Leandro Karnal: “Lúcifer é um espelho do humano”

Eloquente. Elegante. Exímio. Um dos intelectuais mais respeitados do Brasil, Leandro Karnal acaba de lançar Pecar e Perdoar – Deus e o Homem na História. Quem o acompanha nas edições do Café Filosófico encontra no livro a mesma exuberância de sua oratória. Ouve-se sua voz! Ele faz arte ao falar em público e conduz na trajetória do raciocínio o homem comum que se questiona. Nascido em São Leopoldo, Rio Grande do Sul, atua como professor na Unicamp, e neste livro apresenta ensaios interessantíssimos sobre vícios e virtudes, assumindo o papel delicioso de provocador dos dois grandes personagens da história do mundo: Deus e o Diabo. Seus argumentos colocam ambos no tribunal e deixam para o leitor o veredito. Com exclusividade, Leandro Karnal conversa sobre algumas das questões mais efervescentes de nossa humanidade.

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FAUSTO – É mais difícil conviver com o transgressor ou com o hipócrita?
Leandro Karnal:
Sempre depende de quão transgressor ou hipócrita somos. Prefiro o ataque direto ao veneno destilado, o inimigo aberto ao velado, mas isso é subjetivo. O transgressor é uma espécie de herói romântico. O hipócrita, uma personagem política. O hipócrita, contudo, só existe porque parte de mim deseja o elogio e odeia a verdade crítica. O transgressor é meu oposto, mas o hipócrita é meu filho.

Somos melhores fingindo ser politicamente corretos do que buscando verdadeiramente ser politicamente corretos?
Ser politicamente correto é desejar não machucar, não agredir e levar em conta a diversidade. Hoje, é obrigatório ser politicamente correto. Então, nos tornamos mais estratégicos do que convencidos. Julgar, afastar e ser politicamente correto por obrigação é dizer que tenho, além de preconceito, medo.

Uma mulher pode ser sinceramente devota a Deus e viver o sexo em toda a sua plenitude e profundidade?
Obviamente que sim, mas cada época leu a sexualidade feminina de um jeito. O principal problema é que as normas sobre sexo e virtude das mulheres são feitas por homens, legisladores e juízes; e ainda os padres, que são solteiros. Logo, o problema principal não é saber do sexo ou dos seus limites e glórias, mas saber das mulheres.

Porque a beleza é tão temida?
Para Rilke, a beleza é o grau do terrível que deseja nos destruir. Assim é o caráter sedutor, libertador e aterrador da beleza que nos destrói.

Qual é a luta mais inglória das feministas?
Há muitos tipos de feministas e muitas fases. De Flora Tristán a Simone de Beauvoir e, claro, as atuais. O feminismo é filho do seu tempo e sua consciência é a consciência possível. Já foi queimar sutiã, já foi imitar os homens. O desafio feminista é sempre se reinventar e corresponder à verdade de cada momento.

Por que o diabo tem mais “autonomia e força” no cristianismo do que no Judaísmo? Evidenciá-lo em algum momento da história foi uma decisão para manter o poder estabelecido através do medo?
Medo é um elemento importante em todo sistema de controle: escola, religião, Estado… O monoteísmo absoluto do judaísmo transforma o demônio em auxiliar de Deus, como no livro de Jó. Os judeus acreditavam em espíritos imundos que tomavam as pessoas, mas não deram ao demônio a autonomia de um reino. O catolicismo incorpora mais crenças rurais e pagãs. A partir do final da Idade Média e inicio da Era Moderna, o demônio cresce muito no catolicismo, especialmente na Contrarreforma. É uma estratégia de controle e uma herança do maniqueísmo. O demônio é citado muito mais no Catecismo de Trento do que Deus. Contudo, é geral o sentimento: os códigos falam mais do crime do que das pessoas virtuosas. Como hoje diminuiu a culpa na sociedade ocidental, o demônio perdeu força, porque Deus “sempre me entende” e é “sempre meu amigo” e “sempre me perdoa”. Deus foi customizado, e uma figura punitiva como o demônio vive em declínio no catolicismo, mas ele ainda é bastante explorado nas religiões pentecostais e neopentecostais. O demônio sempre depende de vontade de controle social e de capacidade de se sentir culpado.

Devemos ao Diabo algum tipo de evolução?
O Diabo é uma criação assim como Deus. Ele mostra como pensamos os sistemas sociais. Para o historiador, não existe evolução, existe apenas transformação. Não estamos melhores ou piores do que no Egito Antigo ou na Idade Média. Lúcifer, por exemplo, é um líder rebelde no Paraíso Perdido de Milton e é um romântico simpático na obra de Blake. Lúcifer é um espelho do humano e da sua rebeldia permanente.

O homem moderno não gosta da ideia de se parecer com Deus, como sugere Freud?
Na verdade, o trecho em que escreve isso é uma crítica a um motivo corrente para se abandonar Deus: o deus infantil. Vale o mesmo para o casamento. Os casais se separam, por vezes, por não saberem adaptar sua relação a novas situações, reinventar-se. Se Deus era o Papai do Céu, ele estava ao lado de Papai Noel. Este Deus deve morrer para que um deus mais adulto cresça. Este é um mau motivo para matar Deus.

Madonna chocou nos anos 1980 quando mostrou os seios e o corpo nu no polêmico livro SEX, de 1993, entre tantas outras cenas sempre ligadas ao sexo. Só que ela era jovem. Hoje, aos 56 anos, ela fez uma foto de topless para um ensaio da Interview e o que as pessoas mais comentaram é que era um absurdo porque ela não tem mais idade para isso. Aceitamos mais a luxúria quando ela está aliada à juventude? Envelhecer se tornou um problema moral?
Luxúria está associada a prazer. O prazer, hoje, pós século XIX, é permitido mais facilmente aos jovens. Faz parte da nossa ambiguidade. Somos uma sociedade na qual os jovens cresceram muito e ser velho deixou de ser uma referência de sabedoria e passou a ser defeito. Senhoras de 70 anos usam saias curtas e biquíni, algo que não ocorria antes. Em parte, isto é herança do pensamento religioso: sexo é permitido ou tolerado se houver chance de reprodução. Por isso sexualidade pós-menopausa, ou homoerótica, são temas cheios de tabu, porque evidenciam o prazer pelo prazer, não pela reprodução. Também devemos lembrar que é muito custoso reprimir-se. Ou seja, quem não se reprime nos irrita, porque faz o que desejamos fazer. Por fim, tem a questão da misoginia: permitimos ao homem mais velho coisas que não são permitidas às mulheres. É nossa tradição preconceituosa mais sólida. Uma mulher rica, talentosa, senhora de si, com namorados 30 anos mais jovens é um desafio enorme ao status quo falocêntrico de nosso mundo. Madonna usa homens para seu prazer e isto é atributo só permitido aos homens, que sempre usaram as mulheres. O grau da reação a isto só traz à tona o grau da insatisfação sexual do leitor médio. Sem-vergonha é aquele ou aquela que faz tudo o que minha vergonha não permite fazer.

 

Eliana de Castro Written by:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP.

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