Gregory Wolfe: “O coração humano tem um desejo invencível para a beleza, a verdade e a justiça”

Ah, você também tem interesse na relação entre arte e religião? Então, seja muito bem-vindo. O tom pessoal desta abertura não é sem propósito. É que Gregory Wolfe, o entrevistado, tem o dom de tornar um texto, um bate-papo entre amigos. Amigos, claro, que têm em comum a vontade de explorar as dimensões inesgotáveis do homem. Em A Beleza Salvará o Mundo, título indispensável para quem deseja um caminho para investigar o assunto, o escritor americano trata disso: recuperar o humano em uma era ideológica. Professor e editor da Image Journal, Wolfe, contudo, não traz o livro para esta entrevista. Ele apenas tira algumas dúvidas básicas e honestas como as que ele mesmo teve um dia, antes de mergulhar neste assunto submergido pela superficialidade – que não dá conta das contingências da vida – e que tem roubado da arte um de seus papeis fundamentais: preencher-nos de beleza. Eleve-se! Exclusivo para a Fausto. 

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Fausto – Por que as pessoas têm tanto medo da palavra “conservador”?
Gregory Wolfe: Nos Estados Unidos, há uma expressão que dizemos às vezes, “a lot of baggage”, que é quando uma palavra vem com “um monte de bagagem”, que significa um monte de controvérsias e preconceitos. Certamente é algo muito verdadeiro em relação à palavra “conservadorismo”, uma vez que para muitas pessoas “conservador” significa alguém que quer viver no passado, alguém que é contra o “progresso” e a iluminação. Parece que nos esquecemos que conservador também pode significar alguém que quer preservar o que é bom – coisas que levaram um longo tempo para se desenvolverem e provaram ser profundamente verdadeiras para a vida humana. Coisas que são fáceis de destruir, mas que não são fáceis de construir de novo.

Esse medo tem alguma ligação com o narcisismo?
É parte dele, sim. Uma expressão do narcisismo é a crença de que nós, que vivemos hoje, somos mais inteligentes, mais iluminados e mais justos do que todas as gerações anteriores. O narcisista não se pergunta o que sua geração pode ter esquecido ou ignorado. O narcisista está preso dentro de um espaço muito pequeno – o aqui e o agora – e esquece o que G.K. Chesterton disse: “Tradição é a democracia dos mortos.” O narcisista não quer que os mortos tenham nenhum voto.

Por que os conservadores evitam definir o que é conservadorismo?
Há boas e más razões para isso. Uma das boas razões é que os conservadores não gostam de reduzir tudo a ideologias abstratas. Muitos conservadores preferem falar de “princípios” ou mesmo “atitudes” em vez de tentar indicar cada posição política em detalhes explícitos. Os conservadores mais inteligentes sabem que as circunstâncias mudam e às vezes temos de mudar a nossa forma de responder a essas circunstâncias. Hoje, porque nós sofremos com tanta retórica divisionista e “guerras culturais”, pode ser sábio evitar o apego a pontos abstratos. É claro, talvez alguns conservadores tenham mesmo medo de “sair” em público – que é certamente possível.

A beleza só é redentora para aquele que antes reconhece a degradação humana?
Não estou certo qual experiência vem em primeiro lugar. Acho que apreciar a beleza pode nos ajudar a entender a degradação e a degradação pode fazer com que nossos corações anseiam por beleza. É importante lembrar que a beleza pode ser encontrada em lugares muito improváveis. Por exemplo, quando vemos a degradação ou a fragilidade que nos faz desejar plenitude e completude. Por quase dois mil anos, a cruz – um símbolo de tortura e morte – foi percebido como belo porque compreende a degradação, mas vê uma verdade além da degradação.

Dostoiévski é considerado sábio justamente por isso?
Dostoiévski é um dos grandes artistas que compreenderam que a beleza pode ser descoberta até mesmo dentro de degradação. Ele não tem medo de retratar alienação e desespero, porque ele sabe que são realmente sinais de que o coração humano tem um desejo invencível para a beleza, a verdade e a justiça. Como o jovem monge Aliócha disse a seu irmão niilista Ivan, no poema totalitário O Grande Inquisidor [“Os Irmãos Karamazov”], que termina adorando a Cristo.

Como restaurar a função da beleza na vida de uma sociedade que não mais consegue reconhecê-la ou ver nela algum sentido?
Há muitas razões pelas quais uma sociedade perde o contato com a beleza. Alguns são pecados “conservadores” e alguns são pecados “liberais”. Por exemplo, os conservadores podem se tornar tão alienados de seu próprio tempo e da cultura que eles podem não ver beleza, exceto no passado. Isto é realmente uma espécie de desespero, uma crença de que a beleza não pode mais ser encontrada. Por outro lado, muitos liberais desconfiam da beleza – eles pensam que é uma distração da justiça – por isso, muitas vezes elogiam coisas que são feias porque acham que isso envia uma “mensagem” critica à burguesia. Isto é reduzir a arte à política – e é também uma forma de desespero!

Como reverter o processo de degradação da cultura?
É importante lembrar que a história nem sempre está indo para baixo ou para cima. A todo tempo há forças que se movem em duas direções: primeiro, precisamos discernir onde esses movimentos estão. No final, a melhor maneira de restaurar a cultura não é sempre criticando o que é ruim, mas fazendo mais e mais um bom trabalho. Precisamos encontrar grandes artistas e apoiá-los e comunicar o seu trabalho para quantas pessoas for possível. Precisamos construir uma comunidade e percorrer o mesmo caminho juntos, além de conseguir sustentar uma conversa animada sobre o bom, o verdadeiro e o belo.
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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