pequenas coisas. Por exemplo, ele ia comprar uma casa sem falar com ela. Entretanto, nas grandes questões, principalmente as grandes questões políticas, Churchill ouvia os conselhos de Clementine. Ele sabia que ela estava ligada a ele e, principalmente, que ela sempre lutaria por ele. E ele precisava disso em sua vida. Ele respeitava isso.

Sobre a autenticidade do Churchill: você escreve que não havia diferença entre o Churchill figura pública e o Winston, homem privado. O que essa autenticidade custou para ele?
Custou boa parte de sua popularidade. Em algumas ocasiões, ele dizia algo que os políticos não costumavam dizer. E exatamente por ele não ter tido determinados filtros, resultou em pessoas que não confiavam muito nele. Então, ele teve que pagar por isso algumas vezes. Em contrapartida, significava igualmente que, quando ele dizia algo nada popular, como, por exemplo, se opor aos alemães – isso antes da Segunda Guerra, enquanto ainda havia paz – as pessoas sabiam que ele falava de coração.

A vontade de Winston Churchill de ser um grande homem foi uma maneira de provar a seus pais que eles estavam errados?
Que seu pai estava errado. Sua mãe sempre achou que ele era especial, mas seu pai, não; ele não conseguia ver nada de especial no Winston. E, por isso, sim, ele queria provar que seu pai estava errado, mesmo depois que morreu, aos 45 anos, e Winston já tinha 20. Ele estava tentando se provar para a sombra de seu pai. Sua mãe, contudo, o incentivou e o ajudou. Ela tentou de tudo para que Winston fosse alguém na vida. Então, neste sentido, sim, ele queria provar algo também para ela.

Acredita que Churchill estava ciente dessa falta de reconhecimento de seu pai?
Sim, estava longe de não saber, porque seu pai escreveu cartas que nenhum pai deveria escrever para um filho, cartas cheias de desprezo, raiva e amargura, especialmente quando contraiu uma rara doença no cérebro, que acabou o matando. Algumas pessoas diagnosticaram como sendo sífilis, mas ele sabia que estava colapsando como ser humano. Seu pai, algumas vezes, pegava algumas pessoas, como fez com seu filho, e tratava com vulcões de desprezo.

Qual convicção que o Churchill teve que mais falta nos líderes de hoje?
Penso que, talvez, seja justamente a capacidade que falamos antes, a de dar más notícias para as pessoas, como fez em seu discurso “Sangue, trabalho, lágrimas e suor”, o de 13 maio de 1940, quando disse aos britânicos que tudo o que eles poderiam esperar eram aquelas terríveis palavras de sangue, trabalho, lágrimas e suor. Infelizmente, os políticos de hoje tendem a colocar sempre a melhor possibilidade, eles reivindicam de mais e entregam de menos; mas Churchill, embora fosse brilhante, reivindicava muito pouco e entregava muito mais.

Se Napoleão foi o homem do século XIX e Churchill o homem do século XX. Quem chama sua atenção como o possível homem do século XXI?
Não acho que ele já tenha nascido. [Dá risada]

Eu ia justamente acrescentar isso, se ainda é muito cedo. Mas você tem esperança de que nascerá alguém capaz de causar tamanho impacto em nossa era?
Acho que sim, acredito que surgirá um grande homem ou grande mulher que fará a diferença, um indivíduo que será a chave fundamental para a História. Agora, penso que em nossa era há várias coisas que militam contra esse tipo de grandeza, talvez as mídias sociais sejam uma delas – por mais que eu ache que Churchill seria muito bom com elas, porque ele tinha um ótimo jeito de fazer com que seus pontos de vista, seus argumentos e até suas piadas tivessem 240 caracteres ou menos.

Foram quantos anos de pesquisa para chegar a esse resultado?
Quatro anos para escrever o livro, em específico. Todavia, esse é o quinto livro que escrevo sobre Churchill. Então, posso dizer que comecei há trinta anos. Neste sentido, me sinto como Churchill: minha vida foi uma preparação para essa hora, para essa provação, no caso, o julgamento dos leitores.

E quais foram “as horas mais escuras” dessa pesquisa?
[Dá risada] Bom, sempre existe um momento em que você teme que não terá nada de novo para dizer. No primeiro ano, mais ou menos, eu estava escrevendo praticamente o mesmo que os demais biógrafos. Foi quando fiquei sabendo que a sua Majestade, a Rainha, daria a permissão para eu usar os diários de seu pai, o Rei George VI. Então, depois de um ano de pesquisa, cruzei com essa maravilhosa nova fonte no Castelo de Windsor, onde estão os arquivos reais. Depois disso, ainda encontrei os diários do embaixador soviético que estava em Londres durante na época de Churchill. A família do Churchill também me deu as cartas de amor que Pamela [Plowden, primeira namorada] escreveu durante a Segunda Guerra Mundial. Depois que essa hora mais escura acabou, percebi a avalanche de novas informações que eu tinha para usar.

Foi difícil entrar em contato com o lado “sombrio” do Churchill?
Sim, ele tinha muitos pontos de vista que, hoje, seriam considerados completamente obscenos e absurdos, sem nenhuma base científica. Mas, como tudo na História, é preciso deixar o objeto de estudo no seu devido lugar histórico. Churchill nasceu enquanto Darwin estava vivo, e nesta época as pessoas acreditavam numa hierarquia das raças. Portanto, ele acreditava em coisas que hoje consideramos ridículas.

Mundo afora, as críticas a respeito do livro estão sendo positivas? Elas estão levando em consideração tua admiração clara por Churchill?
Não sei ao certo. Gosto de pensar que as críticas estão sendo pelo livro e pela qualidade da escrita, e não por minha admiração pelo Churchill. Creio que muitas pessoas o admiram, mas espero que mais pessoas que estão tentando entendê-lo passem a admirá-lo. Tento, em todo o caminho, deixar claro todos os lados dos fatos, porque o livro não é uma homenagem ou bajulação, é um livro objetivo que conta a trajetória do Churchill e o tempo em que viveu.

Confesso que adoro livros que deixam claro certa admiração. Eles não deixam de ser objetivos e ainda podem ser mais interessantes…
Isso é muito gentil de sua parte. Sem “pinceladas” em chiaroscuro, não dá para ter uma visão diferenciada, com luz e sombra. Em outras palavras, sem essas perspectivas, o livro fica chato. O leitor não tem tempo para isso, uma vez que julga a partir de sua própria experiência que ninguém é completamente bom ou completamente ruim. Talvez, somente uma ou duas pessoas na História tenham sido completamente ruins, como Hitler ou Stalin.

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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