Mario Prata: “Com 14 anos, eu já escrevia tudo no jornal de Lins”

Além da maestria em fazer rir, o escritor Mario Prata é testemunha de uma era. Quem já leu Minhas Mulheres e Meus Homens, de 2008, pode ver os laços fortes — e sim, invejáveis — que mantém com grandes nomes do teatro, da TV, da música e da literatura. Todos são íntimos e o tratam com carinho singular. “Pratinha” é, para todos os nossos ídolos, o grande e doce amigo. O desfile de pequenas histórias, porém, não apresenta apenas “causos” engraçados. O livro é uma bela maneira de conhecer o homem por trás do cronista. Se levarmos em conta que o escritor e dramaturgo domina as letras há 55 anos, seria razoável supor que os textos que apresenta revelam dele apenas o que lhe interessa. Mas não. Mario Prata é o seu próprio texto. A entrevista a seguir, cedida com exclusividade, é uma tentativa de evidenciar esse humor jocoso e livre. Desprovido de vaidade, o que caberia a qualquer um que carrega o título de “um dos melhores”, Prata responde às perguntas, trocando de lugar com as personalidades que levou à berlinda em seu mais recente livro, Mario Prata entrevista uns brasileiros, sucesso de vendas em 2015. Apresentamos então: um grande brasileiro.

Mario Prata
Mario Prata.

FAUSTO – Em Mario Prata entrevista uns brasileiros, você tocou no “calcanhar de Aquiles” de todos os seus entrevistados. A verdade está quase sempre escondida?
Pô, já começou pegando pesado.

A história é feita de verdades “convenientes”?
O problema de todos esses personagens é que a história deles já é uma mentira. A primeira História do Brasil, que vejo contada de 1950 para cá, não é bem assim. Há falsos heróis. A literatura sobre a História do Brasil é muito pobre. Não sei o que fazem as pessoas que estudam História. Ou só fazem teses que ninguém lê, só a banca para dar nota. E há teses interessantíssimas, mas escritas apenas para três caras lerem. Quem tem escrito a História do Brasil são os jornalistas: Ruy Castro, Fernando Morais, Peninha [Eduardo Bueno], Laurentino Gomes. A História do Brasil é riquíssima.

Surpreendeu-se durante as pesquisas para escrever Mario Prata entrevista uns brasileiros?
Sabia pouco dos personagens que escolhi. Peguei o [Padre] Anchieta para ferrar com ele, mas durante a pesquisa descobri outras coisas. Ele não foi apenas o que aprendi na escola. Ele foi um grande cara! Ajudou até em guerra. Ficou amigo do Mem de Sá, que foi só o governador-geral do Brasil. Acho que nem coloquei isso no livro, mas descobri que ele foi irmão do Sá de Miranda, um poeta português que inventou o soneto, lá em 1500 e cacetada. Do livro, qualquer personagem que você pega, tem ramificações. Do Charles Miller, por exemplo, só sabia que ele tinha trazido o futebol para o Brasil.

Imagino que sim…
Aconteceu uma coisa muito louca nesse livro, porque não escrevi as entrevistas em ordem cronológica. Então, quando coloquei na ordem, percebi que fiz sem querer – não vou dizer “estudo”, porque seria pretensioso, não tenho capacidade para isso – uma espécie de leitura da formação racial do povo brasileiro. Começo pelos índios e os portugueses, que são quase brancos, são mouros. Os brancos começaram a vir para o Brasil no fim do século XIX, começo do século XX. Até então eram os portugueses, os índios e os negros, e a mistura que essas três raças davam: cafuzos, mamelucos e mestiços. Quando cheguei ao Carlos Gomes, descobri que ele era filho de todas essas raças. Seu pai era português, a mãe mulata. Do outro lado, era cafuzo com mameluco, era um troço muito louco. Ele foi a síntese da formação do povo brasileiro até aquele momento.

E depois?
Depois, pensei: “Agora quero um branco”. Uma vez o pai do Chico Buarque, o Sérgio Buarque de Holanda, me falou que não havia branco no Brasil, que os únicos eram da família Geisel. Somos todos pardos. Aí, pensei no Charles Miller, que é filho de inglês com escocesa. Foi uma surpresa para mim, que além de tudo o que ele me contou, de como surgiu o futebol, a vida pessoal do Charles Miller foi muito interessante, porque ele se casou com a Antonieta Rudge, filha de ingleses, e essa Antonieta era uma pianista famosíssima no Brasil, que é a única que tem busto em São Paulo. Aliás, muitas têm busto em São Paulo, a maioria de silicone, mas de bronze é só a Antonieta, fica no bairro de Pinheiros.

[Dá risada]
Então, a história é contada pelos vencedores. Tem muita coisa que descobri que as pessoas não divulgam.

Dê outro exemplo.
Dom João VI fez coisas ótimas no Brasil. A mãe dele, a Maria, fez coisas ótimas em Portugal, mas entrou para a História como louca; e o outro como quem fugiu do Napoleão. Não foi bem assim. Ele trouxe 16 mil pessoas para cá, inclusive meus antepassados. Tem um bando de corruptos, um-sete-um. O historiador conta do jeito que quer e resolvi contar do meu jeito, mesmo não sendo historiador. Preocupei-me em contar com quatro profissionais de história para me ajudar. Não queria escrever besteira. Esse livro, talvez, seja o mais prazeroso que fiz. Não tive que me preocupar com a unidade geral dele. Cada parte era como se fosse um livro. Ficava dias ali… E aí, quando juntei, foi engraçado.

Você sugeriu ao Carlos Gomes, em off – o que é muito brilhante – que ele tocasse no assunto da educação. Qual é a intenção implícita com este livro?
Ganhar dinheiro. Se você perguntar para um médico porque ele faz operações, ele não vai falar que sente tesão em fazer operações, ele quer ganhar dinheiro. Um escritor dizer isso o torna mercenário. O primeiro objetivo do meu trabalho é ganhar dinheiro. E deve ser do seu também. Apesar de já ter recebido alguns e-mails de professores dizendo que vão adotar meu livro na escola – o que me deixou contentíssimo – não escrevo nada de graça. Como médicos não operam de graça, advogados e tal. Não sei por que escritor tem que fazer algo de graça, e fico puto quando falam: “É um textinho pequenininho”.

Sei bem como é…
Respondo assim: “Meu filho, a Teoria da Relatividade tem três letras.” Depois de ganhar dinheiro, meu objetivo é escrever algo engraçado, para as pessoas rirem, se divertirem. E também sair um pouco desses últimos sucessos de livros no Brasil, que são essas histórias de amor: “50 Tons de Ignorâncias”, esse tipo de coisa. Essas mocinhas que escrevem essas histórias cor-de-rosa, pueris. Não é por aí literatura. É legal para o novo leitor apenas. Qualquer livro que venda bastante me deixa muito feliz, mesmo que seja uma merda, porque está pegando leitor novo.

Na entrevista do Rui Barbosa a questão da educação volta. Qual é a solução prática para esse Brasil “incompetente”?
Tudo é educação. No Brasil, fazemos tudo de ponta cabeça. Aumentam os crimes, eles aumentam as prisões. É tudo assim. Eles vão fazer pesquisa sobre como está a educação no Brasil com vestibulando. Dá merda! Ninguém sabe nada. Tem que fazer pesquisa com o primeiro ano do primário. No primeiro ano do primário tinha que ter professores ganhando o que ganham os juízes, 35 mil. Até eu ia fazer concurso!

[Dá risada]
Ia fechar as escolas particulares… Em 16 anos, o cara chega à faculdade sabendo tudo. Não precisa de cursinho, que é outra abominação. O vestibular é pior ainda. Cota, então, é a coisa mais estranha que já vi na minha vida. É a maior prova de que somos racistas. Em vez de dar cota para pobre, dá para negro. Como isso da redução da maioridade penal para 16 anos, eles estão pensando no negro, não nos filhos deles que colocam fogo em índio, por exemplo. Se a educação fosse trabalhada desde o primeiro ano do primário, os alunos saberiam tudo: inglês, francês, espanhol. O ensino no Brasil é ruim. Os professores ganham mal, não têm tempo para estudar. Eles têm que corrigir prova! O ensino ainda está nessa de corrigir prova. As faculdades são primárias. Na Inglaterra, por exemplo, você não entra para medicina, engenharia, você vai fazendo matérias. Depois, com tais matérias feitas você é encaminhado para isso ou aquilo. Ele vai estudando matérias que interessam a ele. Está tudo errado no Brasil. Recebo muitos e-mails de estudantes universitários. São todos analfabetos. A Dona Dilma falou esses dias que está trabalhando “diuturna e noturnamente”. Não tem nada a ver isso. É nossa presidente! E a culpa é do vestibular. Não sabemos nem ler, nem escrever. Mandam ler uns livros complicados para garotos de 15, 16 anos. Nessa idade, os moleques vomitam em cima disso.

Você se lembra do momento em que percebeu ser muito bom com textos de humor?
Lá em Lins eu escrevia sério. Quando escrevi minha primeira peça de teatro, aos 23 anos, escrevi umas coisas engraçadas, mas eu não achava que eu era engraçado. Aí, no dia da estreia, que eu estava lá atrás, na última fileira, vi que o público ria muito. A mulher que tinha feito o cenário, me disse: “Você é muito engraçado!” E a plateia ria, ria, ria. O trecho mais engraçado que coloquei ninguém nunca riu. Era sobre dois estudantes que moravam juntos. Um dormia até tarde e o outro, um CDF, ia à missa e tal. Daí o mais sério falou para o porra-louca: “Levanta, vamos para a missa”. O cara pegou o relógio e falou: “Ou são ‘dez pras dez’ ou um ponteiro caiu”. Eu achava aquilo muito engraçado, mas ninguém ria.

Quando a piada não funciona, o que você faz?
Foda-se. [Dá risada]

[Dá risada]
Fiz um curso de criatividade com o Samir Meserani. Esse cara foi muito importante para mim. Para mim e para muita gente, para o Toquinho, por exemplo. E foi o Samir que puxou esse lado do humor em mim. O humor não é considerado literatura. A Revista Isto É, na virada do século, fez uma série, com os 20 melhores do século, em tudo. E não colocaram o Millôr Fernandes nem o Luis Fernando Veríssimo. Fiquei indignado! Só tinha os sérios, os chatos do ano… Saramago, chato pra caramba. Ele briga com o leitor, maltrata. Eu abraço o leitor. Puta que pariu… Onde eu estava?

Na lista dos chatos…
O Millôr é um dos nossos maiores intelectuais. Ele escreveu romance, teatro, crônica, pintava, desenhava, traduzia e tudo brilhantemente. Ele nunca fez nada mais ou menos. O Luis Fernando Veríssimo não entrou, mas entrou o pai dele. Com todo o respeito ao velho Érico, que foi um escritor legal, e eu adoro ele, tanto que adaptei três obras dele para a televisão, mas ele é um cara de história. Acho que se pegarmos os 20, entre o Érico e o Luis Fernando, fico com o Luis Fernando. Não é porque é humor. Ele brinca com o Brasil, ele não tenta explicar.

O que te causa mau humor?
Nada. Quando estou cansado, de saco cheio, sou muito engraçado escrevendo. Dizem que o cansaço está de um lado do cérebro e a criatividade do outro. Então, quando você está muito estressado, o outro lado está limpo. É verdade. A criação fica mais folgada. Na vida pessoal, me irrita, por exemplo, agora, na minha área, com a crise do ódio, está tudo parado. Estou tentando vender uns projetos de série e ninguém está fazendo nada, com medo de que daqui a seis meses… Estou falando, depois que enfiarem o cara [Lula] no camburão, no dia seguinte vão me telefonar: “Olha, vamos fazer aquele projeto.” Quando acontece uma crise, mas crise de verdade, e eu passei por algumas, a primeira coisa que o povo corta é entretenimento. Demissão me tira o humor. Como tira de qualquer um. Grana, né? Minha aposentadoria é de 788 reais por mês, que é o que pago ao meu contador. Pago INSS, por mês, que não sei para quem aposentar. Além de ganhar isso, ainda descontam.

A solidão é o ônus do escritor?
Não, é consequência, porque vamos nos acostumando a trabalhar sozinhos. Não tenho empregados e nem patrão. Há muitos anos. Mesmo na Rede Globo, na última novela, eu não tinha um chefe. E também não tinha empregados. Era eu comigo. Que eu não soube administrar, por isso a novela ficou uma merda. Não sabia dar ordem. Com a minha empregada, que vem a cada 15 dias, é um transtorno. Ela sempre vem na quarta, então, quando chega segunda, já penso: “Puta, essa semana tem dona Odete.” Fica aquela pessoa andando dentro de casa, perguntando coisas, não vai jamais entender que estou no computador trabalhando. Ela encosta e começa a falar: “Ô, seu Mario, precisa comprar não sei o quê.” E a solidão tem uma coisa, que descobri morando em Florianópolis, onde fico muito sozinho, que é o que chamo de “sozinhêz”. Solidão é meio doente, você sofre, “ninguém me ama, ninguém me quer”. E solidão hoje, com a internet, diminuiu muito. Vejo essa loucura que é o Facebook, que entrei com intenção de lançar o livro apenas [quando a entrevista foi realizada, o autor mantinha uma conta na rede social]. E é muito louco. Esses dias li um texto maravilhoso, sobre uma pessoa que sai na rua e vai fazendo novos amigos. “Vou te convidar para ser meu amigo, você aceita?” “Aceito”. Saiu e fez 25 novos amigos hoje, na rua. “Compartilhei algumas histórias com eles, estou muito feliz”. Que é meio isso. Uma coisa meio falsa. É muito engraçado isso. É meio foda. [Ri]

Brasileiro faz humor com tudo. Não parece ser uma maneira de não se comprometer com as coisas?
Brasileiro é foda, é o melhor povo do mundo. Anda com ódio agora, mas é o melhor povo do mundo. Brasileiro não se compromete com nada, não é questão de humor não. Ele não está nem aí. Ele não foi educado para isso. Não conheço muitos lugares no mundo, mas nenhum lugar tem isso. Se o brasileiro fosse nervoso mesmo, ele não ficaria desfilando na Avenida Paulista, por exemplo. Invadiria Brasília. Ali as pessoas fizeram esquenta antes do protesto. Não votei na Dilma nenhuma vez. Mas também nunca houve tanta liberdade no Brasil para julgar os bandidos.

Quando vê manifestações pedindo a volta dos militares, o que pensa?
Fico irritado, é muita ignorância. Além dos cartazes saírem errados. Já começa por aí. O Pasquale escreveu um artigo genial [Porquê não mataram todos em 1964]. Vou até escrever para ele depois, não conheço ele não. São poucas as pessoas que querem a volta dos militares. A maioria, ali, era formada por pessoas idosas, com mais de 60 anos, que sabe o que foi a ditadura. Na época, não se sabia, mas depois se escancarou. Vivi a ditadura. Fui detido duas vezes. Não fui torturado. E nunca escrevi sobre isso, nunca me vangloriei. Foi prisão de merda, movimento estudantil, todo mundo foi preso. Mas vi muita gente sumir. Pelos menos três pessoas próximas, um primo meu, inclusive.

Como é sua rotina de leitura?
Tem dois momentos. Pela manhã, antes do almoço, 1h30, quando leio jornal; e à noite, da meia-noite até a hora que aguento. O escritor tem que ler e escrever. Por exemplo, em 2005, escrevi um romance chamado Purgatório. Percebi que esse romance tinha uma queda para o policialesco. Tinha uma tendência marginal. Então, resolvi estudar literatura policial. Pirei. Para resumir, depois de 10 anos, eu tinha 891 livros de literatura policial. Estava estudando a origem da literatura policial nórdica, que começou nos anos 1960. Consegui raridades. Comecei a achar que estava ficando louco, pois já tinha estudado a americana, a francesa, a inglesa, a argentina… Fiquei apaixonado pelos nórdicos. Tem um escritor norueguês chamado Jo Nesbo. Recebi um e-mail um dia de um amigo, que mostrava o filho norueguês, aí pedi para ele: “Se você encontrar na rua um Jo Nesbo, fala que você tem um amigo no Brasil, que é escritor, e que mandou ele tomar no cu.” E ele: “No cu, mas no cu mesmo?”. Eu: “Sim, no cu.” E ele é capaz de procurar o cara mesmo. [Dá risadas]. Jo Nesbo é um puta escritor!

Te irrita os livros “cor-de-rosa”?
Morro de inveja, em primeiro lugar, porque essa mulher que escreveu “os tons de cinza” está milionária. Baixei o livro e não dá para ler aquilo, é muito ruim. Mas admiro essas pessoas que têm capacidade de escrever tão mal, mas prender o leitor. Harry Potter, por exemplo, é muito bom. É do caramba! Aquela mulher é genial. A J. K. Rowling mereceu todo o sucesso que fez. Os livros também foram muito bem traduzidos. Li com certo preconceito. A minha filha [a jornalista Maria Prata] me mandou um e-mail dizendo: “Pai, você tem que ler, é bom pra caramba”. Minha filha tem muito bom gosto para leitura. Comprei e adorei.

São 55 anos de carreira, você olha para trás e pensa: “Uau! Fiz tudo isso!”?
Sim! Mas fiz muita coisa ruim também. Tive grandes fracassos. A sorte é que fracasso no Brasil não faz sucesso. Um fracasso nos Estados Unidos arrasa o cara, ele nunca mais escreve, muda de profissão. Aqui, não acontece nada. O povo esquece. Isso faz parte da cordialidade brasileira. Em nenhuma entrevista que dei fui questionado sobre algum fracasso. Nenhum escritor só fez coisas boas. Só Nelson Rodrigues. E é muito difícil um cara como Nelson Rodrigues.

Sabe que eu estava pensando em te dar uma sugestão de entrevistado? Justamente o Nelson Rodrigues…
Não dá… Acho o Nelson Rodrigues o maior escritor brasileiro de todos os tempos. E o Machado de Assis o segundo, mas lá embaixo. Ambos fizeram tudo. As peças de teatro do Machado são horríveis. O Nelson fez obras-primas. As crônicas do Machado são sofríveis. Em romance há um equilíbrio… Mesmo com todo o seu reacionarismo, Nelson Rodrigues é o melhor escritor brasileiro. É o cara que mais pegou a alma do brasileiro classe média baixa. É impressionante.

O que você ainda não realizou?
Gostaria de fazer uma série para a televisão. Esse ano comecei a mexer com isso. Com a crise, a coisa está parada. Quero voltar a fazer televisão, mas não novela. Quero fazer série. Vejo muita série. Pouca série americana. Agora estou vendo uma Búlgara. As séries no Brasil são todas muito óbvias. Se é para ser comédia, é aquele chavão; se é policial é tiro para todo lado. Na minha carreira, ou em qualquer profissão, é preciso ter o dom, trabalhar muito. Isso de ler 891 livros em 10 anos. Sei disso porque agora contratei uma moça para organizar meus livros. Então, é ter dom, trabalhar e ter sorte. Desses três, tenho muita sorte. Meu pai, quando mudou para Lins, mudou para frente da Gazeta de Lins, e eu ia lá pegar chumbinho para fazer de goleiro em futebol de botão. Fiquei amigo do cara do monotipo. Ficava admirando aquele chumbo, montando a página e tal. Com 14 anos, eu já escrevia tudo no jornal de Lins, só não fazia o editorial porque era o dono que fazia.

E qual é esse projeto de série?
Um argentino que morava no apartamento vizinho ao meu, em um lançamento de livro meu, levou para mim um exemplar de uma escritora argentina, a Claudia Piñeiro. Li o livro e gostei muito. Já tinha lido cinco livros dela, aí esse meu amigo me trouxe o último, o sexto. Isso em dois meses. E comecei a criar uma série. Esse cara é amigo dela. As filhas são amigas, estudaram juntos. E aí pedi para conversar com ela. Me deram o e-mail dela e escrevi, dizendo que queria fazer algo com o trabalho dela e elogiei muito. Mesmo! Ela pediu para eu falar com o agente dela. E aí vi que o agente dela é fodão, barra pesada. Escrevi para o cara e ele me respondeu e tal. Estamos em negociação. Então, deu sorte, de eu ganhar o livro dela, do cara ser amigo dela… Vai ser uma série foda. As coisas vão acontecendo assim, estar na hora certa, no lugar certo.

Envelhecer é uma arte?
É uma “desarte”. Não é bom não. Esse papo de “sábio”, nada a ver. Sábio para quê? Caguei, pô. [Dá risadas].
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Eliana de Castro Escrito por:

Fundadora da FAUSTO, é escritora, mestre em Ciência da Religião e autora do romance NANA.