Eric Messa: “Quando podemos tudo, não conseguimos decidir”

O que é, em nosso tempo, ser um profissional inserido no mercado de trabalho? É viver na corda bamba entre total incerteza e possibilidades sem-fim? Traçar um plano e segui-lo custe o que custar ou navegar, tão leve quanto possível, deixando o acaso tecer o norte? Eric Messa, considerado um dos 50 profissionais mais inovadores da comunicação e do marketing, professor e coordenador geral do Núcleo de Inovação em Mídia Digital da FAAP, conversa com a FAUSTO com exclusividade e reflete sobre a única garantia neste mar turvo de currículos imprecisos: a responsabilidade no comando das próprias decisões.

Eric Messa. Foto: Claus Lehmann/ Revista FAAP.

FAUSTO – Inovação e capitalismo andam de mãos dadas?
Eric Messa: Uma resposta simples e direta seria sim. Porque grande parte da inovação envolve não apenas exercício de pensamento – o que faz surgir algo novo de um repertório individual –, mas também o surgimento de novas tecnologias, e neste caso o dinheiro não tem como ficar de fora.

E como recebe essas previsões sobre o fim do capitalismo?
Não diria “fim do capitalismo”. Pelo menos não penso assim. Nem quanto ao fim, nem quanto à ascensão de qualquer outro modelo. O que creio é que estamos vivendo um processo de evolução.

Em que sentido?
Não digo evolução no sentido que normalmente se costuma pensar, que parece ser para melhor – e não sei se é para melhor ou pior, é apenas evolução. O modelo atual de capitalismo está apontando para outro caminho que é bastante diferente, mas não sei se deixa de ser capitalismo. Ainda haverá concorrência, grandes grupos, grandes marcas – e marcas que cobram muito por aquilo que oferecem. Nesse contexto, viveremos ainda o problema da diferença social. Portanto, não sou otimista em pensar que avanço tecnológico e inovação curarão grandes problemas da sociedade.

Haverá lugar no mercado de trabalho para quem não aprecia o LinkedIn? E com isso quero dizer apostar na autopromoção, na constante “participação” na autopromoção do outro…
É um assunto bastante amplo, mas creio que o LinkedIn é uma plataforma que atende a um mundo que vive em rede. E o que não tem mais volta é esse mundo em rede, que chegou para ficar. Só que tudo é ainda muito novo e estamos na fase do deslumbramento. Nessa fase, exageramos um pouco na forma de usar e no valor que damos. Estamos fazendo com as redes sociais o que fizemos um dia com a televisão.

Verdade…
Naquela época, parecia a melhor tecnologia do mundo, que resolveria vários problemas de comunicação, de educação. No fim do dia famílias inteiras se reuniam para assisti-la por horas, não importava o programa. Com o passar do tempo é que fomos construindo um olhar crítico, começamos a questionar o conteúdo e hoje somos telespectadores mais críticos – ainda consumimos bastante, mas já entendemos que a televisão não é a solução de todos os problemas. Estamos fazendo a mesma coisa com as redes sociais.

E o LinkedIn está nessa fase...
Há pessoas deslumbradas, usando para autopromoção, para publicar coisas que não sei o quanto de valor tem, de fato. Nesse primeiro momento, talvez, tenha lá certa audiência, pode estar dando resultado para quem faz autopromoção, mas tenho dúvidas do quanto se sustentará. Por outro lado, plataformas como o LinkedIn, que se propõem a atuar nesse espaço do mercado de trabalho, creio que vieram para ficar. É assim que as pessoas se inserirão no mercado. Inclusive, em breve, veremos atuando soluções de aplicação de inteligência artificial e creio que a seleção de um profissional será bem diferente da forma como é hoje, nesse método “envie-me o seu currículo”, com alguém abrindo cada e-mail.

Se o algoritmo fará esse processo, precisaremos aprender os termos corretos – as palavras-chave – para entrar no radar do algoritmo? É um saber muito específico, não?
Talvez, falar de palavra-chave e hashtag seja apenas simplificar o que será preciso no futuro. Porque algo muito importante – e que faz parte do mundo da vigilância – é que precisaremos pensar muito nos rastros digitais que deixamos. Porque a inteligência artificial não lerá apenas um texto, lerá todos os posts que você já escreveu e saberá todos os lugares por onde já esteve. Fará também uma consideração maior sobre todos os seus rastros para entender se você se adéqua mesmo àquela necessidade. Sobre essa questão particular de seleção de profissionais para a área de RH, já existe uma preocupação, por exemplo, de evitar a criação de programas de inteligência artificial que acabem, por conta de sua programação, fazendo seleções enviesadas.

E ideológicas…
Sim, criando até preconceitos. Porque viés de programação, hoje, passa muito por viés preditivo, que é olhar para todo o passado para tentar prever um pouco o futuro.

Como assim?
Quem está trabalhando nisso está muito preocupado em como impedir que essa programação automatizada faça a seguinte consideração: no passado, os bons profissionais tinham determinado perfil social, de gênero e de raça, e isso por causa das condições em que vivíamos. Só que, claro, isso não significa que pessoas de gênero e raça diferentes não possam ser bons profissionais. De forma mais clara: bons presidentes de empresas eram, em sua maioria, homens brancos. Nessa lógica, a programação entende que o bom presidente tem que ser homem e branco. Ou seja, já está sendo construída uma ferramenta errada.

Com certeza…
Outro ponto: o que estamos prevendo é com visão do cenário atual e pode ser que não seja esse o cenário. Estamos falando de uma pré-seleção que terá falhas porque o candidato pode vir a não usar as palavras exatas que os filtros usarão, mas ninguém disse que essa pré-seleção será da forma como fazemos hoje. Talvez, esse modelo que fará uso de inteligência artificial, que escolherá três candidatos que serão entrevistados pelo presidente da empresa, seja construído a partir de um modelo de processo cujo ponto de partida não será o recebimento de um currículo.

Por exemplo, se uma empresa deseja um tipo específico de texto, a inteligência artificial pode sair lendo tudo o que está na rede e daí encontra o meu texto. E essa inteligência não quer saber se sou branca, mulher…
É um jeito. Outro jeito é vasculhar a internet para buscar quem é o autor desses textos. Outro jeito ainda é não perguntar sobre formação, experiências anteriores, mas criar outra plataforma em que você terá que responder as perguntas que o empregador vai propor. Não sei como será, só estou querendo dizer que hoje é isso que conseguimos ver. E mesmo em um novo modelo haverá pontos positivos e negativos. Não dá para prever se será melhor ou pior.

O que fazer quando não há mais tempo para ser profundo? Ler um livro toma tempo demais.
Estamos vivendo um processo de transição de paradigma tecnológico e social. Tecnológico porque estamos dentro das redes, social porque somos parte de uma sociedade muito diferente das anteriores. Claro, não sou futurólogo, mas no meu entender vivíamos em um mundo que era um pouco mais previsível. Para um jovem era mais fácil decidir se ia ser médico, jornalista ou engenheiro. Acontece que esse mundo não existe mais, devido aos avanços tecnológicos, mas também aos econômicos e sociais. Hoje, vivemos em um mundo em que tudo pode. E porque tudo pode ficou muito mais difícil ter uma ideia de futuro, não porque ele não exista, mas porque é muito diverso. Antes, quando você nascia numa família de dentistas, você seria dentista. Hoje, você pode ser qualquer coisa. Só que uma das características humanas é que quando podemos tudo, não conseguimos decidir.

E como o mercado responde?
O mercado faz com que o profissional que ele quer não seja mais necessariamente aquele tão específico. Só que é assim que ainda está montado o nosso modelo educacional. O profissional só busca formações específicas quando precisa de algo um pouco mais multidisciplinar.

Dê um exemplo.
Quando alguém se formava em jornalismo, era mais claro o que ia fazer. O mesmo em publicidade, relações públicas, cinema. Hoje, essas indústrias estão todas retransformadas. Não há tanto mercado. E mesmo assim, do outro lado, empresas de mídia, que antes contratavam apenas jornalistas, hoje precisam de jornalistas que entendam de programação e tecnologia. Quem está em processo de formação vive uma angústia enorme: um, porque não sabem qual carreira seguir uma vez que nada é tão claro; dois, porque quando ele escolhe uma profissão, ele descobre que o mercado queria alguma coisa mais além do que aquilo que ele escolheu.

E não importa se em época passada ou agora, temos as mesmas 24 horas do dia para fazer tudo o que precisa ser feito.
Sim. Estamos nesse lugar da angústia que nos impede de seguir em frente. A maioria das pessoas está estagnada porque não consegue tomar uma decisão sozinha, para onde seguir. E qual é o ponto de vista do mercado? Para sermos multidisciplinares, temos que olhar para várias coisas ao mesmo tempo e não conseguimos nos aprofundar em nenhuma.

E qual é o seu ponto de vista?
Concordo com isso, mas apenas devido a esse processo de transição. Precisaremos passar por ele para depois entendermos que não vamos mais ter essas formações tão duras como são as de hoje. Aponta-me uma ideia de que começaremos a ter formações mais “personalizadas”, digamos, uma formação em que o indivíduo construirá sua trajetória em torno de alguma coisa. Isso permitirá que se aprofunde em determinado assunto, e será extremamente relevante, embora para empresas específicas também.

A sobre a dificuldade de ler para aprofundar?
Creio que passa por algo que é comportamental, que é esse deslumbramento com as redes sociais. Há exposição além do necessário e as pessoas consomem com muita ansiedade e talvez com um pouco em exagero, não dando espaço para outros produtos de comunicação.

É, pode ser…
Lucia Santaella diz que há vários tipos de leitores: o leitor que exige mais contemplação: para ler um livro, uma obra de arte; o leitor que é mais das mensagens fragmentadas, que seria o da televisão, de uma revista ou jornal; e o leitor imersivo, que é esse do mundo digital. Não somos apenas um deles, mas todos eles. Então, deveríamos saber navegar entre eles, deveríamos conseguir sentar e apreciar um filme quando estamos no cinema; ou quando estamos lendo, saber relaxar e dedicar aquele tempo apenas ao livro. Mas de fato não conseguimos.

Por quê?
Minha resposta – e não sei se Santaella diria o mesmo – é que estamos nessa fase de deslumbramento. Estamos com muitas características desse leitor imerso, que é o das mensagens rápidas, e ficamos na mesma expectativa quando pegamos um livro, expectativa que ele não atenderá.

Acredita que isso pode mudar?
Sim, nessa questão sou mais otimista. Ganharemos certo amadurecimento e seremos capazes de reservar tempo para leitura mais densa, quando for relevante. Hoje, acho que falta isso também. As pessoas têm dificuldade de enxergar relevância nos conteúdos mais densos. E isso mudará quando esse tipo de conteúdo for reconhecido pelo mercado.

Sim, com certeza. Mexerá no bolso.
Por exemplo, porque o seu produto não é tão valorizado, agências digitais precisam contratar profissionais baratos, que por sua vez têm formação inferior à sua.

E não têm experiência e vivência.
Sim, e por isso entregam o superficial. Então, quem está no começo da carreira e vê que o mercado não valoriza o que você faz, por exemplo, por que vai se aprofundar?

Se posso responder essa perguntar, digamos, como pessoa física, eu diria: eu não saberia ser de outro jeito. E é o que me gera angústia. Só abriria mão do que amo por questão de sobrevivência, e eu ficaria cada vez mais angustiada. Ou, justamente por causa da minha natureza, eu peitaria e tentaria um lugar ao Sol…
Creio que o mercado está assim, e não que ele será assim, porque ele não se sustentará dessa forma superficial. O mercado precisará entregar algo de qualidade. Mas a melhor resposta não é essa.

Qual é?
De novo: nosso problema está em só conseguir olhar sobre o contexto do passado e não do futuro, na medida do possível. No passado, a solução era encontrar um lugar para trabalhar que visse valor na formação. Mas isso é só uma das possibilidades que existe hoje. E inclusive é a que está diminuindo mais. Porque empresas com condição de pagar profissionais bem gabaritados estão desaparecendo.

Como são os jovens de sua sala de aula?
Eles não estão necessariamente interessados em trabalhar em grandes empresas.

Eles querem empreender?
A palavra que conseguimos usar é empreender, mas a questão deles é se descobrirem dentro do mercado. Ou seja, empreender é só um dos caminhos.

Que interessante.
Gosto muito de algo que o Jorge Forbes fala: a solução para sair desse espaço de estagnação é não viver essa angústia como sendo um problema externo a nós.

Como assim?
Tentando encontrar um lugar no mercado, uma empresa que valorize sua formação e experiência. Para o Forbes, é assim: precisamos nos responsabilizar pelo acaso. A imprevisibilidade do futuro é o que está dado. Não podemos querer, hoje, que o mundo seja como foi um dia.

É bastante difícil…
Hoje, podemos qualquer coisa. E se podemos qualquer coisa, por que viveremos nessa angústia de não saber escolher? Então, é melhor nos responsabilizarmos por esse acaso, em que escolhas que fazemos obrigatoriamente definem todo o resto que não escolhemos.

Que bom isso, hein?
É assumir essa responsabilidade e seguir em frente. É como a sua própria história. Os passos que você foi dando foram trazendo coisas por acaso, por sorte…

Por milagre…
É assim que você quer traduzir, mas a verdade é que você assumiu a responsabilidade por sua própria vida e foi seguindo em frente, assumindo o risco de não enxergar claramente um futuro, mas mesmo assim foi seguindo para ver onde ia dar, tirando proveito do que foi aparecendo.

Não deixa de ser bonito isso…
E tem outro ponto. Henry Jenkins, autor de Cultura da Convergência, diz algo interessante: não existe mais nenhum produto de comunicação que não dependa de passar pelas mãos dos usuários.

O que isso quer dizer exatamente?
No paradigma anterior, era só publicar no jornal que todos ficavam sabendo. Hoje, a grande audiência não está mais dando atenção para esses veículos. Ao longo do dia, não gastamos mais tempo na televisão e sim nas redes sociais. E tem mais outro ponto: se observarmos os números dos influencers, os mais famosos têm quatro, cinco milhões de seguidores. É um número grande, mas ao mesmo tempo não significa que essas pessoas receberão a informação que foi postada. O que Jenkins diz, resumidamente, é que não adianta ser manchete de jornal, não adianta sair na televisão, poucas pessoas saberão. Para muitas pessoas saberem, essa informação precisa circular espontaneamente nas redes, ela tem que ter algum elemento que estimule as pessoas a compartilhá-la.

O bom e velho boca a boca.
Exatamente. Ele usa o conceito propagabilidade. Para quem trabalha com comunicação a ideia da propagabilidade é essencial.

E sobre exposição excessiva?
Essa necessidade da exposição em parte passa por aquilo que já conhecemos de querermos ostentar, preencher lacunas de angústia com momentos de felicidade, expor só aquilo que é bom e feliz. Mas voltando à reflexão do Jorge Forbes, porque antes nos organizávamos em um modelo patriarcal – sob o ponto de vista psicanalítico – eram os nossos pais, chefes, a religião ou o governo que davam certo norte para as nossas vidas. Só que essas instituições desmoronaram. No discurso do Bauman, elas foram “diluídas”, não têm o mesmo peso de antes. Voltando para o Forbes, como não temos mais essas referências tão sólidas, estamos sozinhos, angustiados, tentando tomar essas decisões, só que não conseguimos sozinhos. Por isso precisamos fazer “ressoar” essas decisões, para obtermos validação.

De quem?
De nossos pares. Discutimos nossas angustias e decisões “ressoando” para os nossos pares, para ouvir a opinião deles. Essa opinião nos ajudará a seguir em frente. Se fizermos uma pesquisa do que as pessoas escrevem nas redes sociais, em algum momento será fácil encontrar isso. Pessoas publicando afirmações pessoais sobre as quais, a priori, pensamos: que relevância tem isso para o outro?

Sim! Assim me parece o LinkedIn, por exemplo. Entrei recentemente e achei que era outra coisa.
As pessoas expõem aquilo que aconteceu para ver como ressoa. A partir desse diálogo com seus pares, tomam pequenas decisões.

Mudando de assunto: os privilegiados financeiramente foram os primeiros a se conectarem, o futuro aponta que eles também serão os primeiros a se desconectarem?
Por luxo. Por possibilidade financeira. Assim como hoje é possível viver a linda experiência de ouvir um disco de vinil. Por luxo. Por curtição. Tanto que hoje um disco de vinil custa muito mais caro do que custava antes. Virou vintage, consumo de moda.

Martin Lindstrom, autor de A Lógica do Consumo, conta em nossa entrevista que vive desconectado. Ele não tem celular. E ele enxerga como tendência…
Essa desconexão é possível, mas precisa de todo um contexto que a sustente.

O interesse por filosofia – entre outros saberes equivalentes – aumenta vertiginosamente porque as facilidades tecnológicas não estão respondendo às grandes questões da existência?
O Harari fala sobre três coisas que sobrarão para o homem: a ética, a filosofia e a religião; uma vez que a máquina, a inteligência artificial, fará todo o processo mecânico. Contudo, quando o humano tiver que decidir entre A e B, ele esbarrará em questões éticas e filosóficas, então o homem será necessário. A conclusão disso é que, possivelmente, em muitas profissões a disciplina que mais ganhará relevância será a filosofia e suas complementariedades.

 

Nobre dama ou nobre cavalheiro,
Agradecemos a leitura dessa entrevista com o nobre cavalheiro Eric Messa. Esperamos que tenha apreciado muitíssimo. Gostaríamos de deixar o singelo e carinhoso convite para nos acompanhar em nossas “redes sociais”, essas tais aí sobre as quais falamos. Estamos, portanto, no Facebook e inteirinho em preto e branco em um lindo perfil no Instagram, à espera. Será para nós uma honra!

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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