Lobão: “Um dia minha persona me ajudou, hoje sou eu que ajudo minha persona”

São Paulo anunciava uma tempestade daquelas no fim da tarde de sábado em que João Luiz Woerdenbag Filho aceitou meu convite para essa entrevista. Estávamos em lados opostos da cidade, a viagem sob o céu fechado acabou ganhando o tom da melancolia que parecia então nos conectar. Precisamente às cinco, para um carro à minha frente. O vidro se abre e revela um rosto sorridente: “Pontual, você viu?” Desce o homem de 1,85m que criou sua persona no estalo das baquetas, nos refrãos das trilhas de novelas, nas linhas que contam a história do rock brasileiro, sempre como um pêndulo entre o amor e o ódio. O preâmbulo que apresenta FAUSTO desta vez é diferente. Confesso em olhos d’água o meu laço com sua música. Seguro forte sua autobiografia e o agradeço por tudo o que me devolveu. Gravador ligado, assumo meu lugar de ir além. A confiança que peço é concedida. Ao fim, sou presenteada: “Posso te mostrar uma música inédita?”. O laço não era a melancolia… A revista das sombras apresenta a explosão, o exu, o anjo, o rei: Lobão.

Lobão
Foto:Anatole Klapouch.

FAUSTO – Qual pergunta gostaria que tivessem feito, em algum momento de sua carreira?
Lobão: Qual será a próxima?

Próxima?
Próxima aventura, evidentemente.

Ninguém nunca se interessou…
Ah, imagina. As pessoas se atêm a estigmas, preconceitos, imagens pré-concebidas, o “polêmico Lobão”. Elas partem da premissa de que você é aquilo que elas acham que você é, e dessa forma tentam extrair preconceitos. Isso é imutável, infelizmente. Tenho 46 anos de carreira, pelo menos até agora tem sido essas as abordagens. Sou um bom psicólogo, percebo com clareza. O jornalista tenta extrair todas as supostas provas de seus pré-julgamentos, algo que possa corroborar o que acha polêmico, ou para validar a imagem que faz de minha pessoa.

O que apenas os velhos artistas são capazes de sentir?
Bastante interessante a pergunta, porque me considero um octogenário nato. Quando eu era criança, sentia que não tinha tempo de evoluir, porque tive uma infância bastante conturbada, parecia que eu estava sempre em um mar de ressaca. Então, primeiro eu tinha que descobrir como furar as ondas, para então poder evoluir— ou eclodir naquilo que eu queria ser. E eu pensava: “Não, vou conseguir evoluir”. Foi assim que comecei a ler Borges, no início da minha terceira juventude, com 20 e poucos anos. Lia, pensando: “sou um octogenário”.

Quem mais lhe causava essa impressão?
Gostava de ouvir Richard Strauss, Late string quartets de Beethoven. Me flagrei amando tudo isso no meio do rock, quando era fashion morrer drogado, aos 27 anos. Lembro quando pensei: “Meu arquétipo de herói é octogenário, um velho que produz grandes coisas”. Strauss compondo Death and Transfiguration, Borges escrevendo. Esses eram meus modelos. E eu sabia que era um compromisso sério, porque com essa perspectiva, você não pode ser cínico a ponto de empurrar a vida com a barriga. Afinal, essa é sua grande aventura. Não estou com 80 anos, mas sinto que agora é que comecei a entrar nessa fase. Com 64, começo a ter uma autonomia artística, da maneira que sempre imaginei que um artista deveria ter. Estou começando a me sentir senhor da minha criação.

Sente-se também como alguém que participou da história, mas ao mesmo tempo meio à parte da história?
Sou um outsider, um cara desentubado. Nunca tive tubo. Teve momentos, quando eu era mais jovem, época do Cazuza, Júlio Barroso, do Bernardo Vilhena, que eu queria fazer um movimento, “biriri, biriri”. Mas eis que, malogrados todos esses movimentos, me flagrei como um homem sozinho. Eu sou sozinho, mas a solidão é meu grande trunfo. A solidão não, a solitude! Porque meu estado de estar só é eletivo.

Boa essa última frase…
Creio que tentei essa conjunção com minha geração, mas não está em mim, sou assim desde criança. Meu quarto sempre foi isso: uma bateria, um lugar para dormir – que tem ali [aponta], livros, livros, livros e livros, instrumentos musicais e solidão. Esse aqui é meu habitat.

Sempre foi solitude ou era solidão e passou a ser solitude?
Sempre foi solitude. Quando eu tentei me enturmar, não vinha de dentro. Claro, não sou um sociopata, então eu tinha vontade de interagir, mas algumas coisas chamavam mais minha atenção, como produzir sozinho. Quando eu soube que o Paul McCartney gravou um disco sozinho, o Stevie Wonder, era exatamente o que eu queria fazer. Nunca senti algo como: “Ai, sou rejeitado”. Sempre fui muito querido. Inclusive, sou um cara muito simpático [Dá risada]. Claro, sou bastante odiado também, mas é uma forma de amor.

Um solitário “bem-resolvido” desperta inveja?
Talvez. Qualquer pessoa bem-resolvida emite uma energia mais pulsante. Se você está no prumo consigo mesmo, a ressonância é poderosa, atrai admiração, amor – e vai atrair inveja também, é normal.

Qual foi a maior mentira que contaram sobre você, mas que representa bem sua vida, sua carreira ou a maneira como se sente?
Primeiro de tudo, seria discrepante de minha parte julgar ser uma mentira algo sobre alguém que ainda duvido ser eu. “Ah, isso não sou eu!”, mas espera aí. A princípio, tenho que confessar que ainda não sei quem sou. Então, não posso ficar tão raivoso e dizer “isso aqui não me representa”. O errado pode ser eu. Talvez meu ego fique ressentido, devido aos arquétipos e estereótipos que traçaram em torno de mim, mas quem vai saber se não estão mais precisos?

Você consegue se ver descolado da tragédia?
O descolamento é relativo. A vida é trágica, se você se descolar da tragédia, você se descola da vida. Creio que você tem que fazer pactos com a tragédia, entende? Tem que fazer acordos, porque tragédias vão acontecer. Minha gata vai morrer antes de mim, vou sofrer, isso é uma tragédia para mim. Então, tenho que fazer um pacto para não entrar em depressão, não querer morrer junto com ela. É preciso fazer um pacto com aquilo que você sabe que é inexorável, lidar com a realidade da impermanência. Se tudo é inexorável, a vida deve ter algum sentido, e a vida tendo um sentido e sendo inexorável, tenho necessariamente que entender, na medida de minha capacidade, e me tornar uma pessoa feliz.

Como drenar a raiva pelo não merecimento de determinadas tragédias? Ou a culpa…
Quando você faz um pacto, você compra sua tragédia, estabelece valores para que você, evidentemente, saia com benefícios. Do contrário, será submisso à tragédia. É como se sentar numa mesa de negociações: “Tá, você me botou isso na minha bunda”, mas pera aí, eu preciso aprender isso, ganhar aquilo. E assim me torno antifrágil. Saio muito mais forte do que antes. Esse que é o grande trunfo da negociação com a tragédia. Foi algo que entendi com todos os traumas da minha vida, todas as tentativas de suicídio, etc e tal. Nada pode me deter agora, nem a morte. Nasce uma determinação, uma vontade, uma motivação, mas é uma motivação amorosa.

O que seria essa motivação amorosa?
Aprendi a amar tudo aquilo que poderia ter me causado mal, inclusive em relação a meus pais, que se mataram. Se você não tiver amor em seu coração, você não consegue construir nada, tudo será reação. O amor é ativo, não reativo. A criação é ativa, não reativa. Qualquer coisa que esteja ligada a um rancor ou ressentimento, é reativo. Você será vítima de um reflexo, como um martelo dando toques em seu joelho. Só vai repetir padrões. Parece piegas, eu sei, mas é isso: você tem que ter amor em seu coração. Outra coisa que aprendi: para amar algumas pessoas, não é da noite para o dia, é preciso passar por um processo complexo, de vários períodos: luto, perda, perdão. Como um processo de digestão, é necessário ter paciência, benevolência, determinação para saber que, no fim das contas, você vai prevalecer.

Você se vê como um mito ou uma lenda? Por mito quero dizer que pode ou não ser verdade; por lenda, que é uma verdade modificada.
Não sou um mito, nem uma lenda, sou uma pessoa que, pô, limpa a caixa dos gatinhos, que sabe que precisa ser humilde para aprender outros instrumentos. O bacana do aprendizado é isso: confrontar-se com sua própria incapacidade e repeti-la até que se torne seu trunfo, seu diferencial.

Mas esse é o João, não o Lobão…
Hoje em dia, não tenho mais uma persona, eu sou eu. Durante muitos anos, tive uma persona que, inclusive, me salvou. Sou muito grato a esse Lobão, mesmo com todos os defeitos. Ele me salvou, porque era a antítese do João Luizinho Xurupito. O Lobão todo fodão contrabalanceou toda a carência que existia. Hoje, isso já está resolvido. Ontem, comecei a tirar fotos de flores, aí uma pessoa no Twitter disse: “Olha só porque que o rock morreu”. Isso ilustra o que quero dizer: consegui me amalgamar. Um dia minha persona me ajudou, hoje sou eu que ajudo minha persona.

Estabeleceu uma nova relação com sua rotina?
A pose é uma carapaça, é a medida de toda a nossa pretensão, o que o ego acha que somos – ou que deveríamos ser. Quando você perde a pose, perde todas as expectativas de empreender uma autoimagem que não é a sua. Você vira uma pessoa verdadeiramente simples, com hábitos simples: fotografar uma flor, limpar a caixa dos gatinhos, o dia a dia passa a ter essa importância. Quando Van Gogh pinta O par de sapatos, ele sabia que seu cotidiano era precioso. É nesse momento que o artista fica maior, quando encara o valor da simplicidade das coisas. Já não existe mais isso de ser bem-sucedido ou fracassado, rico ou pobre.

Depois que publicou a autobiografia, ficou com a sensação de: “agora, sim, não há mais nada a temer”?
Quando comecei a escrever, eu fazia psicanálise. Mas estou certo de que começava a ficar curado porque eu estava escrevendo. Escrevi 900 e tantas páginas, quase o dobro do que foi publicado. Tive que editar, e na medida em que eu ia editando, ia percebendo coisas mesquinhas – claro que não devo ter eliminado todas –, mas acabei mudando o tom do livro.

Isso é muito impressionante, né? O poder da escrita ao revisitar nossa história…
Escrever foi um processo único, no sentido de cura. Organizei minha cabeça, coloquei minha vida em ordem. Eu relia e pensava: “Caramba, isso aconteceu mesmo”.

Mas você gosta de escrever?
Escrever é muito diferente do drive que tenho para tocar, por isso tenho que me esforçar para escrever. Sei que escrevo bem, embora não me envaideça ao ponto de querer virar escritor. Faço como se fosse uma redação para o colégio. Aqui, [mostrando o estúdio] não; posso ficar a vida inteira, teriam que me tirar com camisa de força. Mas o bem de ter escrito a autobiografia foi incalculável. Agora, é um psicodrama, né?

Muito! E olha que já li uma quantidade considerável de autobiografias e biografias…
Houve uma interação com a música também, mas o livro me levou a fazer outras coisas, alcançar outros conceitos; tanto na vida como na arte. Sinto que renasci. Digamos que esse livro contribuiu muito com o processo do octogenário nato, que com seus 50 anos começou a despontar.

É mais fácil expor os próprios dramas na prosa ou na poesia?
Não sei, porque na poesia… Vou te dizer, não me acho um poeta. Faço letras porque tenho que fazer letras. Se eu fosse um Cazuza, um Renato Russo, poderia me enxergar como poeta; mas não, sou um baterista. Então, sim, enquanto poesia, sou mais da prosa, me extravasa mais. A não ser, claro, quando tenho insights, como quando fiz O Rigor e a Misericórdia, que me veio através de um sonho: “Todos os sentidos são do universo (…) será que a energia escura esconde o tal do Paraíso?

Nunca considerou escrever ficção?
Minha mãe falava que eu tinha preguiça mental: “Indolente, indolente, preguiçoso”. Acho que ela tinha razão, de certa forma, porque quando me proponho a escrever pela manhã, já fico à noite: “Ai, meu Deus, tenho que acordar para escrever”. Enquanto é completamente diferente de quando vou acordar para tocar bateria. É outro drive. Naturalmente, sou músico; eventualmente, escrevo. Mas sei que levo jeito.

Muito! Em vários momentos, durante a leitura da autobiografia, eu ficava muito entusiasmada com sua imaginação…
[Ri] Se eu tivesse paciência, eu poderia ser um bom escritor. Mas não tenho, não me direciono para isso, prefiro ficar tocando bateria, estudando guitarra. Agora, enquanto “glória” ou “fazer história”, um grande escritor é mais lembrado do que um grande baterista. Já considerei isso, mas foda-se. Agora, pode ser que eu escreva um livro mesmo, não excluo a possibilidade. E adoro escrever sob pressão. Só que agora estou numa espécie de “lua de mel” com meus instrumentos, aprendendo a tocar alguns deles – o que é interessante, proustianamente. Estou admitindo toda a minha formação cultural. Se você perceber, vivo em multianalogias, todas essas coisas estão interligadas. Na verdade, funciono numa amálgama. Não sei, no fim das contas, o que é poesia, o que é tocar bateria, fazer ficção. Talvez eu ainda possa escrever uma ficção, sim.

Como está essa sua fase musical?
Agora vou ser chique [Ri]. Estou fazendo discos que homenageiam todo o meu DNA musical. Durante a pandemia, resolvi reler Proust também. Proust e Bergson, toda essa coisa da memória… Foi quando pensei em mergulhar no meu DNA. E assim comecei a fazer o Canções de Quarentena.

Sobre quais assuntos não dá para falar com eufemismos?
Olha, não sei. Qualquer assunto requer uma habilidade para ser abordado, hoje em dia. Creio que seja nem ser eufemista, nem duro, mas ter sensibilidade para saber qual é a intensidade certa. Quando você toca um instrumento, por exemplo, às vezes precisa tocar forte, outras vezes fraco, ou em um misto. É assim que é preciso falar também.

Recentemente, li uma entrevista com o Arthur Miller, e numa das repostas ele diz que nossas memórias ressurgem, normalmente, com duas etiquetas: ameaça ou promessa. O que representa uma ameaça?
Nesse momento, em que decido recompor meu DNA musical, é a própria morte. No começo da pandemia, quando via os campos com as covas rasas, as pessoas sendo enterradas… Vi o Aldir Blanc! Aliás, o Aldir foi o maior pivô para eu fazer o Canções de Quarentena. Falei para o Nasi que íamos cantar juntos Amigo é pra essas coisas:  “Salve! como é que vai…”, mas acabou não rolando. Mas vou fazer um disco de amor à MPB.

Olha, que demais!
Fiz 30 músicas. Compus todos os instrumentos. Quando comecei a juntar tudo, pintou uma unidade estética. Tem Tony Tornado, com BR-3, gravei Nilton César: “Receba as flores que lhe dou…”. Gravei Antônio Marcos, Roberto Carlos, Benito di Paula, Zé Ramalho, Belchior, Jair Rodrigues, Dolores Duran, Tom Jobim. Pedaço de mim, do Chico Buarque, ficou linda. Achei muito interessante essa aventura. Música brasileira em seu retrato mais amplo, mas com uma unidade lobônica. As músicas têm violão de sete cordas e sintetizadores.

Surpreendeu-se durante o processo?
Pude ver o real valor do meu amor a tudo aquilo que eu ouvia ao relento, no rádio, de passagem, porque pouca coisa eu ouvia realmente, mas ao mesmo tempo foram músicas da minha geração. Esse disco foi uma viagem amorosa interessantíssima, que me provou que a memória é eletiva. Você só se lembra daquilo que interessa, seja como ameaça ou promessa.

E o que seria então uma promessa?
A promessa seria o resgate do amor daquilo que acabei rejeitando, sabe? De uma forma ou de outra, percebi que eram coisas indispensáveis. Por exemplo, eu não posso rejeitar o Rio de Janeiro, todos esses compositores; não posso rejeitar esses cancioneiros. Não posso rejeitar essa cultura.

Em termos simbólicos e poéticos, qual é o cheiro da Regina?
Ela tem cheiro de lírio, olhos de farol. Lírio com miosótis. Ímpeto com calma, como um farol, que dá um brilho intenso, mas ao mesmo tempo dá uma segurança, a segurança de um porto, e você vai adiante. É uma fragrância intensa, às vezes da noite, às vezes do dia, às vezes do jasmim, às vezes do miosótis, às vezes do lírio, mas é renovação, na tentativa e na cumplicidade.

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Expediente:

Assistência de edição: Helena Marina.
Revisão: Túlio França.
Pauta e edição: Lili Castro.
Agradecimentos: Guilherme Soares, Rodolfo Lutfi e Diogo Nabarro.

Lili Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é escritora, mestre em Ciência da Religião e doutoranda em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP. Contato pelo Instagram: @fausto_mag

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