O que Leonardo Gonçalves vai deixar para as próximas gerações

1 de abril de 2016. Em uma sexta-feira ensolarada, Leonardo Gonçalves anuncia o improvável para alguém no auge da carreira: a despedida dos holofotes. Não houve o silêncio comum, característico de quando se recebe uma notícia inesperada e triste. Os tempos são mesmo outros. Houve sim um estardalhaço nas redes sociais, iniciado por alguns de seus mais de 1 milhão de seguidores, aqueles que chegaram ao fim do texto de apresentação da turnê 2016 de “principio”. Depois de 21 anos de carreira, o artista realizará as últimas apresentações e partirá para o novo. O tão cantado do álbum “principio e fim” (2012)? Talvez. O que se sabe é que Leonardo Gonçalves vai deixar para as próximas gerações uma prescrição sofisticada de como tratar a música.

Foto: Lucas Motta.
Foto: Lucas Motta.

Sensibilidade e técnica. Composição simples, porém de arranjos elaborados. Como ser um artista sensível quando esta habilidade necessita de silêncio e contemplação? Poucos conseguem. Sensibilidade é saber perceber. Mas percepção, analisando suas particularidades artísticas, é o entendimento de como cada elemento se relaciona um com o outro. Sim, é um tipo de sensibilidade que vai um pouco além da capacidade de (apenas) sentir. Tem mais a ver com o cuidado típico das ciências, que não deixa de ver significado mesmo – ou principalmente – nos detalhes. Seria a sua criação alemã? Talvez. Melhor, contudo, é pensar que a dedicação que empenhou durante os 21 anos é a mesma que está à disposição de qualquer um.

Muito de sua base musical vem da própria família. O tio maestro, Williams Costa Júnior, é um dos mais respeitados nomes da música Adventista. Mas tem mais. Tia, prima e grandes amigos. Crescer em um colégio interno pode parecer assustador para a maior parte dos adolescentes. Não, normalmente, para os adventistas. A experiência que se adquire “nos anos de colégio”, na vida adulta torna-se uma das melhores lembranças. Quem teve o privilégio de viver os 20 anos de Leonardo Gonçalves jamais esquecerá os duetos, por exemplo, com os seus contemporâneos, ou mesmo com outro gigante: Sergio Saas. Juntos, lançaram a moda do melisma. Que febre! Muitas vezes insuportável…

Então, se faz claro que sua sensibilidade não tem a ver com o estilo religioso que define sua vocação, mas com a música enquanto linguagem – o que posiciona ainda mais o seu legado. Leonardo Gonçalves rompeu uma barreira interessante de segmento. As letras de “principio” tratam sim de assuntos teológicos, mas elas também vão além, falam de valores morais que fazem parte da vida de qualquer um. Por isso não é sem razão que cantores como Thiaguinho ou Ed Motta se rendem à sua música. O objetivo parece ser alcançar toda a dimensão humana. Arte trata disso. O humano do homem. Ainda que a música religiosa tenha se tornado um nicho lucrativo de mercado, a religião não perde o seu papel de inspirar a Arte.

É difícil pensar que um dia Leonardo Gonçalves cantou, digamos, muito mal. Por isso a técnica é um ponto a se destacar de sua trajetória. Foi o desenvolvimento da técnica que o tornou um dos nomes mais respeitáveis da música, independentemente de segmento. Interessante notar que o significado da palavra técnica é arte – ou ciência. “Téchne” é o meio pelo qual se chega a um objetivo.

Uma voz que almeja ser perfeita não encontra nos limites da tessitura ou afinação os principais obstáculos, mas talvez na preguiça a que desperta a repetição. Compreender a importância da técnica é de antemão estar consciente de que nenhum trabalho se solidifica se não mantém uma rotina para ser apurado. Não apenas feito, mas apurado, melhorado. Técnica e disciplina, neste caso, são indissociáveis.

Disse uma vez Goethe que os grandes sacrifícios são fáceis, contudo, são os pequenos e cotidianos que nos custam. Leonardo Gonçalves vai deixar para as próximas gerações o apreço pela técnica, a provocação de ir todos os dias um pouco além, de desafiar os próprios limites – não ignorá-los, mas desafiá-los, o que é completamente diferente. E porque vivemos em um tempo em que há certo desprezo por tudo o que demora – do metrô às respostas em redes sociais – e associa-se à sorte ou à esperteza quase todo o tipo de sucesso – dedicar-se a algo no bom e velho estilo “no pain, no gain”, é coisa de gente obsessiva. Eis mais uma razão que o coloca como um nome que deixará um legado. Leonardo Gonçalves não apenas não despreza a técnica como nunca optou por atalhos.

Viver a experiência da música de Leonardo Gonçalves em grandes teatros é a prova de que algumas categorias ideológicas não o definem mais. Há quase três anos, a liberdade o ofereceu para os milhões de ouvidos do mundo. “Sublime”, o primeiro single lançado no canal VEVO, no YouTube, alcançou 1 milhão de visualizações em dois meses. Hoje, são mais de 14 milhões de acessos. A canção que abre o irretocável DVD, dirigido por Hugo Pessoa, resume tudo o que Leonardo Gonçalves já fez hoje: o palco simples; o show simples; a música simples, mas a sua interpretação… O resultado daquilo que um sentimento religioso inspira nunca é banal, ao contrário, é pura extravagância.

O que Leonardo Gonçalves vai deixar para as próximas gerações é o caminho aberto para o diálogo inter-religioso por meio da música. Ele canta com padres, com céticos, com corações abertos. É a recuperação da música que produz sentidos e nada mais.
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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