Jerônimo Teixeira: “Ressentimento é uma força política forte e perversa”

Não somos mais os mesmos desde 2013. Especificamente, desde Junho de 2013. Nossa literatura recente, entretanto, faz pouco uso de cenários históricos para ambientar suas narrativas. Por isso exceções chamam a atenção, como é o caso de Os Dias da Crise, do jornalista Jerônimo Teixeira. A argúcia desse enredo, para a FAUSTO, é a fragilidade de todos os aspectos de nossa vida, hoje: do profissional ao familiar, sem deixar escapar o sexual e o político, ainda que as manifestações desse fatídico ano tenham dado voz a todo e qualquer um. Sobre essas fragilidades e demais incertezas de nosso tempo, conversamos com exclusividade com o autor, que já ocupou a posição de crítico literário e editor executivo da revista Veja.

Jerônimo Teixeira.
Jerônimo Teixeira. Foto: Divulgação/Paulo Vitale.

FAUSTO – Os Dias da Crise é sobre a fragilidade de todas as nossas concepções? Políticas, corporativas, afetivas, sexuais…
Jerônimo Teixeira: Talvez, acho que é uma boa maneira de colocar, embora na maioria das vezes os personagens não percebam essa fragilidade. Eles estão muito convictos de suas convicções, com o perdão da tautologia. É aquele famoso verso de Yeats: os piores estão cheios de intensidade. Não sei, entretanto, se é a fragilidade das convicções ou talvez a das posições que os personagens ocupam. E acho que isso é algo cada vez mais premente, cada vez mais importante e cada vez mais angustiante.

Sim, com certeza. Está bem claro no livro…
Em primeiro plano tem a fragilidade profissional do protagonista, Alexandre, que é alguém muito convicto de sua competência – e provavelmente ele é competente mesmo, até onde podemos saber, já que é uma narrativa em primeira pessoa e ele está vendendo o próprio peixe – e mesmo assim ele vê uma figura como Eollo chegando para comandar a empresa na qual trabalha por tantos anos.

Uma figura clichê cheia de clichês…
Sim, quis fazer de Eollo uma espécie de caricatura do típico guru corporativo. Mas Alexandre não é assim. Ele é competente, mas está se sentindo deslocado, negligenciado. E ele se pergunta: esse é o mundo corporativo em que vivi a vida inteira e agora está consagrado a esse tipo de mediocridade? Porque embora Alexandre seja uma figura corporativa, ele não fala corporativês. Por outro lado, é muita assertiva sua leitura sobre a fragilidade das questões afetivas e sexuais do Alexandre. A relação dele com a Helena, que é quase o oposto dele, uma professora de Letras, de esquerda – e eu não diria que Alexandre é de direita, ele é uma pessoa indiferente à política, e um tanto quanto cínica – levanta a questão sobre qual lugar tem o macho patriarcal, hoje, nesse tipo de relação como a que ele mantém com a Helena.

Sim…
Por mais que ele queira ser assertivo e dizer que é o cara, essa posição dele também é frágil. Então, sim, as posições de todos os personagens são frágeis.E mais do que frágeis, talvez, sejam confusas. Talvez, a fragilidade seja consequência dessa confusão. Ninguém sabe mais como serão as coisas, elas não estão mais se achando no mundo, no trabalho, na cama, em tudo.

Não há vínculo entre nenhum dos personagens. Achei isso muito simbólico! Nem entre o pai e a filha, que até poderíamos considerar…, mas não.
Do pai e da filha é inescapável. Ela é a herdeira dele, filha única de um casamento que acabou em divórcio.

Eu descreveria Os Dias da Crise para alguém que eu conheço dessa forma: olha, é uma história sobre a fragilidade de todos os aspectos de nossa vida, hoje.
Não sei se eu leria um livro se me fosse recomendado assim… [Dá risada]

Eu leio. E o público da FAUSTO lê. E essa foi uma impressão muito forte mesmo.
Mas o livro é um pouco pessimista mesmo – até onde pessimismo e otimismo são chaves para se avaliar livro, porque significa pouco dizer que é uma história é pessimista ou otimista.

Ah, sim, com certeza.
Por exemplo, quando ouvimos que Machado de Assis era pessimista. Nem sempre. Há pessimismos e pessimismos e pode vir a ser, inclusive, clichê.

Por exemplo.
Por exemplo, uma visão catastrofista de literatura de pensamento social, que é fácil de fazer. Nesse tipo de literatura, estamos sempre caminhando para o pior, as coisas estão sempre se degenerando. Embora em alguma medida estejam mesmo. [Dá risada]

O que disse faz sentido: eles não sabem disso. E a questão da fragilidade para mim faz sentido porque 2013 foi um ano em que se propagou demais muitas convicções. Desde as máximas do mundo corporativo – vide LinkedIn – às máximas da política. Então, isso me pareceu um contraste muito grande e muito interessante.
Uma das máximas que está no livro eu ouvi mesmo de uma figura corporativa, que é aquela: “para fazer a diferença tem que fazer diferente.” Essa frase aparece duas vezes no livro e em uma delas eu até inverti. O que não faz diferença nenhuma, de um jeito ou de outro, é uma frase vazia.

Qual é o significado de Junho de 2013 quando Outubro de 2018 elegeu Jair Bolsonaro?
Não sei o significado de nenhuma das duas coisas, a priori. [Dá risada] Mas há quem enxerga uma linha muito simples de causa e consequência entre Junho de 2013 e Bolsonaro. O documentário Democracia em Vertigem diz algo nesse sentido, que foi em 2013 que começou esse processo, rompeu algo ali, embora essa não seja a linha central do documentário. Talvez, de fato, tenha havido ali certa vertente do bolsonarismo mais moralizante, voltado para o combate à corrupção, vertente mais lavajatista, digamos. Talvez as pessoas tenham sentido o gosto da rua naquele momento, mas é fato que tudo começou como uma movimentação de esquerda, por causa dos 20 centavos.

Sim…
Acontece que aquilo foi escalonando e teve violência policial, algo que está deformadamente narrado no livro, com algumas imprecisões propositais, e dali virou estopim para um movimento nacional. “Que revolta foi essa?” Acho que estava guardada há muito tempo – e provavelmente continua guardada – e daí eclodiu e de repente voltou para casa. Há a interpretação de direita olavista que é meio paranóide, que pensa que foi tudo planejado pela esquerda para o governo petista investir em suas decisões totalitárias, vamos virar a Venezuela. E há a versão de esquerda, que diz que o golpismo já estava ali. Seja como for, ali realmente começou a erodir o governo do PT, embora tenha sido ruim para os tucanos também. Mas acho que nenhuma das duas teorias é suficiente. Havia inspirações totalitárias ali, de fato, e algumas delas estão na base do bolsonarismo, no que o bolsonarismo tem de pior – e o bolsonarismo não tem muita coisa de melhor –, mas havia inspirações maiores, mais interessantes, um desejo de que a nação finalmente pudesse ser chamada como tal, mas que acabou se frustrando ali. Era um momento que não tinha estourado a crise econômica do governo Dilma, que foi mais em 2014, embora também já fosse distante a euforia dos anos Lula, onde de fato houve a ascensão da nova classe média. Contudo, não estávamos em um momento de pessimismo e depressão enormes, estávamos ainda no meio do campo. Meu personagem viu isso contra sua própria natureza, porque ele não é alguém de rua, sequer político. Só que ele acaba indo para a rua no dia crucial, que foi aquele dia duramente reprimido, que teve repórter da Folha com bala no olho. Alexandre foi arrastado naquele momento, contra sua própria vontade e não sabia entender o que exatamente era aquilo. Meio como o personagem de Stendhal em A Cartuxa de Parma, que vai para a Batalha de Waterloo, mas não entende o que está acontecendo. Ninguém entendeu o que estava acontecendo, nem quem estava de fora e nem quem estava dentro

Só queria fazer parte.
Sentir que tem voz, talvez… Voltando à pergunta original, em parte, sim, o que viria a ser o bolsonarismo estava lá representado, mas essa é só uma das possibilidades, não era necessário que as coisas fossem rumo ao Bolsonaro. Poderia ter sido outra coisa completamente diferente, mas aí estamos entrando em algo que os historiadores detestam, que são os futuros alternativos. “Como seria se…” Jamais saberemos.

A história é contingência.
A não ser que achemos que o mundo é totalmente determinista, que desde o Big Bang estava previsto que estaríamos aqui conversando.

Não é nem uma visão que combina com o personagem, que é mais cético.
Sim.

Como o personagem, eu só teria ido por amor a alguém, algo bem no sentido de “ok, vamos lá”. Eu não tinha uma causa. O que me afligia, naquele momento, eram questões muito pessoais…
Minha primeira reação foi de ceticismo também. Depois, comecei a olhar aquilo com um pouco mais de interesse, mas com menos convicção sobre o que era aquilo. Em um dos cartazes, inclusive, vi algo interessante: “É tanta coisa que não cabe nesse cartaz”. As pessoas queriam ir para a rua, elas estavam meio que falando: “Estão nos dizendo que está bom, mas não está bom.”

O personagem é conservador, progressista, cético ou niilista?
Niilista ele não é. Por mais conflituosa que seja a relação com a filha, por exemplo, ele não desiste dela. Ele não se conforma em ser um pai ausente, como muitos divorciados eventualmente se conformam. Ele quer, de alguma maneira, fazer parte da vida dela. Ele também não é um cínico absoluto, embora queira parecer que é; e também não é conservador porque é muito bon vivant para isso. Ele não tem em alta conta qualquer tradição, algo que o ampare. Ele é um cara um pouco difícil de definir – ou pelo menos é o que eu espero que seja – , mas também compreendo que a pessoa que leia com certo olhar ideológico o veja como um fascista de direita, conservador. Agora, uma virtude que acho que Alexandre tem é que sequer deseja ser definido de uma maneira ou de outra. Não é algo que o mobiliza, como mobiliza seus amigos, daquele clubinho que participa.

Pensei nisso justamente porque parte dos que participaram dos movimentos de Junho de 2013 sequer sabiam a qual orientação política pertenciam.
Fica muito fácil desqualificar movimentos de rua por causa disso. Porque as pessoas não têm plena consciência do que estão fazendo ali. Dá para pensar, por exemplo, na Revolução Americana. Será que todo mundo estava plenamente consciente do que estava fazendo ali. Ou será que estavam apenas revoltados com os ingleses? Os Founding Fathers tinham uma ideia clara de nação, mas será que todo mundo partilhava da mesma ideia? O mesmo vale para 1917, a Revolução Francesa, enfim…Lá pelas tantas, se propagou esse gênero de entrevistador que vai ao protesto mostrar que o manifestante é idiota. O hoje deputado estadual Arthur do Val, do Mamãe Falei, fez fama assim, mostrando a idiotice dos manifestantes de esquerda. E pelo lado da esquerda também teve quem fizesse isso nas manifestações pelo impeachment: ia lá na Paulista ouvir a perua sem noção que não gostava de ver a empregada no aeroporto ou na universidade. E sim, tem gente escrota, com as piores motivações, em qualquer protesto. Nas manifestações pelo impeachment, tinha gente a favor da intervenção militar, que é eufemismo para golpe, para ditadura. Mas a maior parte das pessoas estava ali contra a corrupção. Não teriam clareza do que foi revelado em cada uma das delações premiadas da Lava Jato, mas nem por isso dá para desprezar a indignação que sentiam. Uma certa indecisão das massas é sempre inevitável.

Cioran fala que se trata de um drama moderno não poder renunciar a não ser pelo suicídio.
Souza é o anti-herói da história? Eu amei o Souza!
Não, ele não é. Não sei se ele cabe nessa frase do Cioran porque não sei se o que ele está fazendo, exatamente, é uma renúncia. Está mais para uma afirmação do que para uma renúncia. Talvez ele se encaixe mais a categoria do personagem pobre diabo, que o José Paulo Paes definiu em um ensaio. Ele está sempre na posição subalterna, sabe que nunca vai sair dali. Não sabemos se foi sempre assim com o Souza. Alexandre, quem narra o livro, conta que quando chega na empresa o Souza já está lá. Talvez a frase do Cioran faça sentido porque a única maneira de ele renunciar a essa condição de pobre diabo é saindo de cena.

Para mim, foi o ponto alto do livro. E a Helena não voltar a procurar o Alexandre é uma amostra desse lado canalha que as mulheres estão assumindo agora? De falar que está sentindo saudade por falar mesmo, como os homens fazem desde sempre…
Talvez faça sentido. Como não dá para saber as motivações da personagem, ela deve ter ficado ferida por ter sido preterida naquele momento da manifestação.

Mas a mulher tem um mecanismo movido pela raiva que a leva a ir atrás da informação, do motivo daquilo que a feriu, ainda que ela não permita que saibam disso. Por isso para mim soou como uma atitude canalha, porque a vida dela segue.
Talvez. Com todas as contradições e equívocos que ela tem, ela é uma personagem segura de si. Sabe o que quer, o que gosta. Talvez ela não precise voltar para acertar as contas.

Mas ela fala que estava com saudades. Isso, para mim, a denuncia como “canalha”. E é muito bom ela não voltar, muito bom mesmo…
É uma perspectiva que muitos diriam ser machista, achar que em um momento como aquele, de confusão durante a manifestação, o homem tenha que proteger a sua fêmea. Ou mesmo numa perspectiva não sexual, um amigo ou uma amiga. Ou seja, as pessoas estão juntas e de repente a outra abandona, que sacanagem é essa? Mas a situação é mais sensível quando a relação é amorosa.

Minha impressão de fragilidade na área dos afetos foi justamente nesta cena. A história deles acabou ali. Se houvesse sentimento, ela ia querer saber o que houve…
Faz sentido…

Mark Lilla traz essa reflexão: muitas de nossas ações políticas se resolveriam com autoanálise?
É possível. Por outro lado, é confiar demais na autoanálise, porque ela tem um limite que a pessoa não consegue transpor. Quem decide compreender política tem que saber que política não diz respeito a você mesmo. Você está lidando com abstrações. Porque é a única maneira de negociar interesses conflitantes. Agora, autoanálise serviria para algo em particular: identificar o que temos de ressentimento.

Bom isso, hein?
Ressentimento é uma força política forte e perversa, à esquerda e à direita. O discurso do atual governo é muito marcado pelo ressentimento. Não só o presidente, mas figuras como Weintraub, por exemplo, que tem sempre esse ranço de ter sido injustiçado. E pode mesmo ter sido, mas não importa. A questão está na marca que se carrega da ofensa – real ou imaginária – do passado e nunca ser capaz de superá-la e ainda pautar todas as suas ações com base nisso. Isso envenena muito a política atual.

Como imagina que seu livro será lido daqui a 100 anos?
Ele não será lido. [Dá risada]

Todo autor diz isso. Tirando essa resposta, qual outra? Porque o livro está muito bem ambientado, permitirá uma imagem bastante clara de nosso momento, no futuro.
É um exercício complicado sobretudo porque teríamos que saber o que viraremos daqui a 100 anos. Por exemplo, numa linha de pensamento do Levitsky, sobre como as democracias estão silenciosamente ruindo por dentro, por obra do populismo, de fato estaremos vivendo em um país totalitário, em um mundo de outras tantas nações totalitárias, à direita ou à esquerda. Talvez, nesse cenário, nem fará mais sentido direita ou esquerda, ambos serão horrorosos, e nesse cenário esse livro seria proibido. E quem lesse pensaria que maravilha era o nosso tempo. As pessoas podiam sair nas ruas para protestar, podiam discutir política bebendo em suas casas.

Levitsky diz algo assim em nossa entrevista, inclusive…
Numa outra realidade distópica, essa cultura do cancelamento que está no ar hoje, com todas essas obsessões identitárias, nesse cenário o livro seria proibido também. E se daqui a 100 continuarmos como estamos hoje, nessa indecisão, o que considero a possibilidade mais forte, teremos outro tipo de crise. Estaremos sempre nos dias da crise. Isso é próprio da modernidade, do capitalismo. E neste cenário, se as pessoas por acaso lerem Os Dias da Crise, será mais ou menos como hoje lemos qualquer romance do passado, como lemos Machado ou Dostoiévski – não que eu esteja sequer me comparando a eles. Enfim, para o leitor do futuro, talvez pareça tudo muito diferente mas ao tempo muito familiar. Pois não mudamos, continuamos em variações dos mesmos impasses. Em todo caso, não acho que o livro será lido daqui a 100 anos.

A cena final revela um homem que despertou para o caráter monótono da vida com suas frases de efeito?
Acho que ele já tinha essa consciência há mais tempo. A narrativa é retrospectiva, ele está repassando o que viveu em 2013, e essa cine final é em 2014, quando a narrativa casa com o presente. O personagem não é dado à depressão, não é um melancólico clássico. Ele até começa a narração dizendo que não gosta de ler e isso pode ser, inclusive, algo defensivo da parte dele, porque se fosse dado à literatura ele seria melancólico. [Dá risada] Talvez, nessa cena final, ele tenha apenas achado uma maneira de pensar toda a história de forma mais clara, uma postura do Eclesiastes: tudo é vaidade.

 

Nobre dama ou nobre cavalheiro,
Agradecemos a leitura, esperamos que tenha apreciado nossa entrevista com o nobre cavalheiro Jerônimo Teixeira. Gostaríamos de deixar o singelo convite para nos acompanhar em nossas “redes sociais”, essa coisa ainda incógnita para nós, que somos de tantos séculos atrás. Entretanto, estamos no Facebook e inteirinho em preto e branco em um belíssimo perfil no Instagram, à sua espera. Será para nós uma honra! Há muito mais por lá para apreciar e refletir.

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

Os Comentários estão Encerrados.