Regina Navarro Lins: “A maior propaganda do Ocidente não é a Coca-Cola, é o amor romântico”

Amor romântico: o mais desejado. Nascemos reféns de seu feitiço e passamos a vida idealizando a vida a dois… Será que ainda é assim? Para a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins, o amor romântico dá sinais de estar saindo de cena e assistimos despontar novos tipos de relacionamento. Aliás, esse é o tema de seu mais recente livro. Conhecida pelo grande público por sua participação no programa Amor & Sexo, Regina acaba de lançar Novas Formas de Amar e abre a Série Amor Amor em um bate-papo para lá de desafiador para almas românticas — sim, as que ainda têm na literatura e no cinema raízes muito bem fincadas. A autora de A Cama na Varanda e O Livro do Amor é quem explica o tempo atual e responde uma de nossas perguntas centrais. Exclusividade FAUSTO, acompanhe!

Foto: Herb Ritts.

FAUSTO – É possível encontrar o amor no Tinder?
Regina Navarro Lins: É possível encontrar o amor em qualquer lugar, principalmente a pessoa que é regida pelo mito do amor romântico, que é calcado na idealização. Essa pessoa atribui características ao outro que o outro não possui. Se ela se casa, passa o resto da vida infernizando o outro que para que se enquadre nessas características que ela inventou. Ou seja, é possível inventar uma pessoa no Tinder ou fora dele. Nós, ocidentais, amamos estar amando, nos apaixonamos pela paixão muito mais do que por alguém em especial.

Não parece que as pessoas são descartáveis em aplicativos de relacionamentos?
Não, não tenho essa visão. O que percebo é que existe muita resistência ao novo. Quando a Internet surgiu, eu dava aulas na PUC-Rio. Um dia, conversando com os professores, um deles disse: “Ah, agora as pessoas ficarão solitárias!” Filósofos, inclusive, diziam isso na televisão. E não foi nada disso. As pessoas fizeram amigos; os tímidos, inclusive, puderam trocar experiências. Fico muito atenta a essa ideia de que hoje tudo é pior. “O amor é líquido” ou “ninguém se relaciona”. Discordo completamente.

O que percebe?
Que tudo aquilo que é diferente as pessoas atribuem valor negativo. Primeiro, o amor nunca foi melhor antes do que é hoje. Se você estudar a história do amor, verá – e não estou dizendo com isso que é algo bom, temos muito a evoluir. Ao contrário do que dizem, contudo, nunca estivemos tão acompanhados. Vejamos os idosos. Há algumas décadas, eles ficavam jogados, o filho tinha que colocar em um quarto da própria casa. Hoje, há grupos de ginástica na praia; quem tem mais dinheiro contrata vans que levam a teatro e shows. A internet permite que as pessoas se comuniquem. Outro exemplo: nunca os pais se relacionaram tanto com os filhos. Em outros tempos, o pai tinha aquele papel de provedor, de repressor, a mãe dizia: “Quando seu pai chegar vou contar para ele…” Os pais não tinham intimidade com os filhos. Isso também mudou. Achar que hoje está pior é preconceito.

Uma ordem moral é neutra? Ou seja, pode ser saudável ou nociva. Ou é sempre nociva?
O moralismo é negativo. A moral é algo que vem de cima e impõe às pessoas certo tipo de comportamento. Por exemplo, a religião; ou qualquer outro tipo de poder. O mais importante, a meu ver, é que as pessoas tenham ética. Sempre critico o moralismo. Quem é o moralista? Ele é aquele enquadrado em determinados valores morais e não reflete. Quem é o conservador? É aquele que reproduz, que passa adiante, que não reflete sobre um valor ou uma questão, ele apenas repete, vai passando. Antes, todos tinham que se enquadrar em padrões e quem não se enquadrava era discriminado. Sabe que uma época muito repressora foi o século XIX: as mulheres, a Rainha Vitória, a sexualidade e tal. Agora, os anos 1950 e 1960 também foram muito repressores. A preocupação era com a imagem, o que os outros iam pensar. As pessoas viviam acuadas, porque precisavam ser aceitas socialmente.

E hoje?
Como os modelos tradicionais não estão mais dando respostas satisfatórias, um espaço está se abrindo para que cada um escolha sua forma de viver. Em relação ao amor, creio ser importante reforçar o seguinte: o amor é uma construção social. Em cada período da História se apresenta de uma forma. O amor romântico começa no século XII, mas era impossível no casamento, porque o casamento era por interesses políticos ou econômicos. As pessoas não podiam se casar por amor. O casamento era algo muito sério para considerar essa coisa chamada amor.

Quando mudou?
No século XIX, o amor romântico passou a ser uma possibilidade. Contudo, ele vingou mesmo no século XX, principalmente a partir de 1940, com os filmes de Hollywood. As expectativas do amor romântico começaram então a povoar as mentalidades.

Quais são outras características do amor romântico?
Além de ser calcado na idealização, o amor romântico traz outros ideais, por exemplo: as duas pessoas vão se completar, cada um vai ter todas as suas necessidades atendidas pelo outro, quem ama não sente desejo sexual por mais ninguém, e por aí vai. São várias as mentiras que o amor romântico prega. A maior propaganda do Ocidente não é a Coca-Cola, é o amor romântico. As pessoas crescem ansiando por esse tipo de amor.

Sim, totalmente.
O que é importante assinalar, entretanto, é que o momento atual se caracteriza pela busca da individualidade, o que não tem nada a ver com egoísmo. A grande viagem do ser humano é para dentro de si mesmo. Todos querem descobrir o próprio potencial a ser desenvolvido, suas possibilidades na vida.

Estamos numa transição?
O amor romântico começa a dar sinais de sair de cena porque bate de frente com esses anseios contemporâneos. O amor romântico prega a fusão, os dois se transforam em um. Já o anseio contemporâneo é o oposto, é a busca da individualidade. O amor romântico saindo de cena, como tem dado sinais, leva com ele sua característica básica: a exigência de exclusividade. Levando embora isso, o que acontece? O que estamos assistindo: novas formas de se relacionar.

Aliás, Novas Formas de Amar é o tema do seu mais recente livro…
Tenho consultório há 45 anos. De cinco anos para cá, comecei a receber casais – o que nunca tinha acontecido antes – com um conflito específico: uma das partes propõe a abertura da relação e a outra arranca os cabelos. Atendo casais gays – homens e mulheres – e é a mesma coisa. Ao perceber isso, concluí que esse é o maior desafio dos casais hoje, lidar com essa saída de cena do amor romântico. Como toda mudança, é algo gradual, não acontece de uma hora para outra. Há quem já rompeu com essa mentalidade e quem entra em pânico só de pensar na possibilidade. Estamos em processo.

Qual é sua aposta? O amor romântico sai de cena?
Acredito que daqui a algum tempo – algumas décadas, 10, 20, 30 anos, não dá para precisar – menos pessoas vão querer se fechar numa relação a dois e mais pessoas vão optar por relações múltiplas, variadas, livres.

Acredito também.
A relação extraconjugal sempre existiu, principalmente por parte do homem, porque a mulher podia engravidar. Depois da pílula, isso mudou. O que observo é que as mulheres hoje têm tantas relações extraconjugais quanto os homens. Recentemente, li uma pesquisa que aponta que as mulheres perderam completamente a culpa. Em meados do século XX, transar e ter orgasmo sem estar amando era o fim. Tudo isso está mudando. A diferença, no futuro, é que tudo será aberto, acabará o escondido, as cobranças, a culpa. O amor romântico é prejudicial porque é mentiroso. Agora, todos nós somos condicionados pelo amor romântico, mas acreditar em todos os seus ideais, como por exemplo que quem ama não transa com mais ninguém, o que acontece quando você descobre que seu parceiro transou com outra pessoa? Você vai querer cortar os pulsos, porque acha que não é amado. Isso é uma mentira.

Sim, creio ser mentira também, apesar de eu ser romântica…
Olha, é bom acrescentar: mandar flores é ótimo, dançar olho no olho, jantar à luz de velas, tudo isso é maravilhoso, aumenta o tesão e tal, mas nada disso tem a ver com amor romântico. Amor romântico tem a ver com a expectativa de dois serem um, com a satisfação de necessidades. Você sabe por que há tanto rancor, mágoa e ressentimento nos casamentos?

Por quê?
Na convivência, é impossível manter a idealização. Você acaba descobrindo aspectos na pessoa que você não gosta. Daí você se sente enganado, traído; e então vem a raiva, o rancor. Quanto maior for a defasagem do que você imaginou ser a relação a dois e a realidade, mais ressentimento surge.

Costumo dizer que justamente porque sou romântica não consigo acreditar que o amor romântico seja compatível com o cotidiano. E muitas pessoas se espantam, porque pensam que deveria ser o contrário. O Denis de Rougemont escreve sobre isso…
E ele escreve brilhantemente! É algo incompatível…

A beleza dos corpos ainda tem lugar na maneira contemporânea de amar?
É um condicionamento cultural. Em cada época o que provoca a atração sexual é diferente. Há povos que apreciam o pescoço comprido, por isso colocam aquelas argolas. Há os que apreciam os vesgos. Em determinadas culturas, quanto mais compridos forem os lábios vaginais, mais atraentes eles são. No Ocidente, hoje, apesar de já ter mudado bastante, a beleza dos corpos ainda é valorizada, principalmente pelos homens.

Sempre foi assim?
Desde que o sistema patriarcal foi instaurado, há cinco mil anos, criou-se o ideal masculino de força, sucesso, coragem. Além do mais, os homens estão sempre em competição com outros homens. Atendi uma mulher muito bonita, sensual e gordinha. Ela estava saindo com um homem que ia para a casa dela, eles faziam um sexo maravilhoso, mas ele nunca tinha apresentado a ela um único amigo. Ela acabou perguntando a razão e ele falou: ela era gordinha e ele tinha vergonha. Veja só, ele gostava de ficar com ela, mas como iam achar que ele não era bom o suficiente por não ter ao lado uma mulher com aquele bumbum lindo, os seios… Os homens são mais visuais e é um condicionamento da cultura mesmo. A mulher não, ela vai mais no tato. Historicamente, a mulher era mais atraída pelo poderoso, até porque não sobreviveria sem a ajuda do homem.

Em seu livro, você escreve: “Durante vinte anos, entre os anos 1960 e 1980, houve mais celebração ao sexo do que em qualquer outro período histórico; já reinava a pílula anticoncepcional e ainda não havia o HIV.” Hoje estamos entediados com o sexo?
Por quê?

Observação.
Sinceramente, não tenho um único elemento para dizer que as pessoas estão entediadas com sexo. Vejo as pessoas interessadas, curtindo, transando, desenvolvendo suas relações. A massagem tântrica, por exemplo, tem sido uma grande novidade, e acho uma coisa incrível. No livro Novas Formas de Amar falo sobre isso.

A Netflix tem sido um esconderijo do afeto?
Passo pelos bares e estão sempre lotados, não vejo que as pessoas não saem. Agora, o comportamento das pessoas pode mudar. A Netflix é maravilhosa, ninguém mais precisa obrigatoriamente ir ao cinema para ver bons filmes. O importante, contudo, é o seguinte: estamos vivendo uma profunda mudança nas mentalidades, algo que começou nos anos 1960. Ou seja, estamos em pleno curso. É comum repórteres me perguntarem se a sociedade está preparada para as mudanças que aponto. Sempre proponho uma viagem pelos anos 1950, 1960. Se alguém, naquela época, dissesse que em algumas décadas as moças não iam se casar mais virgens, diriam que era loucura. Virgindade era um valor, muitos homens deixavam de casar porque descobriam que a moça não era virgem. Se fosse dito que em algumas décadas o divórcio não seria mais nenhum drama: “Doido de pedra!” Divórcio era uma tragédia. Os filhos eram discriminados na escola, a mãe chamada de vagabunda. Não mudou? Quando digo que daqui a 20, 30 anos algo pode mudar, é só uma tendência que aponto. Creio que a Netflix é apenas uma forma fantástica de não precisar pagar caro por cada filme. As pessoas não pararam de se comunicar. Aliás, elas nunca se comunicaram tanto, se você quer saber.

 

Eliana de Castro Escrito por:

Fundadora da FAUSTO, é escritora, mestre em Ciência da Religião e autora do romance NANA.