Ortodoxia Subversiva reúne vinte gênios marginais

Todo escritor é um sedutor. Bom ou mau, não vem ao caso, e nos dois casos.

Com Robert Inchausti, em Ortodoxia Subversiva, somos “desviados do caminho” diário de nossas rotinas para um mundo paralelo, sob a atração de desvendar as premissas sugeridas pelo autor.

Trata-se de um livro que você não pode deixar de ler.

Sei que essa é uma frase desviante, cheia de promessas, que a depender de quem a desvela muda todos os planos de leitura do mês, do ano, mas é isso mesmo.

Escrito por um professor de Letras americano, Ortodoxia Subversiva lista vinte pensadores aos quais se refere como “vanguardistas ortodoxos”.

Mas o que seria um “vanguardista ortodoxo”?

Numa análise comparativa muito bem articulada, Inchausti demonstra que esses vinte escritores se alinham à nomenclatura que cunhou principalmente porque suas ideias desafiaram os pressupostos de seus pares, em suas respectivas épocas.

Além disso, eles foram pioneiros em seus campos.

Nas palavras do autor:

A rigor, nenhum desses personagens é teólogo; no entanto, se houver alguma descoberta teológica significativa no horizonte, ela deverá ser encontrada aqui — na espiritualidade renovada e endurecida pelas batalhas desses pensadores cristãos operando em contextos seculares, cujas conquistas individuais são um testemunho contra a aquiescência global das “realidades” econômicas, dos “imperativos” militares e das supostas necessidades geopolíticas.

Os tais “subversivos” estavam atentos ao que acontecia e, mormente, às circunstâncias geradas — por isso compreendiam a necessidade de promover mudanças, e assim faziam com suas habilidades.

Os romances de Kerouac, os ensaios de Chesterton.

Em suma, eram críticos das narrativas dominantes.

Gosto que nomear de outra forma, para que não pareçam rebeldes sem causa, então: críticos audazes originalíssimos.

Os contrastes e as contraposições realizados por Inchausti são monumentais, o que torna o livro um guia interessantíssimo para formação de repertório, e em diversas áreas, a começar pela preferida do leitor.

No meu caso, a literatura.

Em suma, não se surpreenda se começar a desejar ler toda a obra de Jack Kerouac, por exemplo.

Cito Kerouac porque ele é um de meus mistérios literários, já que sou mais ortodoxa do que subversiva, ou talvez eu tenha o olhar longínquo, o mesmo que sua literatura se exibe como paisagem.

Um capítulo ou outro poderá despertar o ímpeto de ler todas as obras de Goethe, ou de se aprofundar na literatura russa, explorando as principais criações de Berdiaev, Dostoiévski, Pasternak ou Soljenítsin.

Esse tipo de rompante é possível de ter com cada um dos vinte autores examinados por Robert Inchausti.

Embora não pareça à primeira vista, devido à leveza da escrita, Ortodoxia Subversiva é uma obra de fôlego.

Inchausti estabeleceu conexões entre a fé desses pensadores e as realidades do mundo que os envolviam. As pontes são possíveis, inclusive, com contextos históricos ou jornalísticos — sérios.

Autor de outros notáveis livros — embora ainda não traduzidos para nossa língua —, o propósito do autor é destacar a persistente “incompreensão do cristianismo como algo inerentemente reacionário”.

Isso ocorre, sobretudo, porque Inchausti percebe que o cristianismo está “inconscientemente ligado a preconceitos de classe, raça e gênero”, além de estar “preso a fundamentos metafísicos e permeado por superstições ultrapassadas”.

Ao contrário do que o título e o subtítulo possam sugerir, a intenção não é intensificar a politização, mas promover uma completa despolitização.

Nesta guerra de narrativas, Inchausti identifica os possíveis responsáveis por essa distorção.

Por exemplo, a mídia, que “despeja atenção nas expressões mais extremas e sensacionalistas da fé”.

Por outro lado, “obras de sérios pensadores cristãos abrangem uma variedade tão grande de disciplinas que se torna muito difícil acompanhá-las”.

Contando ainda com o estilo do autor, que é muito atraente e instigante, é o tipo de livro impossível de parar de ler.

Não é necessário ter conhecimento prévio das obras dos vinte autores, mas, claro, quem já leu algo, pelo menos um livro de cada nome, terá uma compreensão mais clara e profunda.

Isso, no entanto, não é algo para se preocupar, porque o próprio livro levará o leitor a esse aprofundamento — que não é pouca coisa.

Nos cafés em que o li — quando o li pela primeira vez, porque agora o retomo —, ao passar por esses endereços hoje surgem memórias de um êxtase que apenas o conhecimento é capaz de proporcionar.

Sendo assim, entusiastas da literatura, apreciadores de livros de religião ou atentos caçadores de autores originais, a recomendação é mais do que segura.

A literatura é uma luta contra a mediocridade.

A essência do trabalho de Robert Inchausti nesta obra reside na contribuição desses pensadores para a vanguarda do pensamento contemporâneo.

Gênios marginais.

Ao abrir o livro para lê-lo com atenção — porque sem atenção é impossível de apreciar o que ele tem a oferecer, já que não é livro de entretenimento —, adotamos uma postura existencial com pretensão.

Não deve soar de modo algum pueril, menos ainda ideológico, mas pretensão de habitarmos melhor em nós mesmos.

Publicado pela É Realizações, o nome completo do livro é Ortodoxia Subversiva – Foras da Lei, Revolucionários e Outros Cristãos Disfarçados.

A edição conta com tradução de André de Leones e integra a extraordinária Coleção Abertura Cultural.

Agora, quem são esses tais pensadores escolhidos de Inchausti?

Veja que lista vigorosa!

  • William Blake
  • Johann Wolfgang von Goethe
  • Soren Kierkegaard
  • G. K. Chesterton
  • Nikolai Berdiaev
  • Fiódor Dostoiévski
  • Boris Pasternak
  • Aleksandr Soljenítsin
  • Jack Kerouac
  • Walker Percy
  • Dorothy Day
  • Thomas Merton
  • Martin Luther King Jr.
  • E. F. Schumacher
  • Wendell Berry
  • Marshall McLuhan
  • Northrop Frye
  • Jacques Ellul
  • Ivan Illich
  • René Girard

Inchausti escreve: “Todos os pensadores analisados neste livro ficaram cada vez mais insuportavelmente desconfortáveis com o arranjo metafísico em vigor. Cada um deles reimagina o épico judaico-cristão em termos globais, transculturais e macro-históricos, repensando no processo a nossa relação com Deus e o nosso lugar no cosmos.

O livro Ortodoxia Subversiva está dividido em cinco capítulos:

  • A alma sitiada
  • O romance como contra mitologia
  • Política anti-política
  • Crítica macro-histórica
  • O papel dos mistérios cristãos na vida da mente moderna

No decorrer da publicação, Inchausti revela o impacto, muitas vezes subestimado, que esse conjunto de “humanistas cristãos vanguardistas”, conforme suas próprias palavras, exerceu sobre a teologia cristã e o pensamento contemporâneo.

Há uma frase do próprio Inchausti que define bem o objetivo do livro.

Ortodoxia Subversiva não é “sobre novos valores religiosos, mas, sim, sobre o eterno frescor dos antigos”.

Ou seja, um livro que reflete os valores da FAUSTO.

Abordando um pouco da biografia do autor, Robert Inchausti é americano, nascido em Sacramento, Califórnia, em 1952.

Ele construiu uma carreira acadêmica sólida, conquistando o título de PhD em Inglês pela Universidade de Chicago.

Além de escritor, Inchausti desempenha o papel de professor emérito na California Polytechnic State University.

Sem dúvida, pelo menos mais uma de suas obras merecia ser traduzida para o português: The Ignorant Perfection of Ordinary People.

O livro trata de personalidades admiradas de maneira praticamente incontestável.

Inchausti escreveu a respeito de Mahatma Gandhi, Madre Teresa de Calcutá, Martin Luther King Jr. etc. O autor os chama de “plebeus pós-modernos”.

Há um argumento mais profundo, no entanto. E talvez até caiba para ambas as obras: Inchausti constrói uma visão cosmológica dos autores, mas também os insere como grandes sínteses humanas.

O autor acredita que essas personalidades são cultuadas devido ao “fracasso do cristianismo e as inadequações do estado político marxista moderno”.

Temos então uma obra de relevância, que merece uma hora do seu dia — ou que leia um capítulo por vez —, para se desligar do mundo e alimentar seu intelecto de forma deleitosa.

Afinal, amamos livros que têm alma e que revelam suas raízes.
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Eliana de Castro Escrito por:

Fundadora da FAUSTO, é escritora, mestre em Ciência da Religião e autora do romance NANA.