Leonardo Tonus: Brasileiro lê pouco, mas lê mais do que antigamente

A trajetória de Leonardo Tonus é como essas que encantam nos clássicos épicos. Do garoto de 21 anos que desembarca em Paris, em 1988, sem sequer falar bonjour, a livre-docente e professor na Université Paris-Sorbonne, muitas batalhas foram travadas no campo da sobrevivência e no campo da alma. Viver o luto de si mesmo para renascer em outra cultura, outra língua, outra perspectiva de vida, não é fácil. Sabe quem é estrangeiro, ou tem a alma do homem absurdo de Camus. Condecorado Chevalier des Palmes Académiques pelo Ministério da Educação da França e Chevalier na Ordem das Artes e das Letras do Ministério da Cultura da França, o que Leonardo Tonus tem a nos ensinar, ou a dialogar, ou talvez a nos entregar de mágico sobre essa bela dama que nos dá sentido: a Literatura? Essa mesma, com “L” alto, grande, gigante! Exclusivo para a FAUSTO, um encanto de conversa!

Leonardo-Tonus-Entrevista
Leonardo Tonus.

FAUSTO – Literatura e religião têm o mesmo status, no que se refere à produção de sentido?
Leonardo Tonus: Para mim, tem; quando penso que religião é comunhão. Para mim, não existe literatura sem comunhão. Por mais que um escritor fique fechado em seu gabinete, porque é um ofício solitário, o escritor trabalha para que haja um leitor. Muitas vezes, pensamos mais no livro, nas estruturas retóricas, na análise das figuras ou mesmo questões de representação, e acabamos analisando pouco a relação do sujeito literário com o leitor.

Porque há uma relação…
Há algumas perspectivas nesse sentido que você apontou. Qual posição o leitor ocupa no processo criativo do escritor? Não acredito em religião dogmática, acredito em religiosidade, na relação com algo superior, além da questão da comunhão que está por trás, é claro, quer seja com esse ser superior ou mesmo entre os homens. Por trás da religião também está a afetividade. Não existe religião sem afetividade, por isso não acredito no dogma. Já por trás da religiosidade, existe a relação com o outro e também não há literatura sem afetividade.

A literatura nos tira do mundo, ao mesmo tempo em que nos coloca no mundo. Essa é a característica mais “mágica” da literatura?
Ela permite estar no mundo. Esse “estar no mundo”, voltando à ideia da religião, é “estar em comum”. Lembro-me do lindíssimo texto do Roland Barthes em que ele fala de idiorritmia. Os monges viviam cada um em um tempo, mas, apesar disso, eles compartilhavam o mesmo estar em comum. O mais importante não é o tempo, mas a possibilidade de compartilhar algo em comum, que é onde está o respeito para com o outro. Esse “retirar-se” não é romper com o mundo, talvez seja um estado de vigília em relação ao mundo. E esse “colocar-se” não é se inserir no mundo completamente, porque a partir do momento que você se insere no mundo, você não tem mais distanciamento e aí você deixa de fazer literatura e deixa de produzir arte.

Como assim?
A arte só existe no momento em que há fruição, clivagem. E no momento em que há a fricção com o contemporâneo. A literatura, como toda criação artística, permite estar no mundo, mas um estar “entre”. Não é um “entre-lugar” [zona de contato], é um “entre”. François Jullien, que é um especialista em China, diz que a única maneira de entender mundos tão opostos é pensando na possibilidade do entre, que é sempre mobilidade constante. O entre-lugar já é fixação de um espaço.

Depois de 30 anos fora do Brasil, como nos vê como leitores?
Quando saí do Brasil, em 1988, não se lia nesse país. O acesso à leitura era difícil. As bibliotecas municipais eram raras e os livros eram caros. Em muitas famílias, os livros eram objetos raros. Volto ao Brasil, hoje, em 2017, e o livro ainda é caro e um objeto estranho em muitas famílias. Já as bibliotecas, elas se multiplicaram, as escolas se multiplicaram, o acesso ao livro se multiplicou e as políticas de leitura também. Diria que o brasileiro lê pouco, mas lê mais do que antigamente. Curiosamente, não sei se são os pobres que leem menos. Talvez até nossa elite econômica leia menos. Mas ainda acredito no brasileiro leitor. Acredito que as coisas melhoraram, apesar de tudo. Não querendo ser Pollyanna. Tenho frequentado as periferias e visto saraus. Vejo molecada de 12 anos recitando poemas, coisa que não sei fazer. Realizei algo em São Bernardo do Campo com 60 pessoas na plateia. Bonito! Em 1988 não havia isso. As coisas melhoraram, mas ainda são extremamente frágeis.

Neste cenário, a qualidade da leitura importa?
Não sei se isso é importante… Sou professor livre-docente na Sorbonne. Se você me perguntar o livro que causou mais impacto em minha vida, que me levou à literatura, vou dizer que foi Papillon, do Henri Charrière. Depois, Sidney Sheldon. Depois, Stephen King. E por aí fui… Thomas Mann, Goethe, François Jullien…

Pouco importa, então, desde que leiamos?
Você pode ler Paulo Coelho, Harry Potter, Goethe, o que você quiser. O mais importante é poder escolher. E também encontrar bons mediadores que levem às boas escolhas. Sempre digo aos meus alunos, no primeiro ano de faculdade: “vamos estudar poesia!” Recebo como resposta um monte de caras feias. E sempre brinco com eles que poesia é como beterraba. Eu, por exemplo, nunca gostei de beterraba. Foi assim até o dia que me ofereceram beterraba com salsinha, numa apresentação mais agradável e, mais importante, eu confiava na pessoa que me oferecia aquela beterraba.

Que bonito isso… A confiança em quem oferece…
Falta ao leitor brasileiro poder escolher, que é liberdade, mas faltam também mediadores que apontem caminhos. Determinado livro pode ser difícil, mas se alguém apontar um caminho para ir até ele… Pode ser o professor universitário, o crítico que não é pedante, aquele que realiza o sarau, o bibliotecário, todas essas pessoas que contribuem para que leiamos mais, e qualidades diferentes.

Literatura comercial?
Por que não? Leitura não pode ser imposta. É inadmissível que um professor imponha a um aluno de 14 anos Iracema. Seria melhor que sugerisse o que faz parte do universo do adolescente para que assim ele possa entrar no universo dos livros, que é mágico.

Literatura também é um instrumento antropológico?
Ela tenta ser. Mas é bom que não seja. Houve autores, no percurso da história da literatura, que tentaram trazer essa postura antropológica, de compreensão do mundo – penso na literatura dos anos 1980 e também no viés dos estudos culturais, que buscam essa postura de narradores antropológicos – , mas não acho que seja a função da literatura.

Qual é a função da literatura?
A literatura não tem função. Ou tem a função de não trazer resposta nenhuma. Tem função de prazer, que não quer dizer deleite. É fruição e pode ser clivagem do sujeito. Só isso. Você escreve pelo prazer da escrita e você escreve para gerar confiança no outro. A literatura não tem que ser antropológica, trazer respostas, compreensão do mundo. Se assim for, ela deixa de ser literatura. Ela só tem que estabelecer esse gesto de confiança, mesmo que seja a maior mentira do mundo.

Então, a falta de compromisso com a verdade não afeta a compreensão da verdade?
Não. Principalmente se partirmos do princípio de que não há verdade. Por que compromisso com a verdade? Quem somos nós?

Sim, a literatura não tem compromisso com a verdade…
Ela já teve. Aí, caímos na literatura ideológica. Cada vez mais, os autores negam esse compromisso e até estruturam a expectativa do leitor que busca uma verdade. Isso, talvez, seja o mais interessante na literatura contemporânea, que é desestruturar a posição do leitor que estava numa posição confortável. É fazer o leitor cair da cadeira, perder completamente as estribeiras e mostrar que ele não vai encontrar verdade nenhuma, porque o escritor também não tem mais verdade para dizer.

Essa seria a principal característica da literatura contemporânea?
Na literatura contemporânea não há mais gestos magnânimos, não há mais heróis, não há mais verdade. E o leitor também tem de parar de procurar isso. Só assim surgirão outros espaços para criar, espaços onde haverá a alterização do sujeito.

O que seria isso?
Para que haja a experiência da alteridade, do conhecimento do outro, primeiro é preciso que o escritor se alterize, se transforme.

Como deixar nossos espaços de poder? Que podem ser variados…
Para deixarmos nossos espaços de poder temos de nos fragilizar, é questão de ótica em relação ao outro. Como me fragilizo? De várias maneiras. Posso ser um narrador doente, um narrador frágil ou um narrador que não acredita mais nas verdades, que não busca mais nada. Se me alterizo, tenho mais chances de alcançá-la. Só que o leitor também é um sujeito de poder. Ele também tem de alterizar-se. Para isso, o narrador vai elaborar diversas estratégias narrativas, retóricas, para tirar o leitor da zona de conforto. E a partir do momento que o leitor sair da zona de conforto, eu como escritor também saio da minha zona de conforto. E aí podemos pensar numa possível relação entre nós.

Depois de anos de expatriação, qual é a maior “sequela”?
Não consigo mais chorar. Admiro pessoas que têm coragem de chorar em público. Na França, para chorar em público a pessoa tem que ser corajosa, porque ela está se expondo. Perdi muito da minha espontaneidade também.

Por quê?
Precisei moldar-me à reserva, à maneira francesa de estar no mundo. Sem isso, não teria sobrevivido. Sem isso, aliás, o estrangeiro não sobrevive. É preciso reconstruir-se, renascer, é preciso viver o luto de si mesmo.

E o frio?
Não é o mais difícil. O mais difícil é o contato humano. É você saber que a pessoa que está à sua frente nunca vai entendê-lo. Quando você compartilha um imaginário, vivências, você é capaz de adivinhar o final da frase do outro. Ou se entendem pelo olhar, pelo toque, pela respiração, pouco importa. Ou seja, você tem com quem compartilhar. Por mais que eu queira ser francês, nunca vou ser francês. Sempre haverá um momento de estranhamento. Isso é o mais doloroso.

 

Dedicamos a Fábio Pereira Ribeiro.

 

Eliana de Castro Escrito por:

Fundadora da FAUSTO, é escritora, mestre em Ciência da Religião e autora do romance NANA.