Leonardo Gonçalves: orquestra, piano e dissolução

Se a arte existe porque a vida não basta, como diz uma das mais famosas citações de Ferreira Gullar, a religião existe porque ser humano é insuficiente. Significa: o homem é aquele que não tem o poder de.

A melhor perspectiva, que contempla não dois horizontes, mas dois planos que às vezes se fundem – arte e humanidade – é a que principia aquilo a que darei nome de repouso do sentimento de vazio original.

Vivo cotidianamente com essa sensação. Então para mim esse repouso é como dar um nó no tempo. É conseguir não deixá-lo passar enquanto não me esgoto. É o que acontece comigo diante de uma experiência verdadeiramente artística.

O lead é: Leonardo Gonçalves, um dos mais importantes intérpretes do Brasil, apresentou-se no Teatro Bradesco, em São Paulo, nos dias 4, 5 e 6 de dezembro com piano e orquestra em repertório de clássicos da música religiosa de sua cultura, além de algumas canções de seus quatro álbuns de estúdio. O que teço é um relato sobre os três dias. Ou melhor: um relato subjetivo sobre os três dias.

Leonardo Gonçalves, piano e orquestra, 2018.
Leonardo Gonçalves, piano e orquestra, 2018. Foto: Lucas Motta.

A proposta do repertório foi para evidenciar a canção. Já a ideia de ser com piano e orquestra foi de Felipe Mudo, produtor de Leonardo Gonçalves, braço direito.

_Mudo, precisamos conversar depois, quero aspas suas para o que vou escrever.

O olhar de desdém para os menos íntimos é na verdade o de desprendimento de quem não faz questão de aparecer.

_Soube que a ideia foi sua, preciso citar isso.

_Foi mesmo.

Só isso. E é assim que muitos dedicam suas vidas à arte, se não escrevendo, arranjando ou regendo, fazendo acontecer somando tudo isso. Há outros tipos de maestro.

Leonardo Gonçalves, ali, era o intérprete de versos escritos há tanto tempo, além das histórias por traz desses versos. Antes de cada canção, um breve relato das circunstâncias em que cada uma foi escrita. O piano foi intercalado por Samuel Silva e Silmar Correia. Os arranjos adaptados por Ronnye Dias e os 50 músicos em cena fazem parte da Orquestra do Unasp-SP.

O espetáculo começa com On the nature of daylight, do compositor alemão contemporâneo Max Richter, escolha propícia para criar um ambiente espiritual para o que viria: canções feitas da experiência do medo, da coragem e da esperança.

Deus sabe, Deus ouve, Deus vê foi a canção seguinte. Letra de Valdecir Lima e música de Flávio Santos. A canção de 1984, que chamei noutro escrito do equivalente nosso de Amazing Grace, foi escrita em um momento triste da vida do autor, quando voltava dos Estados Unidos para enterrar seu pai. No avião, inspirado pelos versos de Êxodo, capítulo 3, verso 7, escreveu a canção que por Leonardo Gonçalves já foi regravada neste mais recente álbum, Sentido, ainda incompleto.

Valdecir Lima, que esteve presente na terceira noite, foi para mim, ainda menina, uma das mentes mais inteligentes que fizeram brilhar meus olhos tão sem foco nessa idade. Como algumas atitudes infantis se explicam tantos anos depois! De onde assisti, eu o via. Para mim, hoje, sendo capaz de elaborar as dores que sinto, tê-lo visto foi como ter voltado a ser menina: a vergonha e a efusão se misturaram sem qualquer educação sentimental, o que tornou curiosa – apesar de natural – a vontade, na mesma medida, de fugir e de me apresentar. Não fugi. Tampouco me apresentei. Talvez como poucos na plateia, ou muitos, ou ninguém, aceitei o que me foi posto pela contingência. O acaso é feito à nossa semelhança, escreveu um dia Bernanos.

O narrador que não assume que revisita a si mesmo ao narrar uma história é um narrador desonesto. Narrador tem visão. Tem cosmovisão. O narrador nunca é inocente. Como tornar a minha experiência algo próximo da experiência de quem viu o que eu vi é a certeza de coisas simples: todos choram, ainda que não se deixem ver; todos desejam desistir todos os dias, ainda que não assumam para si mesmos; todos carregam dentro de si exemplos a seguir – Leonardo ou Valdecir – sem levar em consideração que os pesos deles sejam talvez maiores, por isso cantam como cantam, por isso escrevem como escrevem, por isso desvelam suas agonias aos olhos do mundo.

Se Leonardo Gonçalves resgatou os compositores que o formaram, resgato os versos daquela que, para mim, como ninguém, coloca em palavras a experiência da arte como uma experiência religiosa: Adélia Prado.

Leonardo Gonçalves em piano e orquestra foi a experiência artística que não buscou o meu entendimento, mas o meu consentimento. Experiência que não foi dirigida à minha inteligência, nem a meu aparelho lógico, mas ao meu vazio.

Leonardo Gonçalves, piano e orquestra. Orquestra do Unasp-SP. Foto: Lucas Motta.

Comigo foi a terceira canção, de autoria do próprio Leonardo. A letra foi escrita depois de nove anos sem compor. Canção inédita, o título me soou estranho, como se faltasse algo. Pensei em checar, mas não chequei. Às vezes só uma palavra basta mesmo.

Paz em Suas mãos, de 1989, veio em seguida. Também uma letra de Valdecir Lima, mas música de Lineu Soares, presente no terceiro dia. A canção se tornou importante para Leonardo Gonçalves em 1994, quando veio morar no Brasil depois de treze anos fora. Leonardo contou sobre a dificuldade de se expressar em um idioma desconhecido – apesar de ter nascido no Brasil, foi para a Alemanha com pouco mais de dois anos. Curiosamente, apenas uma música depois, algo me chamou a atenção de forma singular quanto a isso.

A próxima canção foi Estende a mão, de 1986, do maestro Williams Costa Jr, tio de Leonardo. Com base numa história de complicações de saúde e financeira do próprio Williams, ocorridas na época do lançamento de seu único álbum, é uma canção enfática de convicção.

Yerushalayim. Eis algo singular. E mais uma vez Adélia me dá as palavras: a língua é onde a experiência pode ser guardada.

É interessante a forma como Leonardo Gonçalves se entrega emocionalmente nas canções em hebraico. Fluidez. Se ainda há emoções que precisam ser processadas, é na língua dos exilados, lugar seguro, que espera chegar o momento…

Creio que a voz é a prova da humanidade em ação. E há camadas de humanidade inacessíveis até que se tenha vivido tipos específicos e excruciantes de dor. E tudo é expressado pela voz. Nesse espetáculo, Leonardo Gonçalves apresentou-se novo. A técnica exuberante deu lugar à sensibilidade exuberante. O artista passou de um performer para uma testemunha qualificada.

O espetáculo seguiu com Somente a Ti, de Wendel Mattos, uma canção singela que consta no álbum Viver e Cantar. Depois foi seguida por Nachamu, nachamu, parte do álbum Avinu Malkenu. Por sua vez, Viver o amor tem música de Daniela Araújo e letra do Leonardo Gonçalves. A letra é uma junção teológica de Isaías 58 com a oração do Pai Nosso. Belíssima!

As três canções finais foram, particularmente, as mais lindas. Nos três dias me emocionaram muitíssimo, embora no terceiro dia tenham rompido as barreiras da minha função principal que é observar mantendo o pêndulo de minhas próprias emoções no ritmo, longe dos extremos. Aprendi há tempos, contudo, que lágrima é licença de liberdade.

É preciso confiar em Deus, de 1992, de Jader Santos, presente no segundo dia, foi resposta à uma carta para Regina Mota, amiga em comum, por uma situação difícil em que ela passava. A carta íntima entre dois amigos tornou-se então versos de milhões em dias difíceis. Impossível não replicá-la, se desejo migalhas de compreensão ante ao grau mais elevado de intensidade.

É preciso confiar em Deus

Passei tribulações
Eu já sofri na minha vida
Qual ave sem um ninho
Procurando abrigo
Clamei em alta voz
Ninguém queria ouvir
“Senhor”,eu perguntei, “por quê?”

Custei a entender
Que as provações da minha vida
Provêm de todo mal
Que neste mundo habita
Aqui quem só perdeu
Quem sabe só ganhou
Um dia todos saberão
Um dia os olhos se abrirão
Pra tudo entender

É preciso confiar em Deus
É preciso confiar em Deus
Quando a sombra do mal
Batendo à porta vem
É preciso com fé lutar
É preciso tão só lembrar
Que depois dessas trevas vem o sol
Que depois da angústia vem a paz
É através do sofrer que
Eu toco a mão de Deus
É preciso coragem pra seguir
Pois um dia a tristeza findará
E ao final todo pranto
Ele enxugará

Tapeceiro, de 1989, de Stênio Március, foi a reunião de três potências: música, religião e estética. Resultado: sem palavras para descrever. Ou a palavra certa é o inefável. Quantas horas de solidão são necessárias para não escrever uma frase clichê. E quantas horas a mais de solidão são necessárias para escrever uma frase clichê. Interpretação espetacular. Deus, nesta canção, é o artesão da vida humana, quem tece fio a fio os caminhos.

Por fim, Both sides now, de 1971, de Joni Mitchell, canção final, canção que Leonardo dedica para sua mulher: Glauce Cunha, a pequena de grande resiliência, cortesia e boas maneiras. A tradução de uma das frases que canta Leonardo nesta canção é: Eu realmente não conheço nada da vida.

Como uma escritora não religiosa – ou como uma escritora religiosa romântica, no sentido histórico, porque meus arrebatamentos são estéticos e pouco me importa se há alguém maior por trás de tudo – continuo acreditando que não sou capaz de crer como tais cancioneiros. Continuo acreditando que a arte é o meu sagrado e por ela acesso esse Mistério. Continuo acreditando que por mais belo que seja o que vejo movido por crenças em Deus, não sinto que a nada disso pertenço. Escrever, uma forma de oração para Kafka. Escrever, uma forma de me redimir porque não consigo crer.

Contudo, diante de tantas lágrimas que me venceram no último dia, me lembrei de uma ideia de Blaise Pascal, que talvez eu não explique da forma correta, mas como forte me vem, cederei porque cedo sempre: o homem se dissolve quando exposto à demasiada luz.

 

Dedico a Gabriel Correa.

Eliana de Castro Written by:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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