Paulo Feldmann: “No futuro, não vai ter emprego para todo mundo”

Como você se sente ao pensar que daqui a doze anos um robô vai estar aí em seu lugar, à mesa do trabalho, executando funções que você dedicou anos para aprender? Desolado? Ele tomará sua cadeira e sem qualquer esforço fará tudo melhor do que você, mais rápido do que você. Parece coisa de filme, sabemos. A triste notícia é que não é. Mudanças significativas já vêm acontecendo mundo afora e o pior não é isso: países como o Brasil estão despreparadíssimos para as mudanças desse futuro próximo. O seu papel nesse novo cenário? Indefinido. Quem fala sobre isso com exclusividade para a FAUSTO é Paulo Feldmann, professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo, além de professor visitante da Pécs University, da Hungria, autor do livro Robô: Ruim com ele, pior sem ele. O que você pretende fazer a respeito? Seja o que for, comece já.

FAUSTO – A era dos robôs está chegando e vai eliminar milhões de empregos, essa é a sua hipótese em artigo publicado no Ilustríssima, da Folha de S.Paulo. No Brasil, em quanto tempo veremos isso acontecer?
Paulo Feldmann: As previsões mais sérias foram feitas por Carl Benedikt Frey e Michael A. Osborne, em 2014. Eles são professores da Universidade de Oxford, no Reino Unido. Desde então, quem realizou os mesmos estudos apenas confirmou os resultados.

E quais são esses resultados?
O estudo diz que no ano de 2030 – portanto, daqui a 12 anos – metade dos empregos que existem hoje, nos Estados Unidos, deverão ser eliminados. Os empregos existentes lá são parecidos com os que existem aqui. Como não há grandes diferenças, a previsão pode ser a mesma para o Brasil, mas com uma pequena diferença.

Qual?
Tecnologias, em geral, levam um pouco mais de tempo para chegar ao Brasil, mas não mais do que cinco anos

Quais empregos são mencionados nesse estudo?
Por exemplo, o de operador de telecenter, que com 99% de certeza será eliminado. Já percebemos isso quando ligamos para operadoras de telefonia, por exemplo. Outra profissão é a do corretor de imóveis. Auditor e contador não existirão mais também até antes de 2030. No caso do corretor, hoje as pessoas pesquisam o imóvel na internet antes de falar com o corretor. Elas veem vídeos de como é o imóvel, da região, e só depois é que vão visitar o imóvel. Isso vai acontecer com muitas outras funções, e funções que são de alta qualificação.

Que é a previsão mais drástica?
É a previsão mais drástica porque essas profissões não são parecidas com as que vinham sendo eliminadas, atividade braçal é da era da mecanização, século XX. E só recentemente que começou a substituição da atividade braçal dentro do setor de serviços.

Por exemplo?
Bancos deixaram de lado a atividade do caixa. Hoje, as pessoas usam o terminal bancário. Quase ninguém mais paga uma conta no caixa. Foi uma transformação enorme! As pessoas não se dão conta, mas os números são dramáticos. Em 1990, o setor bancário empregava um milhão e meio de pessoas, contando com os terceirizados. Hoje, o setor bancário, com os terceirizados, emprega 400 mil pessoas. Nesses mesmos anos, os bancos cresceram dezenas de vezes, aumentaram muito suas atividades, seus lucros, seu capital, mas reduziram significativamente o número de empregados. A diferença é que, hoje, profissões como a de médico estão ameaçadas. Logo logo não precisaremos mais de um médico para interpretar resultados de tomografia ou qualquer outro exame.

Serão os robôs os substitutos?
Eles são muito mais rápidos, muito mais eficientes. Quando falo isso em alguns lugares, as pessoas duvidam, acham que sou muito pessimista. Algumas pessoas até falam que o médico vai poder se dedicar mais ao paciente, só que eu não acho que isso vai acontecer. O médico se tornará desnecessário, vai perder o emprego, porque a área que registra os maiores avanços na medicina é a do diagnóstico. Muitos cientistas dizem que em poucos anos a maior parte dos equipamentos para fazer diagnósticos estará disponível no celular. O mesmo vai acontecer com o advogado. Hoje, há programas que fazem toda a petição que você precisa. Basta inserir seus dados, relatar o que aconteceu e quem deseja processar. O computador elabora a petição e você entrega para o juiz. Claro, o sistema jurídico americano é diferente do nosso? É, mas a tendência é nos aperfeiçoarmos para então podermos usar coisas desse tipo.

Enquanto país, temos condição de realizar esse aperfeiçoamento? Talvez agora eu esteja sendo pessimista, mas… Não estamos muito aquém?
Dependendo da área, sim. Na área da saúde estamos muito atrasados. Temos coisas boas na medicina do Brasil, algumas especialidades possuem médicos de excelência mundial; também temos o SUS, o que poucos países têm. Teoricamente, todo mundo tem direito à assistência à saúde gratuitamente, mas poucos países do mundo oferecem isso. Agora, a produtividade do sistema brasileiro é baixíssima, estamos na idade da pedra. Em alguns países, o atendimento médico hoje – e vi isso funcionando – é todo feito por Skype. Se o paciente precisa de alguma medição, o médico envia para a casa do paciente o aparelho de medição com um técnico para auxiliar. O paciente não tem que sair de casa.

Não creio mesmo que isso possa acontecer aqui.
Veja só uma cena que presenciei. Isso em Israel, que é um país muito avançado. O médico atendia via Skype um paciente com dor de estômago. Ele tinha enviado anteriormente a esse paciente uma pastilha em que havia uma micro câmera. Logo depois que o médico pediu para o paciente engolir a pastilha, o monitor no consultório do médico começou a mostrar imagens do estômago desse paciente. Evidentemente, a câmera foi eliminada pelas fezes algumas horas depois. Quantos anos o Brasil levará para chegar a esse ponto?

Logo imaginei a quantidade de charlatões atendendo via Skype…
Aí é que está, creio que não. Acho dificílimo implantar isso no Brasil, porque Israel tem oito milhões de habitantes e o Brasil, 208. Mas a filosofia de que o paciente não deve sair de casa para ser atendido é muito boa. Vamos acabar chegando lá, e quando chegarmos vai facilitar muito a gestão do nosso sistema de saúde, mas é claro que vai demorar.

Em quais outras áreas estamos muitíssimos atrasados?
Judiciário, não? Em alguns países é tudo automatizado, você não precisa de papelada, o depoimento pela internet é muito comum, a pessoa depõe por Skype. Aqui, só em algumas situações o juiz admite receber um depoimento por Skype, mas é raro. O carro elétrico é outro exemplo do quanto somos atrasados. O mundo inteiro já tem carro elétrico e postos de abastecimento na rua. No ano passado, a China vendeu cerca de 1 milhão de carros elétricos, mas aqui ainda não podemos usá-lo. Muitas inovações carecem de uma política pública dando suporte e nós sempre demoramos muito para fazer isso.

Alguma outra razão para ainda não existir aqui?
Os interesses corporativos são os que prevalecem no Brasil. Sempre. Carro elétrico desbanca produtores de álcool. O mercado não resolve nada sozinho. Se queremos ter carro elétrico, teremos que ter política para isso. No Brasil, sempre tem algum interesse corporativo por trás do boicote, que corta alguma coisa que seria muito boa para o país.

Quem sobreviverá nesse cenário? Os mais criativos? Os mais determinados?
Bom, esse é outro problema grave que me faz ficar pessimista.

Por quê?
A sobrevivência vai depender muito do sistema educacional. Daqui a 20 anos as profissões vão ser completamente diferentes e temos, inclusive, muita dificuldade, hoje, de planejar o que vai acontecer. Só sabemos que as profissões vão mudar, mas não sabemos quais serão. Haverá profissões que vão durar 2/3 anos apenas e depois vão desaparecer. No futuro, não haverá mais profissão que perdure por 100 anos.

Imagine os danos em termos de qualificação!
Se as profissões durarem 2/3 anos, a pessoa tem de estar preparada para mudar de uma profissão para a outra.

Então, volto ao meu ponto. Será preciso termos alguns pré-requisitos: determinação, criatividade, inteligência… Ou o que?
Tudo isso. A pessoa terá que estar apta a aprender qualquer assunto, a internet vai ajudar, mas essa pessoa vai ter que ter essa capacidade de aprender.

Isso é o prenúncio do fim?
Do sistema educacional na forma como ele é hoje, sim. A tendência é acabar com os especialistas e formar cada vez mais generalistas. Eles entenderão um pouco de tudo, mas não serão profundos em nada, e conseguirão apreender qualquer assunto sozinhos e com facilidade. Ou seja, há que se desenvolver a capacidade do indivíduo apreender sozinho.

Refiro ao conhecimento como um todo, do saber, não só do sistema educacional.
Será? Porque teremos que saber um pouco de engenharia, um pouco de medicina, um pouco de direito, um pouco de jornalismo. As pessoas saberão onde encontrar o conhecimento especializado do qual precisam.

Não há tempo hábil para sabermos um pouco de tudo. E mais ainda numa realidade em que o Netflix já tira todo o tempo que “deveria” ser dedicado à leitura, por exemplo.
Essas mudanças começarão desde a educação de base da criança.

Logo, da família.
Da educação de base da criança quer dizer que a criança começará a ter essa formação já na escola. Os conhecimentos básicos vão continuar, na minha opinião, sendo importantes. Tem que aprender matemática, português, ciências…

Isso, hoje, já é quase uma raridade.
Nosso sistema educacional é pavoroso. Não falta diagnóstico para ele, o que falta é agir.

Se vamos nos tornar mais generalistas, isso é pior, não?
No futuro, será necessário.

Como confiar a construção de um prédio nas mãos de generalistas?
Daqui a 20 anos, tudo o que precisarmos vai estar na internet. Para construir um prédio, por exemplo, haverá um programa que fará todos os cálculos. Há escolas importantíssimas no mundo que já juntaram os cursos de engenharia e medicina, outro exemplo. Essas escolas acreditam que o médico precisa tanto do equipamento, e cada vez mais, que se tornou necessário o conhecimento em engenharia. Isso já é um fato, há convergência de cursos, não é algo totalmente novo.

Como será para sete bilhões de pessoas se encontrem enquanto seres humanos nesses novos papeis?
Bom, daqui a 30 anos serão nove bilhões.

Meu Deus!
Esse será um problema sério que a humanidade enfrentará. Entretanto, não sou pessimista, porque a humanidade tem resolvido seus grandes problemas de forma mais ou menos adequada. Você falou sete bilhões e isso me lembrou de uma coisa: há 20 anos, havia muito mais pessoas passando fome. Conseguimos resolver a questão da pobreza, com algumas exceções. A China, sem dúvida, é o maior player. A questão maior é a seguinte: no futuro, não vai ter emprego para todo mundo, não vai ter, isso é um fato. Pouquíssimas pessoas serão afortunadas com um emprego. Quem fabrica robô ou fabrica software para inteligência artificial, vai estar provavelmente bem daqui 30/40 anos. Claro que os países mais desenvolvidos estão muito preocupados e saberão desenvolver soluções. Nos países escandinavos, por exemplo, já há boas propostas baseadas no sistema da renda mínima, ou seja, toda a população, empregada ou não, vai receber uma renda mínima. Quem estiver empregado será fortemente taxado, assim como as empresas que se beneficiarem pelo uso de robôs e automação. Os recursos gerados por essa taxação é que vão bancar o programa de renda mínima.  Então, sou otimista no sentido de que a humanidade saberá desenvolver uma solução para a sobrevivência decente dos indivíduos.

 

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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