Amia Srinivasan: “Tenho uma desculpa para pensar o que penso?”

A filósofa indiana Amia Srinivasan vem despontando entre os mais importantes pensadores da atualidade. O fato curioso, além de sua tão pouca idade, é que ainda não tem nenhum livro publicado. Contudo, ela tem uma teoria, e em breve a apresentará em sua primeira publicação. Trata-se do conceito que criou chamado “ansiedade genealógica”, uma espécie de mal-estar que sentimos cada vez que descobrimos as origens contingentes de nossas crenças. Nascida na Índia, doutora em Filosofia pela Oxford, atua como professora no St John’s College e conversa com a FAUSTO com exclusividade.

Amia Srivivasan.

FAUSTO – É realmente possível pensar com desapego de nossas próprias convicções?
Ami Srinivasan: Nunca é totalmente possível. Para pensar, como os filósofos gostam de dizer, é preciso “começar de onde você está”. Contudo, você deve adotar algumas suposições, no mínimo, sobre como pensar, para só então pensar. Se eu suspendo qualquer uma de minhas convicções – o que certamente posso fazer – precisarei avaliá-la usando outras convicções. Ou seja, o desapego completo nunca é possível. Agora, não é porque você deve começar de onde você que significa que você deve terminar onde está.

O que você quer dizer com “ansiedade genealógica”, de maneira geral?
“Ansiedade genealógica” é o nome que dou à preocupação de que revelações sobre as origens contingentes de nossas crenças, valores e conceitos nos desestabilizem de alguma forma.

Por exemplo?
Por exemplo, descobrir que você tem as crenças que tem por causa da educação que recebeu de sua família, ou de uma classe socioeconômica específica, ou mesmo da história evolutiva. Tudo isso pode fazer com que você se pergunte: tenho uma desculpa para pensar o que penso?

Sobre anacronismo. Qual é o perigo de se analisar determinados eventos históricos com a mentalidade de hoje? Isso pode inflamar ainda mais os discursos de ódio?
É uma pergunta complicada. Por um lado, o passado é um país estrangeiro – e isso faz parte do que torna o estudo da História tão interessante. Por outro, não devemos apagar as formas pelas quais no presente estamos moldados.

Dê um exemplo.
A escravidão americana e o colonialismo britânico, para citar apenas dois, não são apenas características do passado: elas vivem hoje nas estruturas e atitudes sociais dessas sociedades. Grande parte da condenação de atrocidades históricas do passado, como a escravidão e o colonialismo, é sobre fazer com que a sociedade contemporânea se comprometa com o apego contínuo a essas práticas.

Uma crença é como um vírus? Fica mais forte em um corpo fraco? No caso, uma mente fraca?
Creio que mentes fortes podem ter crenças fortes. Não há nada de errado com uma crença forte em geral. E em muitos casos, ter apenas crenças fracas – por exemplo, a maldade do racismo – é em si um tipo de fraqueza. A questão, contudo, é se a força de sua crença é proporcional à força da evidência.

Touché!

Como é ser tão jovem e já ocupar alta posição entre os pensadores mais importantes? Você enfrenta preconceito?
Sou imensamente privilegiada, porque cresci numa família rica e frequentei escolas muito boas. As mulheres na Academia, especialmente as que não são brancas, enfrentam preconceitos e discriminação. Entretanto, o que enfrentei não pode nem começar a ser comparado com o que mulheres pobres e não brancas enfrentam, tanto no norte global como no sul global. E essa é a luta que mais me interessa.

O que é um preconceito, do ponto de vista epistemológico?
Uma excelente pergunta. Não tenho certeza se é de fato um fenômeno epistemológico. Certamente, muitas pessoas preconceituosas acreditam, consciente ou inconscientemente, que determinado grupo é inferior por causa de suas características sociais. Conteúdo, acho que o preconceito é mais útil como um conjunto de hábitos ou práticas discriminatórias, que podem muito bem se afastar da crença.

Você é otimista. Acredita que, revelando as origens contingentes de uma crença, é possível desabilitá-la. Permita-me uma brincadeira: você acompanha as notícias do Brasil?
Acompanho, com horror, tristeza e raiva. Bom, não creio que revelar as origens contingentes de uma crença – ou, de fato, qualquer movimento teórico – seja suficiente para combater a opressão. O que é necessário, na verdade, é uma organização coletiva, protesto, tomada e redistribuição do poder. Sou otimista? Não me sinto uma no momento.

 

Fausto

Fausto

Fausto

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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