Andrei Venturini: “A verdade não é desse mundo”

Que paradoxo! Desejamos que as pessoas sejam sinceras conosco, mas nem sempre somos sinceros com elas, principalmente sobre nossas verdades, cada vez mais escondidas em fotografias bem tiradas e biografias que provam o sucesso de nossas escolhas. Então, Nietzsche tinha razão? Será que antes de buscar a verdade temos que nos perguntar se a suportamos? Autor de A Verdade é Insuportável, Andrei Venturini conversa a FAUSTO sobre essa eterna busca do homem, a lógica do debate público e a manutenção da mentira social por meio das redes sociais. Venturini é mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP e doutor em Filosofia também pela PUC-SP e pela Université de Caen Basse-Normandie, na França. Se o filósofo pascaliano não diz verdades a seguir, é no mínimo inquieto e está constantemente em busca dela. Como – ainda bem – boa parte de nós.

Andrei Venturini.

FAUSTO – A verdade sempre foi insuportável ou é característica de nosso tempo?
Andrei Venturini:
Há tempos o homem se preocupa com a verdade. A religião, por exemplo, é uma forma de desvelar o real e conferir o verdadeiro sentido da vida. Penso que a religião é um sistema de sentido tão relevante que, mesmo que a política e a ciência desapareçam do horizonte humano, a religião continuaria presente: a religião é um sistema de sentido poderoso e o homem é o animal do sentido. Portanto, há uma sintonia entre as demandas do homem e aquilo que a religião oferece: o desejo de eternidade, a vida feliz, e existência de algo para além da morte, e, evidentemente, a verdade sobre a condição humana. Essa preocupação com a verdade estaria intimamente vinculada com a religião, já que a religião preocupa-se com o sentido da vida.

E a filosofia?
A filosofia também se preocupa com a verdade. No entanto, essa preocupação por parte da filosofia se dá de outra forma.

Qual seria?
A filosofia é um ímpeto de desvelar a verdade, de ver claramente com os olhos da alma e sob a égide do logos. Ou seja, usa-se de forma autônoma a nossa capacidade de pensar e de dizer. Isso não significa que o religioso não pense, todavia a reflexão religiosa é balizada pela fé, pelo dado revelado, pela tradição religiosa. Não podemos negar que as três grandes religiões do Ocidente – Cristianismo, Judaísmo e Islamismo – têm a fé como pressuposto.

E a filosofia não…
Na filosofia não há essa demanda. Ninguém precisa ter fé para ser um filósofo platônico ou aristotélico, mas, para ser cristão, por exemplo, a fé é requisito, uma dádiva de Deus, uma graça para os escolhidos.

Onde mais há a preocupação com a verdade?
Além dessas duas instâncias, penso que a ciência moderna manifesta uma preocupação com a verdade.

Que, por sua vez, tem outro jeito de operar…
Sim. A ciência busca a verdade naquilo que diz respeito à relação de causa e efeito, a partir da compreensão de como o universo funciona. Apesar da filosofia ter nascido como investigação do cosmos e da natureza, trabalho exercido pelos filósofos pré-socráticos, sabe-se que com Sócrates a filosofia passa a ter um novo objeto de investigação: os dilemas do próprio homem. Eu diria que após o advento da ciência moderna, o espaço de investigação da filosofia fica cada vez mais restrito: enquanto a ciência busca a verdade fora do homem, no universo, na natureza, a filosofia, e com ela outras áreas da investigação, como a psicologia no século XIX, passa a buscar a verdade na interioridade humana.

Quem citaria como pensador da verdade?
Entre os antigos, além de Tales de Mileto, Platão e Aristóteles, destaco Santo Agostinho, conhecido como bispo de Hipona, para quem Deus é a verdade, e a filosofia poderia encaminhar o homem para Deus. Entre os modernos, cito Blaise Pascal, pensador do século XVII, que faz uma pergunta fundamental, “O que é o eu?”, e mostra a dificuldade de respondê-la: trata-se de dizer o que há de essencial, de verdadeiro, de imutável no homem, e não as suas qualidades acidentais. Por exemplo, a identidade do homem, da pessoa, está no corpo? Não, porque o corpo muda, assume diferentes formas, e a pessoa continua a ser ela mesma: Maria não deixa de ser Maria porque ficou mais magra ou mais alta. Então o homem é o seu juízo, sua capacidade de pensar? Se perco a capacidade de pensar, ainda assim não perco o meu eu, não deixo de ser quem sou. Então, Pascal indaga: o que é o homem, qual a sua identidade, se ele não é nem corpo, nem alma? A pergunta de Pascal, “O que é o eu?”, é uma tentativa de dizer a verdade sobre o homem, porém ela nos leva a uma espécie de aporia.

O que é aporia?
É uma espécie de rua sem saída; você não tem para onde ir, não chega a lugar nenhum. Ou, ainda, uma imagem que ilustra bem essa ideia seria a de um cachorro correndo atrás do próprio rabo.

É…
A indagação de Pascal nos leva a uma espécie de vazio. O homem seria, então, um conjunto de qualidades por ele inventadas, uma máscara. Já Nietzsche, no século XIX, faz outra pergunta: quanto de verdade nós suportamos? Essa questão está em sintonia com à de Pascal: não sei se posso me perguntar o que é a verdade se não tenho estofo para suportá-la. Então, voltando à primeira pergunta… Se o homem de fato sempre procurou a verdade? É muito difícil para qualquer historiador do pensamento afirmar que o homem sempre a procurou, mas posso dizer que quando estudamos a história das religiões e a história da filosofia, sempre nos deparamos com a busca da verdade, de modo que ela sempre foi um enigma para a curiosidade humana.

Por que se mente tanto no debate público?
Não posso dizer isso com tanta convicção. Entretanto, diria que essa sensação ocorre porque há inúmeras leituras, às vezes contraditórias, de um mesmo acontecimento, o que pode dar ao consumidor de informação a sensação de que alguém está mentindo. Ele percebe que algumas dessas leituras estão muito distantes da realidade, e por este motivo tem a sensação que de fato alguém faltando com a verdade, ou por deslize, ou por má-fé. A imprensa livre prolifera as possíveis leituras dos fatos. Mas não podemos esquecer também que a imprensa em um país democrático é sempre barulhenta: o silêncio é o som ambiente dos cemitérios, mas não da democracia.

Como ela surgiu?
Na Grécia, com os primeiros professores profissionais, os sofistas, entre eles, Protágoras, o qual tem uma frase que serve como marco do relativismo ocidental: “O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são.”

Explique…
Para Protágoras, a verdade é uma questão de retórica. É o uso da linguagem para persuadir o outro: não há real preocupação com a verdade, mas, sim, em convencer o interlocutor. No debate púbico, o relativismo sofístico venceu. São tantas as interpretações que o indivíduo fica um pouco perdido, e certamente alguém está mentindo.

Está oficialmente decretada a morte da espontaneidade?
Não. Oficialmente decretada, não. A espontaneidade nasce com o homem. A criança é espontânea e, por isso mesmo, fala o que não deve. Creio que civilizar é, de alguma maneira, tirar um pouco dessa espontaneidade. Quem fala tudo o que pensa é mal educado. Imagina falar sempre a verdade no trabalho, ou no relacionamento a dois? Se a civilização é um golpe contra a espontaneidade, não se pode esquecer que eliminá-la é também eliminar o homem. É importante pensar a espontaneidade a partir da régua aristotélica: na obra Ética a Nicômaco, Aristóteles vê a ética como justa medida, ou seja, não falar tudo que pensa a ponto de se tornar um mal-educado, inconveniente, que ninguém quer por perto, nem ser um ingênuo, bobo, que nunca fala o que pensa. A sabedoria está na medida.

A que se deve o aumento da procura por conteúdos de filosofia?
Há dois fatores importantes. Primeiro, com a melhoria da economia após o Plano Real, abriu-se um espaço importante para a reflexão, aumentando a venda de livros. Ou seja, o mercado possibilitou um pouco mais o velho e bom ócio criativo que os antigos sempre exaltaram. Há uma obra antiga, chamada Sobre a brevidade da vida, de Sêneca, que destaca a vida dos generais e imperadores que sempre trabalharam voltados para as questões práticas da vida, mas o que sempre desejaram verdadeiramente era ter o tempo livre para filosofar. Quando a economia melhora, sobra dinheiro e tempo para o prazer de pensar.

E o segundo fator?
O homem quer viver bem. Platão, na obra Críton, diz: “O importante não é viver, mas viver bem”. De alguma maneira, a filosofia nos indaga sobre o nosso modo de vida. Viver, qualquer animal vive, mas o desejo de viver bem é uma característica do homem. A filosofia, enquanto teoria, auxilia-nos a viver uma vida que vale a pena ser vivida: ela aguça a reflexão sobre os valores que guiarão as nossas decisões no cotidiano. No mundo contemporâneo, a filosofia cresce porque nos concede o privilégio da dúvida. A dúvida proporciona refletir as mudanças necessárias, ou proporciona estabilidade e prudência, quando a mudança é demasiada arriscada.

Uma das máximas mais mentirosas do nosso tempo é “não ligo para o que dizem sobre mim”? Qual é o papel das mídias sociais na manutenção da mentira social?
Creio que só o fato de uma pessoa dizer que não se preocupa com o que dizem dela já demonstra certa ausência de indiferença. Se alguém diz que não liga para o que dizem dela, ela já revela um certo grau de sensibilidade quanto à opinião do outro: neste caso, o grau zero de indiferença desapareceu. Quem diz isso está tentando passar a ideia de ser uma pessoa supersegura e imune à opinião alheia. É claro que há quem de fato não dá ouvidos ao outro, mas a existência do oásis, da exceção, não muda o deserto, a regra. E a regra é: a maior parte das pessoas se preocupa com a opinião alheia. As mídias sociais são prova dessa preocupação com a opinião alheia, e assim colaboram muito para aquilo que chamo de invenção de si.

Como se dá isso?
Trata-se de publicar nas mídias apenas as características que a maioria das pessoas gosta e acha interessante – o que denota a imensa importância que se dá à opinião alheia. Publica-se o que é digno de sucesso e de estima social. Por outro lado, esconde-se aquilo que é digno de desprezo, criando-se um ser desejável e invejável. Por fim, repete-se tantas vezes esse personagem, que a pessoa passa a acreditar ser de fato a criatura inventada.

Isso é um problema!
Isso é um dos problemas, pois há outros: não quero que ninguém minta para mim, mas quando minto sobre mim para o outro, faço para o outro aquilo que não quero que façam para mim.  Está vendo o nó?

Se esse outro percebe a mentira e aponta…
Esse que aponta a mentira de caráter é aquele que fala a verdade. Esse é o nosso verdadeiro amigo! Mas o que de fato acontece? Passamos a odiá-lo, já que ele revela aquilo que gastamos uma enorme energia para esconder. Quem retira nossa máscara recebe como prêmio o nosso ódio. Gostamos de fato é de quem nos adula.

Sem dúvida…
Pascal já fazia essa reflexão no século XVII. Em um trecho da sua obra Pensamentos, ele diz que “nós não gostamos que mintam para nós, mas nós mentimos para o outro.” Em outro momento, refletindo sobre a maldade humana, ressalta: “Como o coração humano é oco e cheio de lixo!” Eu penso que as mídias sociais colaboram para que a mentira de caráter seja o fundamento da vida social. As mídias sociais apontam para isso: elas são uma extensão de nós mesmos, os instrumentos pelos quais me invento. Todavia, não condeno as mídias sociais pelo uso que se faz delas, pois estou ciente dos inúmeros benefícios que elas também proporcionam. O problema não está nos instrumentos midiáticos, mas no uso que se faz deles.

Se um dia dissemos “sair bem na foto”, hoje dizemos “sair bem no algoritmo”. Como vê a onda de fake news?
Em tempos de comunicação para as grandes massas, percebeu-se que a mentira nua e crua pode gerar benefícios para os mentirosos. Trotsky falava do “idiota útil”. O idiota útil era aquele verdadeiramente persuadido pelas falácias do partido, e que defendia a ideologia sem nenhuma ponderação ou dúvida. O que ele queria dizer com isso? Que a mentira sempre terá adeptos cegos, e por este motivo ela tem um papel fundamental na divulgação das ideologias. Mais uma vez lembramos os sofistas. Repare, voltamos a discutir o que os gregos discutiram: conhecimento vs opinião. Parece que o pensamento humano são notas de rodapé de Platão.

Sim, evoluímos quase nada desde então…
Sócrates dizia que se a retórica era a arte da persuasão por meio das palavras e uma preocupação com a verdade, então ele não seria um retórico. Porém, se a retórica é o uso da linguagem para manifestar a verdade, então neste caso ele seria um retórico. Sócrates estava fazendo uma diferenciação entre uma retórica que produz simulacros e uma retórica voltada para a verdade. Do mesmo modo, a linguagem pode ser usada para fazer um jornalismo sério, como também pode ser usada com má-fé, e é assim que insurgem as fake news. Como a tecnologia permitiu a proliferação de inúmeras narrativas, o indivíduo fica perdido no caos das interpretações que se contradizem. Qual é o critério para validarmos ou não uma informação? Já há uma discussão no Legislativo para o controle das fake news, principalmente neste ano de eleições. Porém, creio que se houver leis para isso, precisaremos construir mais cadeias. A verdade não é desse mundo.

 

Dedicamos à Cristine Oiticica.

 

Eliana de Castro Written by:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP.

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