Nermin Bezmen: “O amor é como um cavaleiro coxo com um cavalo cego”

No catálogo da Netflix há uma série no mínimo incomum: Kurt Seyit ve Şura. De imediato, o que chama a atenção é a beleza do casal de protagonistas: ele é Kıvanç Tatlıtuğ; ela, Farah Zeynep Abdullah. Juntos, vivem Seyit e Şura. Ele turco, ela russa, ambos jovens e belos. A produção turca conta a verídica história de amor que começou na Rússia, às vésperas da revolução bolchevique. E é mesmo uma história comovente, principalmente porque – ainda – não deixamos de lado o desejo de viver o amor verdadeiro, de que escrevam sobre nós: “e viveram felizes para sempre”. Mas o que é o amor? Sorte, milagre ou ilusão? Quem conta a história que está correndo o mundo é a neta de Seyit, a escritora turca Nermin Bezmen, com quem FAUSTO conversou com exclusividade sobre esse sentimento que não se importa com guerras, costumes, religião, inveja, ciúme, mas que também não é para todos.

Kurt Seyit ve Şura
Kurt Seyit ve Şura.

FAUSTO – O amor é sorte, milagre ou ilusão?
Nermin Bezmen:
O amor pode ser qualquer um desses, depende da expectativa do apaixonado; do que ele crê ser o amor, além de sua própria capacidade de amar. O amor tem tantas dimensões, é tão grande em sentimentos e emoções que não pode ter apenas uma definição. O amor é como um cavaleiro coxo com um cavalo cego. O coração é o cavalo, a mente o cavaleiro. Além do mais, creio que o amor é um luxo pelo qual poucos podem pagar.

Por quê?
Porque o amor quer seu tempo, exige coragem, coração, mente, alma, quer ser mimado. O amor não gosta de “se” e “mas”. Está sempre em falta, mesmo sem estar longe. O amor está em nós, conosco, sobre nós, antes de nós, depois de nós. E só pode ser vivido se for a união de coração, alma e mente.

A literatura hiperdimensiona a capacidade do amor?
A literatura é capaz de dar tantas dimensões diferentes à capacidade do amor. Ambas as coisas, se apaixonar e a literatura que conta histórias de amor, estão na mente dos seres humanos. O destino do amor na literatura depende de quem está narrando e de quem é o personagem herói desse amor.

Os homens aspiram por um grande amor tanto quanto as mulheres?
Creio que os homens desejam um grande amor tanto quanto as mulheres, mas há uma diferença: eles só se dão conta de que falta algo quando encontram a pessoa certa. O amor traz qualidade para um relacionamento, mas as necessidades sexuais e sensuais dos homens são diferentes. A mente dos homens pode ser diversificada e eles podem ficar contentes muito facilmente por outros aspectos oferecidos pelas mulheres. Ou seja, a necessidade de estar apaixonado pode adormecer por um tempo, mas o vazio está lá. Eles podem encontrar esse grande amor um dia, caso mulheres determinadas não os tenham amarrado. Mesmo em tais relações sem amor, na maioria das vezes os casais permanecem juntos, só porque não podem ousar mudar suas vidas. Por isso sempre desejo que homens e mulheres encontrem o verdadeiro amor, que cuidem dele como se fosse uma borboleta delicada na palma da mão, sem apertar e machucar. E, se um dia quiser voar, da mesma forma como veio, deve-se deixar livre para ir.

A mulher turca mudou muito desde 1910 e 1920? Quando o romance de Kurt Seyit e Şura aconteceu.
[Mustafa Kemal] Atatürk [1881-1938], fundador da moderna República turca secular, foi o primeiro líder da história que deu às mulheres direitos civis, sociais e legais, tudo em uma caixa de veludo. As mulheres turcas não tiveram que lutar por nada disso. Ele foi um grande visionário, tanto quanto foi um grande soldado, grande líder militar, um dos únicos. Foi excelente estadista. As mulheres turcas foram as primeiras que tiveram o direito de votar e de serem eleitas, muito tempo antes das mulheres de qualquer país no mundo, incluindo os ocidentais.

O que mais ele fez?
Ele também salvou as mulheres do véu, quando eram obrigadas a cobrir o corpo inteiro e o rosto, um costume árabe, e não turco. Adotou um novo alfabeto, o que permitiu que a população aprendesse a ler e a escrever, e assim ter a educação escolar primária, mesmo nas áreas rurais. Atatürk não teve filhos, mas adotou muitas crianças e as orientou para se tornarem modelos para meninos e meninas do país. Uma das meninas, Sabiha Gökçen, foi a primeira piloto militar da Turquia; e outro, Afet nan, um acadêmico. O que Atatürk fez para a Turquia e para as mulheres turcas não pode ser explicado brevemente, mas, acima de tudo, digo que não nos deu apenas direitos e motivações, mas nos pediu para sermos mulheres corajosas, fortes e autossuficientes, formadas com o conhecimento do mundo moderno, artes, ciências, literatura. Para que todas essas revoluções fossem efetivas, o secularismo era muito importante.

E hoje há o AKP [Partido da Justiça e Desenvolvimento]…
Depois de tudo o que Atatürk fez para as mulheres, é uma ruptura muito insultante. A maneira como o AKP está dirigindo o governo, e seus seguidores, leva a mulher ao ponto de ser apenas um bem. Ainda mais insultante e capaz de enojar é que também há mulheres, com os olhos vendados pelo fanatismo religioso, renunciando voluntariamente aos seus direitos, tornando-se assim escravas modernas de seus homens. Elas não são um grande grupo, mas imaginam que serão mães da nova geração de crianças. Logo, ensinarão a elas. É muito, muito assustador.

Você é feminista?
Antes de tudo, sou humanista. Eu me importo com quem enfrenta humilhação, desgraça, abuso, violência, as emoções sexual e emocional – explorações predatórias, o tráfico. Não importa qual seja a nacionalidade ou gênero. Independentemente, vemos que crianças e mulheres são submetidas a essas atrocidades mais do que os homens. Principalmente nas sociedades patriarcais, nas quais as regras arcaicas são superiores aos direitos das mulheres, ou em grupos religiosamente fanáticos nos quais as mulheres não são consideradas como indivíduos e estão sujeitas às exigências dos homens e aos filhos para ter filhos e também nas sociedades modernas onde os homens ainda trabalham maneira de atacar sexualmente e emocionalmente e abusar das mulheres, o resultado não deixa qualquer escolha senão ser feminista.

O amor é para pessoas corajosas?
Para amar não é preciso bravura, porque é possível amar em silêncio. Agora, para viver o amor, completamente, primeiro é preciso admitir que se está apaixonado e, depois, expressar esse sentimento, compartilhá-lo com a pessoa por quem se está apaixonado. Bem, para isso, sim, é preciso coragem. Uma vez expressado, o apaixonado precisa ser forte o suficiente para conquistar e proteger quem ama, em detrimento do que outras pessoas digam, ou as circunstâncias em que se vive; ou, ainda, as consequências que isso pode trazer.

Por exemplo?
É preciso colocar o amor antes do orgulho, mas sem perder a integridade. Cuidar do amor é cuidar da riqueza que ele traz para a vida. É importante dar amor, incondicionalmente, sem se tornar escravo da pessoa que se ama. Então, o amor é uma experiência muito delicada, que permite se unir à pessoa amada ou simplesmente se render e se tornar inexistente. O apaixonado precisa permanecer em quem ama, mas deve ser corajoso para também se destacar, e assim ter a combinação perfeita. Por isso creio que o amor é um luxo que apenas poucas pessoas podem pagar.

Como soube dessa história e todos os detalhes?
Nunca conheci meu avô. Ele morreu nove anos antes de eu ter nascido. Ele, porém, contou muitos detalhes para minha avó, Murka. Já sabendo que ela teria dificuldades para entender o seu ponto de vista, meu avô quis compartilhar tudo sobre seu passado, suas aventuras, sua família, justamente para que ela o compreendesse melhor. Para ela era como ouvir um conto de terras distantes, reinos distantes.

Não havia ciúme?
A parte sobre Şura sempre incomodou e a deixava com ciúmes, mas ela sabia que Seyit não contava para deixá-la desconfortável, mas para que ela o compreendesse melhor. Vovó era uma grande contadora de histórias. Então, sempre que vinha nos visitar, ou quando eu ficava com ela, entre todos os outros contos, lendas e histórias que ela contava, sempre havia um ótimo lugar para as aventuras de Kurt Seyit.

Que interessante!
Então, eu cresci com eles. Lembro que eu fixava os olhos na foto sépia do vovô – que está no livro – ele vestido em seu uniforme de São Petersburgo, quando voltava da frente nos Cárpatos. E eu mergulhava em outro mundo enquanto ouvia vovó. E a cada ano ela contava mais detalhes. Eu já tinha tudo gravado em minha mente e em meu coração. Foi quando senti que a vida de Kurt Seyit deveria ser contada.

E como foi partir para a escrita, de fato?
Anos mais tarde, quando decidi realizar esta missão, novamente me sentei com vovó, todos os dias, durante dois anos, só que desta vez tomando notas sem perder uma palavra ou um suspiro. Disso saíram meus primeiros três romances: Kurt Seyt & Shura, Kurt Seyt & Murka, Mengene Göçmenleri.

Imagino os inúmeros sentimentos que vinham à tona…
Ao tomar notas sobre vovô e sua vida antes do casamento, e depois, também tomei notas sobre os gestos da vovó, como imitava as pessoas, os olhares, o tom de sua voz, a alegria, a tristeza, as lágrimas nos olhos, a excitação, inclusive quando as bochechas coravam. Tentei capturar tudo isso, que faz parte da história também. Então, quando comecei a escrever, esses gestos e sentimentos passaram a completar a narração. Foram detalhes que me ajudaram a decifrar o enigma emocional por trás da história.

Você conheceu alguém que fez parte da história, além de sua avó?
Ao encontrar a irmã da Şura, Tina, depois que eu terminei o primeiro romance, confirmou e preencheu várias lacunas. Aliás, devo agradecer especialmente essas duas grandes damas, que fizeram meu romance ganhar vida da maneira que tem. Sei muito bem como foi um tormento falar de alguns detalhes, e elas compartilharam tudo comigo. Saúda às duas com grande respeito, amor e orações.

 

Eliana de Castro Written by:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP.

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