Leonardo Gonçalves, sensibilidade, inteligência e devoção

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“O novo fica tão mais bonito quando emoldurado do velho; o moderno tão mais profundo quando enraigado numa tradição; a erudição tão mais elegante quando de mãos dadas com a simplicidade”. Essas são algumas percepções sensíveis de Leonardo Gonçalves contidas no encarte do seu quarto e mais recente álbum “princípio e fim”. Aos 33 anos, nascido em Palmares, Pernambuco, com porte europeu e refinado repertório cultural, o cantor religioso é articulado, inteligente e dono de uma capacidade ímpar de se expressar. “Minha vida gera minha arte, minha maneira de pensar. Quanto mais me conhecerem, mais entenderão quão pessoal é tudo o que eu apresento musicalmente.”

Início do século 20. Em uma igreja qualquer, de uma comunidade formada por negros americanos cristãos, pessoas comuns se reúnem ao redor de um órgão e entoam louvores a Deus. O ato livre de expressar seus reais sentimentos ao Todo-Poderoso reinventa, mesmo que inconscientemente, a música religiosa praticada nos cultos até então. Conhecida como “gospel”, esse estilo musical popularizou-se de tal forma que ultrapassou os limites da igreja afro-americana e um século depois movimenta um mercado de milhões de dólares em todo o mundo. Em terras brasileiras, em pleno século 21, este mercado tão desfragmentado devido aos diversos estilos que abraça, possui esse artista que é um representante blindado dos principais rótulos negativos que ainda envolvem o segmento. Com o álbum “princípio e fim”, Leonardo Gonçalves tornou-se o primeiro de sua categoria a conquistar o primeiro lugar no iTunes – e na classificação geral deixou para trás cantores como Roberto Carlos e Adele.

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O início da trajetória deste rapaz tem total ligação com o que houve há um século: a mudança de uma prática que envolve a música sim, mas antes da própria música uma atitude, uma cadeia de valores e pensamentos que, hoje, não é mais ignorada. Em maio de 2010, Leonardo Gonçalves foi um dos primeiros contratados da gravadora Sony Music, quando a empresa decidiu se abrir para o mercado gospel no Brasil. Inserido em um universo que abriga mais de 38 milhões de pessoas, segundo o Centro de Pesquisas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, o cantor está entre os nomes que renderam ao país em 2011 cerca de R$ 1,5 bilhão, segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Discos. Inusitado, Leonardo Gonçalves tem também apresentado possibilidades de expressão artística alternativas no segmento. Exemplo é o álbum “Avinu Malkenu”, gravado todo em hebraico e lançado em 2010, feito encarado pela própria Sony Music como um divisor de águas em sua história.

Nascido em uma família atuante na Igreja Adventista do Sétimo Dia, Leonardo Gonçalves é filho de pais separados e morou parte de sua vida com a mãe, Telma, e o padrasto, Wolfgang, em países como Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha. Sua complexa e profunda maneira de pensar é tão característica quanto sua habilidade vocal, que impressiona até quem não faz parte do meio evangélico como o cantor Ed Motta. Em outubro de 2010, Leonardo Gonçalves deu uma “canja” em um de seus shows. “O Ed Motta conheceu meu trabalho através do Youtube e me convidou via Twitter, publicamente. A princípio não levei muito a sério, achei que fosse mais empolgação da parte dele, mas a produção do Ed procurou minha assessoria. O próprio Ed Motta me ligou e a conversa foi muito boa, muito agradável. Ele sugeriu de cantarmos juntos a música “Isn’t She Lovely” do Stevie Wonder. Gostei da escolha, é um clássico do Stevie que ele compôs quando sua filha nasceu. É uma música que fala de Deus, inclusive, e da gratidão do próprio Stevie Wonder a Deus.”

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O ano é 1994. Leonardo Gonçalves está com quinze anos e estudando em regime de internato – costume comum e até desejado entre os jovens adventistas – no, então, Instituto Adventista de São Paulo (IASP), localizado em Campinas, interior de São Paulo. O adolescente entra para o Coral Jovem do IASP e para o conjunto vocal Tom de Vida, momento em que começa a chamar a atenção dos já consagrados músicos religiosos e do público adventista. Aqui, vale mencionar que a música adventista entre os cristãos é uma das músicas mais respeitadas por sua qualidade vocal, de produção e orquestração. A técnica vocal chamada “melisma”, que nada mais é que variar as notas musicais em uma única sílaba cantada, foi como um vírus propagado por Leonardo Gonçalves e outro cantor chamado Sergio Saas, também expoente da música gospel contemporânea. Como uma febre, jovens cristãos do final dos anos 1990 e de toda a década seguinte foram capturados e hipnotizados pelo estilo tão próprio do “negro spiritual”.

O primeiro álbum solo de sua carreira, intitulado “Poemas e Canções” teve um estrondoso sucesso, principalmente pela canção, “Getsêmani”, cuja versão mais vista no Youtube apresenta imagens do filme “Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, e já foi vista por mais de 1,5 milhão de pessoas. No Facebook, o cantor possui mais de 65 mil “likes” e no Twitter mais de 42 mil seguidores.

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Um rapaz que morou em três países, fala quatro idiomas e é formado em Letras pela Unicamp já é, mesmo se for um típico acomodado e uma espécie de esponja do que acontece ao redor, uma pessoa de medianas vivências culturais. Entretanto, não é o seu caso. Suas influências são variadíssimas. “Um livro que mudou a minha vida, no sentido de sintetizar minhas influências musicais, foi o de Igor Stravinsky “Poética Musical”, que nada mais é que uma série de aulas que ele ministrou em Harvard. Definir-me musicalmente é muito difícil porque ouço de tudo, de instrumentos barrocos renascentistas, viola da gama, à música contemporânea como Emicida, que acho muito interessante. Minha banda predileta, por exemplo, é Radiohead.”

Em um meio que tem como característica no Brasil certa alienação, tanto comportamental como de conhecimento intelectual, Leonardo Gonçalves sai na frente, mesmo que isso não seja para ele uma vantagem competitiva, pois seu trabalho não é apresentado por ele como um produto que disputa um lugar por seu valor mercadológico. Respeitado pelo trabalho de qualidade em arranjos, produção, vocais e até em textos literários, “princípio e fim” é a prova mais recente que revela engenhosamente sua estética. O disco conta com a participação das cordas da Orquestra Filarmônica de Praga e Orquestra Sinfônica da Republica Tcheca. O videoclipe da primeira música de trabalho do disco chamada “Novo” foi gravado em Londres e Berlim. O conceito deste trabalho foi claramente definido, embora não seja algo simples de entender, muito menos possível de se resumir.

Para os ateus ou agnósticos, Leonardo Gonçalves é, no mínimo, aquela agradabilíssima companhia com quem se pode passar horas a fio falando sobre qualquer assunto. Para os músicos e apreciadores de música que não ouvem gospel, ele é um desafio. Aceite e tire suas próprias conclusões.

Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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