Kika Gama Lobo: “Hoje, a mulher de 50 anos está mais autêntica”

Se vir por aí a hastag #Atitude50, quem está por trás é Kika Gama Lobo. A carioca de 52 anos é uma das vozes que tem colocado a mulher de 50 anos na agenda de discussões sobre comportamento, do consumo ao sexo, sem melindres, sem eufemismos. Ela que é historiadora, formada pela PUC-RJ, foi assessora de comunicação na Hill & Knowlton e trabalhou nas agências J.W.Thompson e Young Rubicam, além de ter ministrado cursos de comunicação e moda em instituições como FGV -RJ e FAAP-SP. Mãe de duas meninas, sempre bancou tudo praticamente sozinha. Depois de um câncer, um divórcio e o renascimento das cinzas, a Kika fênix deseja levar o #Atitude50 para outros estados, em debates e talkshows sobre a maturidade. Enquanto os sonhos só aumentam, a loba conversa com a FAUSTO sobre essa mulher que não deve ter nada a temer.

Monica Belluci, 54 anos. Foto: Peter Lindbergh.

FAUSTO – O que a mulher de 50 anos deixou para trás que é irrecuperável? No bom e no mau sentidos?
Kika Gama Lobo: No mau sentido, dentro de uma obviedade, é o próprio tempo. Não há como resgatá-lo. Meio século de vida é considerável! O que há pela frente? Mais 25, 30 anos ainda bem? É pouco, se pensarmos que a vida passou tão rápido. No bom sentido, eu, por exemplo, deixei para trás a repressão. Eu já era uma pessoa mais livre, agora estou completa e imoralmente livre. A maturidade dá essa liberdade de ligar o foda-se e fazer o que você quer. Lembrando que o que você quer também pode ser o errado e levar para o abismo. Mas, sem dúvida, o livre-arbítrio é muito maior.

Às vezes, me parece que envelhecer é apenas a acentuação de tudo o que a pessoa escolheu ou não escolheu durante a vida, do sentir ao viver. Ou seja, o que foi marcante aos 20, 30 ou 40 anos se instala de maneira quase irreversível. É uma percepção imprópria?
Gostei do ponto de vista, de que é uma acentuação do que não foi vivido. E aí acontece uma iluminação sobre aquilo que ficou perdido no meio do caminho. Nunca pensei por esse ponto de vista. Minha percepção é que não há tempo perdido. Quero mais é viver tudo o que há para viver, como canta o Lulu Santos. Tento, de alguma forma, achar que meu tempo está apenas começando.

A mulher de 50 sente a perda do corpo firme mais por causa de si mesma ou por causa do homem?
A flacidez é foda. Entrei na menopausa precoce e a falta do tônus muscular fez com que meu corpo nu me levasse a um tipo de nostalgia. Agora, o olhar do homem já está na cabeça da mulher. Meu marido pode de vez em quando desejar uma gostosa, novinha, durinha, mas faço o que posso, sem nenhum tipo de neura. Sou um pouco acima do peso, mas já fui mais; tenho estrias, e todas aquelas questões femininas, mas é o que tenho e bola pra frente.

Mulheres maduras como Madonna, que batalham por um corpo firme, são escravas da juventude ou são justamente o contrário: mulheres que aproveitam ao máximo o que a medicina e a tecnologia disponibilizam?
Quando olho para mulheres como a Madonna, ou outras que têm o corpo no lugar, bombado, sarado, penso que deve haver uma harmonia no todo, corpo e rosto. Acho a Madonna razoavelmente desproporcional, mas se ela é feliz, “canta pra subir” que está ótimo. Contudo, não preconizo, nem valorizo a busca incessante pela beleza e pelo corpo perfeito. Ao contrário, acredito que os 50 anos libertam disso.

E mulheres de 50 bem resolvidas com a própria sexualidade que são comumente tachadas de velhas assanhadas ou periguetes. Há no fundo dessas expressões o velho ressentimento?
Aquela velha “dadeira”, tarada, que tem a libido muito acentuada, acho um pouco ridículo. Tudo é a tal da dosagem. É claro que entre quatro paredes você pode virar a Bruna Surfistinha dos 50 anos, vale tudo, mas creio que é preciso pegar o que a maturidade tem de bom, que é esse respeito pelas próprias vontades. Se a vontade é de transar com o taxista ou com o motorista do Uber, vá em frente. Mas penso que agora é o tempo da qualidade.

O interesse de homens maduros por mulheres jovens tem a ver também com o fato de mulheres perderem a libido e de abrirem mão de seu capital erótico?
O viagra empoderou o homem. Ele pode ter uma ereção aos 90 anos. Se ele quer ter o prazer da conquista, desse suposto “abate”, porque está sempre querendo comer, caçar, foder, é atávico dele. Acho triste porque, de verdade, tais mulheres fazem um papel ali. Seja pela manutenção do status social, carência efetiva ou mesmo por “banco imobiliário”. Acho difícil que um homem de 75 anos leve uma relação bacana, madura e legal com uma moça de 28, 32. Se rolar, está valendo, mas acho que os homens deveriam parar de escolher suas caças e encontrar seus pares. Eles seriam muito mais felizes.

Você não acredita então numa relação com muita diferença de idade? Tanto no caso da Madonna, que namora rapazes, como no caso do Macron e da Brigitte?
Confesso que fiquei positivamente surpresa com o Macron e a Brigitte, mas acredito que no cotidiano eles devem passar por muitas provações. Com a Madonna deve acontecer o mesmo. Ela come quem quer, mas também está condenada a ter relacionamentos televisionados. Creio que ela não consegue ter um relacionamento entre quatro paredes, justamente porque ela é a Madonna. Acho o caso dela mais triste do que o dele, até porque quando a mulher não é a atração, as coisas tendem a dar mais certo. A Madonna, além de ser mulher, protagonista, já veio com a bagagem do sexo desde lá de trás. Mas, mesmo cada um com o seu cada um, ambas as histórias devem ser carregadas de preconceito.

A mulher mais jovem é mesmo uma ameaça para a mulher madura?
Casei-me novamente. Meu marido tem 55 anos. Não vou mentir e dizer que não fico bolada quando ele olha para o bumbum de uma garota de 25 anos. Tenho ruga, celulite, cicatrizes devido às cirurgias que fiz e bate mesmo um recalque, mas passa rápido. Até porque não gosto de ficar com alguém que não me quer. Se ele quiser a moça de 25 anos, pode ir. Essa libertação da posse é algo que os 50 anos presenteia. Quero que ele esteja comigo pelo meu combo. Ele é uma pessoa com inúmeras qualidades e cabe no meu cotidiano, se ele erotiza a moça mais jovem, acho normal. Eu também, às vezes, fecho os olhos e vejo o Cauã Reymond nu. Isso pode ser até legal, mas não significa que eu queria alguma coisa com ele. Gosto dos mais velhos.

Por quais razões?
Somos jovens de cabeça, modernos, ativos, transamos, nos amamos, nos divertimos, temos uma cerimônia sexual muito desinibida, mas essa não é a tônica da relação. Tive um câncer de endométrio, não faço reposição hormonal porque não posso, então, tenho uma dificuldade enorme de atingir o prazer e ele me guia, me leva, entende, espera. Ele é parceiro nessa coisa que é a vida a dois e para mim é uma grande prova de amor.

Como lidar com as mudanças do corpo do homem?
Para a mulher, o pau nunca foi o mais importante. Para a mulher de 50 anos, então, menos ainda! Essa mitificação do falo também tende a terminar. Claro, existem mulheres meio Barbie, que se acham com 25 anos, que querem transar com rapazes de 19, 23, 28 anos. Ou seja, o prazer pelo prazer. Interesso-me pelo conjunto. O que mais me importa é o despertar da vida, exatamente o que meu segundo marido me proporcionou. Costumo dizer que transei comigo.

Como assim?
Depois do câncer, da quimioterapia, da retirada de seis órgãos, entrei num luto completo. Voltei a viver o cotidiano e o sexo muito em função de ter sido despertada outra vez para a vida.

As mudanças do corpo do homem parecem ser bem maiores do que as do corpo da mulher, porque isso não é tão evidenciado?
Culturalmente, o homem pode estar meio brocha, careca, gordo, desdentado, mas ele ainda vai levar vantagem sobre a mulher de 50, 55, 58 anos ainda que ela esteja “inteira”. Ela pinta o cabelo, tem silicone, malha, toma todas as pílulas possíveis, faz reposição hormonal, mas ele, incrivelmente, mesmo com todos os sinais da idade vai levar vantagem.

Por quê?
Para mim, pela autoestima desde os australopitecos hominídeos. Acho, sim, que, mesmo a mulher sendo soberanamente mais bem tratada do que o homem, o homem ainda se dá melhor na caça.

Qual a maior diferença entre as mulheres de 50 do passado e as de agora?
Há 20 anos, essa mulher era desabada, tinha o cabelo tricolor, meio branco, meio com tinta; era gorda, flácida, feia, se despedia do palco da vida ou se recolhia à condição de figurante. Depois, vimos a mulher um pouco Madonna, a que persegue a juventude a qualquer custo: Demi Moore, Nicole Kidman, entre outras. Agora, penso que essa mulher está menos vítima desse ideal de ser Barbie. Tenho cabelo branco e não tenho silicone, meus pentelhos são brancos e me acho “ok”. Estou na busca de melhorar, mas não sou um estereotipo de mulher que quer perseguir a juventude a qualquer preço. Também não sou desabada, aquela que acha ótimo virar uva passa. Combato com as armas que posso, mas dentro de um quadrado que não me ridiculariza. Hoje, a mulher de 50 anos está mais autêntica.

As mulheres de 50 precisam fazer melhor propaganda de si mesmas?
Minha contribuição com o #Atitude50 é essa: as mulheres devem viver, atuar. Lindas ou desabadas, com celulite ou botox. Os 50 anos, hoje, representam uma nova adolescência, sem aquelas regras que a vida civil impõe: desde ser uma grande executiva a ser mãe e cuidar dos filhos. É uma oportunidade de redesenhar a vida.

 

Eliana de Castro Escrito por:

Fundadora da FAUSTO, é escritora, mestre em Ciência da Religião e autora do romance NANA.