Christopher Ryan: “O desejo tem a função de unir duas pessoas, mas não de mantê-las”

As vantagens são inúmeras, mas há de se ter coragem. O assunto da vez é casamento aberto. Os mais conservadores dirão que não há vantagem alguma onde a fidelidade não impera. Fidelidade? Por sua vez, uma das facetas mais cínicas de uma relação a dois, já deixou de ser argumento há muito tempo, principalmente depois do surgimento de aplicativos de encontros, sem falar nas redes sociais. Quais as vantagens e desvantagens de viver em um casamento aberto? Quem discute pormenores com exclusividade para a FAUSTO é o doutor em Psicologia pela Saybrook University Christopher Ryan, também autor do renomado Sex at Dawn. Uma reflexão interessante e muito mais complexa do que julgam os apressados. Parte da Série Le Privé – O lugar do desejo.

desejo
Christopher Ryan.


FAUSTO – Por que costumamos achar casamento aberto algo imoral?
Christopher Ryan: No ocidente a sociedade considera o casamento aberto imoral. Há a suposição de que o casamento é baseado na posse da mulher pelo homem, e de que o homem tem total controle sobre o comportamento sexual da mulher. Vemos isso no Velho Testamento, por exemplo: “Não cobiçarás a mulher do teu próximo”.

Religião…
Soa como estarmos sendo ensinados a respeitar o casamento do próximo, mas vendo o contexto, a passagem continua: “nem sua casa, nem o seu campo, nem o seu servo”. Em outras palavras, nem suas posses. Ou seja, a esposa é simplesmente outra peça de propriedade do homem, peça que deve ser respeitada. Adultério foi definido como ter sexo com a esposa de outro homem, não incluía o hábito sexual do homem fora do casamento.

Verdade!
Em outras palavras, um homem casado poderia fazer sexo com uma mulher solteira, com uma concubina, com uma prostituta, com escravas; e nada disso seria considerado adultério. Adultério seria apenas se ele fizesse sexo com a esposa de outro homem, o que estaria violando o direito de propriedade de outro homem. O adultério, sem dúvida, se estende a todos os tipos de comportamento sexual da mulher. Uma mulher que fizesse sexo com qualquer homem que não o seu marido, isso seria considerado adultério.

De certa forma ainda é assim…
Em muitos países, uma mulher estuprada é considerada “danificada”, não tem mais valor. A propriedade do marido ou do pai foi violada. Então, o motivo pelo qual o casamento aberto – ou o relacionamento aberto – é considerado imoral é porque a fundação dessa moralidade é a propriedade e o controle da mulher pelo homem. Isso desafia esse direito fundamental. Mesmo hoje nas sociedades ocidentais, o pai entrega sua filha, quando casa, para o marido. Ou seja, é transferida a propriedade de um homem para outro.

Filhos ainda são entraves na hora de optar por um casamento aberto? Por exemplo, pelo receio de que a criação seja mais difícil, talvez…
Não tenho certeza sobre o que você quer dizer com criação, mas, sim, creio que crianças são uma barreira para relacionamentos abertos, porque a sociedade supõe que casamentos monogâmicos – portanto, estabelecidos por lei – são hostis aos múltiplos pais, apesar do fato de que todas as pesquisas psicológicas relevantes já mostraram que crianças criadas por mais de dois adultos amorosos são melhores psicologicamente do que quando somente criadas por um ou dois.

Creio nisso.
E os pais também vão melhor se tem ajuda ao criar os filhos do que quando estão sozinhos. Então, sim, o sistema legal é feito para o casamento monogâmico tradicional. Se já é difícil educar crianças considerando os direitos de propriedade, de herança, além das visitas, isso dentro de um sistema legal, é muito mais complicado em um casamento não tradicional.

Família é uma célula de organização social. A função da monogamia é bem menos romântica do que gostamos de assumir? Tem a ver com essa manutenção do patrimônio, por exemplo.
Tradicionalmente, casamento tem sido sobre acumulação de propriedades, não só a mulher como propriedade, mas a família da mulher. Casamentos são usados nas classes mais altas tradicionais como um meio de juntar propriedades de duas famílias, ou juntar a influência de duas famílias, e assim aumentar riquezas ou influências.

No Brasil, isso ainda faz bastante sentido.
Então, nessas classes, o casamento com monogamia sexual geralmente não é esperado. Sem dúvida não para o homem, e mesmo em alguns casos para a mulher, uma vez que a função desse casamento é conglomeração de bens, riqueza e influência, não é um vínculo de amor, ou sexual, e sim um arranjo financeiro.

Por que as narrativas românticas ainda têm tanta força quando o assunto é sexo?
Porque a mídia constantemente a repete. Cada filme, programa de TV, música, repete-se de novo e de novo e de novo. Daí você se acha o único, o único e exclusivo, e crê em sua alma gêmea, sua outra metade. Toda vez é a mesma história. Então, claro que as crianças crescem acreditando em tudo isso. Crianças de países cristãos crescem acreditando na mitologia de Cristo; crianças de países comunistas crescem acreditando na mitologia do comunismo; assim como crianças de países capitalistas crescem acreditando na dignidade do trabalho e no acúmulo de posses. É o modo como as culturas se propagam pelas suas narrativas mitológicas, e nós também temos nossas próprias narrativas românticas.

A liberdade sexual da mulher está totalmente ligada à sua independência financeira?
Sim, embora a independência financeira possa vir do Estado. Em países democráticos como a Dinamarca, Suíça e Noruega as mulheres são muito mais independentes sexualmente, sendo ricas ou não. São independentes porque o Estado provê tudo. Elas não precisam se preocupar com seguro saúde, cuidados com a criança no sentido de quem vai tomar conta enquanto vão trabalhar, se vão ficar doentes. O Estado fornece todos os cuidados. Logo, a necessidade de ter um homem para contribuir financeiramente é suprida. A mulher tem acesso ao que necessita direta e independentemente, o que facilita sua autonomia e independência sexual.

Isso também faz bastante sentido.
Isso é de muitas formas uma replicação moderna da sociedade “hunter-gatherer”, na qual a mulher consegue os recursos que precisa. Sabe onde a comida está, como construir um abrigo, e sabe como fazer fogo. Ou seja, coisas que não precisa de um homem em específico para suprir. Nesse tipo de sociedade, e nas sociedades democraticamente sociais do norte da Europa, a riqueza é comum e ajuda a todos. Comida é dividida, recursos são divididos.

Qual é a importância do jogo, do mistério, das máscaras na manutenção do desejo?
O desejo tem a função de unir duas pessoas, mas não de mantê-las. O jogo, o mistério e as máscaras são obstáculos, são jeitos de manter algum tipo de distância, ou espaço que ajude a preservar algum nível de desejo. Jack Morin, no livro A Mente Erótica, diz algo bem simples, mas que penso ser muito profundo: que obstáculos combinados com atração geram paixão. Se pensarmos em qualquer história de amor, Romeu e Julieta, por exemplo – ou qualquer outra – são duas pessoas atraídas entre si, mas existe um obstáculo que não os permitem ficar juntas. Quando um casal fica junto e supera esses obstáculos, olham para isso como um grande triunfo, mas fica a perda da paixão, porque paixão é fome, e você não fica com fome se você come tudo o que quer. Ou seja, você não pode ter ambos. Estar faminto e satisfeito, seco e molhado, é uma impossibilidade lógica.

Há um jeito de se manter apaixonado?
O que casais usam para se manter apaixonados, conscientes ou não, são quase sempre obstáculos que eles mesmos colocam. Ou passam muito tempo separados, ou brigam muito e quando fazem as pazes o sexo é ótimo, ou saem com outras pessoas, o que acrescenta certo perigo ou mistério, e certo espaço na relação. Mas o que quer que façam para manter a paixão, será necessariamente algo que dê esse espaço ou que seja um obstáculo.

Como é possível transar mais em tempos de tanto medo: de assédio, por parte das mulheres; de medo de acusação ilegítima de assédio, por parte dos homens?
Creio que as pessoas fazem mais sexo quando confiam umas nas outras, e elas têm um sexo melhor quando confiam umas nas outras. Hoje há esse medo do assédio, mas creio que é uma oportunidade para homens e mulheres falarem uns com os outros – ou homens e homens; ou mulheres e mulheres –, falarem aberta e honestamente sobre o que desejam, quais os seus limites.

Sim, sem dúvida.
Creio que há muitos problemas nessas políticas sexuais, desde pessoas sendo vitimadas às que estão sendo condenadas injustamente. Entretanto, por outro lado penso que é muito saudável que essas conversas estejam acontecendo mais abertamente, e que as pessoas se sintam mais confortáveis, especialmente as mulheres, que não são instrumentos passivos aos desejos do homem. As pessoas deveriam tomar essas conversas como oportunidade de aumentar a intimidade e não o contrário, como um meio de eliminar a verdadeira intimidade. É sempre bom poder conversar sobre sexualidade abertamente e sem vergonha.

A diminuição da privacidade devido às redes sociais influencia no desejo?
Provavelmente, sim. Não sei se tanto pela diminuição da privacidade, mas pelo crescimento eficiente do uso de aplicativos de namoro e de sexo. Como os obstáculos são removidos – o que mencionei antes – as pessoas estão tendo mais sexo impessoal. Começa no pequeno flerte ao telefone, ou no computador, e daí na hora que vão para o mundo real elas já combinaram que irão transar. O sexo com alguém que não se conhece de verdade pode ser insatisfatório para ambos, uma vez que não existe uma real intimidade, mas só algo puramente combinado. É praticamente uma masturbação e não uma conexão sexual real. Fico pensando em pessoas mais jovens que não entendem que nossos corpos são pontes que usamos através do sexo para conectar nossas mentes e nossos corações, nossas almas, nossos espíritos, e é isso que é realmente interessante, satisfatório, excitante, aventureiro. Se limitarmos nosso entendimento sobre sexo a apenas interações de nossos corpos, perderemos a parte mais interessante e suculenta do que a sexualidade humana pode oferecer.

Você usa o conceito “techno-sexuality”: Os afetos tendem a se perder nesse mar de apetrechos e aparelhos tecnológicos? Carinho, cumplicidade, lealdade, entrega…
Sim, penso que brinquedos sexuais podem melhorar a sexualidade, ser úteis e divertidos, mas eles precisam ser o que apimenta o jantar e não o próprio jantar. É claro que as pessoas podem se tornar fisicamente dependentes da tecnologia, seja a pornografia ou os vibradores, ou qualquer que seja o dispositivo que esteja sendo usado. As pessoas perdem a perspectiva da realidade, e acabam dessensibilizadas, seja psicológica  ou fisicamente. Isso pode ser um problema. O mais interessante sobre sexo é o que acontece na mente das pessoas que estão fazendo sexo, e não nos corpos. E tecnologia não adiciona realmente muito ao modo como duas mentes se unem na hora de fazer amor.

 

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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