Ricardo Boechat: “A Lava Jato é o maior patrimônio da sociedade brasileira contemporânea”

Ganhador de três prêmios Esso – um deles, inclusive, por denúncias de corrupção na Petrobras, no fim dos anos 1980 –, Ricardo Boechat foi alvo deliberado do ódio que inundou o debate político nos últimos anos, principalmente durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Aos 64 anos, o carismático comunicador, apresentador do Jornal da Band na TV e da rádio BandNews FM, é um dos mais respeitados jornalistas da imprensa brasileira, tendo passado pelas principais redações como de O Globo, O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil. Proporcionalmente controverso, é seguido por mais de 1 milhão e duzentos mil seguidores só no Facebook, universo composto por jovens de todas as idades, além de homens e mulheres de diversas classes sociais. Boechat recebeu a FAUSTO com exclusividade no Grupo Bandeirantes e bateu um papo descontraído sobre sua trajetória; o case Spotlight, publicado em 2002 pelo Boston Globe; além das relações comerciais da imprensa, assunto sempre tão sensível ao público. Uma entrevista estilo FAUSTO, estilo Boechat: polêmica, pero no mucho.

Ricardo Boechat
Ricardo Boechat. Foto: Eduardo Knapp/Folhapress.

FAUSTO – Percebe-se, pelas redes sociais, principalmente, que para a esquerda a grande mídia é “golpista”. Já para a direita, as redações são compostas mais por jornalistas de esquerda. Como você define a grande mídia hoje?
Ricardo Boechat: O que é esquerda e o que é direita? Como classificar um espaço no qual milhares de pessoas que vivem do que pensam batem cabeça, considerando a abrangência desses conceitos e a precisão de uma palavra como golpista? Mario Sergio Conti é golpista? Jânio de Freitas é golpista? Há inúmeros articulistas, em veículos de razoável expressão, que definitivamente não se enquadram nesse figurino.

Sim, sem dúvida…
O conceito clássico de esquerda e de direita já melou há muito tempo. São dois valores que eu não sei como começa e muito menos como termina. É fluído, abstrato. E a realidade não se encaixa nem na pretensa precisão desses conceitos. Agora, todo processo de impeachment é um golpe no sentido de trauma. A ideia de que o golpe tenha existido enquanto tal me parece exagerada, absoluta demais. Sobre o golpista, é a mesma coisa, porque é preciso aceitar o pressuposto de que houve um golpe. As pessoas não foram para as ruas empurradas por uma opressão. Entendo que fosse mais razoável criar condicionamentos para que o governo Dilma chegasse ao fim. Creio, inclusive, que poderiam ter avançado em algumas punições e terem deixado o governo terminar. Penso que seria menos traumático. A maioria da sociedade, contudo, não entendeu dessa maneira. O apoio ao impeachment ganhou a opinião pública. Não dá para negar isso, mesmo quem não queria.

Concordo…
Agora, a maior parte da imprensa endossou editorialmente, até mesmo na distribuição do espaço das coberturas, o movimento que culminou com a queda da Dilma? Sim. Foi desigual do ponto de vista da análise matemática. Mas Dilma foi distorcida no que diz respeito à perspectiva dos fatos? Não. A imprensa esteve, como em muitas ocasiões, menos crítica a coisa em si e mais política no sentido de estar mais próxima do público, da sensação do sentimento predominante nas ruas. Um caso contrário foi a eleição do Trump. A grande imprensa não percebeu que havia algo maior do que parecia ser. No Brexit também. A grande impressa britânica não embarcou no Brexit. As urnas surpreenderam o mundo em ambos os casos. Até onde minha memória alcança, a imprensa costuma capturar o sentimento das ruas e se posiciona custeando isso. Neste aspecto, a imprensa faz mais uma escolha mercadológica – porque não quer perder público – do que propriamente crítica.

Em toda a sua carreira, viveu um momento tão intenso na cobertura política como o que estamos vivendo agora?
Não. Mas não porque os momentos políticos não tenham sido igualmente dramáticos. Tivemos golpe, redemocratização, morte de um presidente – o primeiro depois da ditadura militar – votação direta, impeachment de outro presidente. Vivemos muitos momentos dramáticos, mas em nenhum deles a sociedade esteve tão envolvida, horizontalmente falando. Política tornou-se assunto do cotidiano, ainda que com diversos graus de compreensão dos fatos. E é claro que isso acontece principalmente pela difusão das redes sociais. Todo mundo virou editorialista de tudo, 24h por dia.

E isso é mais positivo ou mais negativo?
Mais positivo.

Mesmo com a tagarelice?
Se você olhar um garfo, sem intimidade, verá um utensílio perigoso, com pontas. Imagine quanta gente não ficou cega enfiando garfos nos olhos. A internet é um garfo. Somos sete bilhões de pessoas aprendendo a manusear uma coisa que espeta, machuca, corta, engana, ilude. Mas como o garfo tem uma utilidade monstruosa em nossas vidas e assim será cada vez mais. Estamos na Idade da Pedra, cometendo os mesmos erros que homens cometeram enquanto aprendiam a manipular o fogo ou outros instrumentos cortantes. Não sei quanto tempo levará e nem se evoluirá de forma homogênea. Há muita bobagem circulando, mas acredito que o senso crítico geral está avançando.

O gosto pela discussão política aumentou…
Deu uma disparada incrível. Quem não discute política hoje no Brasil? Onde está o país do futebol e do carnaval? Quais são os temas que se sobrepõem no dia a dia do pipoqueiro – do taxista não, porque taxista sempre foi muito politizado – mas do açougueiro, do balconista, do ascensorista. Olhávamos para nossos irmãos argentinos, chilenos e uruguaios com uma ponta de inveja porque eles pensam em política. Um dia desses, alguém escreveu que brasileiro hoje sabe nome de quatro ou cinco ministros. Pode até ser fruto de um corpo febril, de uma septicemia que se espalha pelo corpo e não é necessariamente saudável, mas reluto a acreditar que o resultado seja negativo. Olho com razoável esperança para 2018, de que haverá uma eleição com muita discussão. Embora, devo confessar, eu olhei para as últimas eleições municipais da mesma forma e quebrei a cara.

Por quê?
A quantidade de loucura foi enorme: renovação muito baixa, as velhas oligarquias partidárias renovando seu poder. Mas a tendência da política praticada de forma média no Brasil, por conta da disseminação do interesse e da conexão entre as pessoas, tende a melhorar. Assim como os espaços para a putaria tendem a ficar menores. Ainda são enormes. Quem está na política brasileira é a escória da sociedade, na sua maioria. Há os éticos, os sérios, mas o aparelho político é dominado pela escória. A escória não está nos presídios está no Congresso Nacional, nas câmaras legislativas e na gestão pública – e há muito tempo.

Não vê mudanças?
Está mudando, mas não diante do que já deveria ter mudado. Está todo mundo escandalizado, mas o ministro da Educação, nesse ambiente, vai dezessete vezes com o jatinho da FAB para a cidade dele para passar o fim de semana. Um vereador de Belo Horizonte usa o helicóptero e pousa numa praia, cheia de gente, em Guarapari. São coisas pequenas, mas são traços de uma tribo. Eles são uma tribo. Creio que em algum momento esse DNA tende a azedar. Eles não vão continuar sendo tão ousados na afronta. O desmonte de algumas estruturas institucionalizadas da corrupção é inegável, por conta da Lava Jato e correlatas. Os espaços para delinquir – mesmo que a cultura da delinquência ainda exista – não estão mais tão férteis. Está melhorando, é claro, mas insisto que isso não nos garante futuro a longo prazo. Temos horizonte apenas a curto prazo.

Quais outras conquistas somariam a esse futuro a longo prazo?
Educação. O povo precisa melhorar de instrução para dar solidez e perenidade a certos avanços. Tem que haver um choque, uma ruptura no modelo, um decreto divino que mude o país. O analfabetismo acabaria em cinco anos e a fome acabaria em dois anos. Formas há, não necessariamente formas que todos apoiariam. Não sendo por processos revolucionários, de força, tem que ser no jogo democrático. No jogo democrático, demora mais.

Há muita maquiagem nos números sobre a educação…
“A educação brasileira tem números reluzentes e realidade indigente”. Brinquei com Cristovam Buarque sobre essa frase ser dele, mas ele disse que não era, embora tenha concordado que é uma boa frase. Não é possível olhar para o Brasil e dizer que ele é um país de famintos, mas é possível dizer que ele é um país de analfabetos funcionais.

A operação Spotlight só foi possível porque o chefe era judeu? Ou seja, é imprescindível um olhar de fora?
O filme lança essa pimentinha, mas não creio. Quando colocam em questão a religião do editor é para ilustrar o ambiente de pressão que a reportagem pretendia eviscerar. O argumento sugeria que o resultado de algo comandado por um judeu seria – por razões ancestrais e religiosas – pernicioso para a Igreja Católica de Boston, uma das mais tradicionais dos Estados Unidos. Para aceitar esse olhar de fora como determinante, seria preciso considerar que o editor esteve à frente do processo o tempo todo e o filme mostra que na redação havia pessoas que queriam essa briga há muito tempo.

Mas o caso não avançava…
Mas não porque o chefe não era judeu. Não enxerguei dessa maneira. Agora, sobre o olhar de fora favorecer a análise crítica, sim, via de regra. No caso do filme, não creio ter sido isso. Mas é claro que estar de fora permite que você observe melhor. Auditorias e consultorias são externas por causa disso. São pessoas que não estão impregnadas dos aromas, dos cacoetes, das ambições.

Envolvidos tendem a achar que há predileções…
Enfrentei muita reação adversa aos meus comentários, ao longo da cobertura do impeachment. Fui igualmente esculhambado pelos dois lados.

Por exemplo?
Quando houve a condução coercitiva do Lula. Eu disse que foi um erro, que ia dar ao Lula e às suas alianças o melhor argumento que eles poderiam ter nas atuais circunstâncias: o da perseguição política. Se a condução coercitiva do Lula fosse resultado de um ato de resistência prévia a um depoimento, ou que implicasse na obtenção de um elemento favorável ao processo, ou mesmo que se transformasse em prisão preventiva, depois condenação, como está acontecendo com Delcídio do Amaral, Sérgio Cabral e Eduardo Cunha, tudo bem. Agora, condução coercitiva de um ex-presidente com aquela farofada? Carros, helicópteros, vai-para-Curitiba, não-vai-para-Curitiba, tudo para soltá-lo duas horas depois? Porra! Intima para depor! Não compareceu? Conduza sob vara, como se dizia no meu tempo. Hoje se fala condução coercitiva.

Outra razão para ter criticado?
Critiquei pelo tiro no pé que pareceu ser da Lava Jato. E como sempre defendi que a Lava Jato é o maior patrimônio da sociedade brasileira contemporânea, pelo potencial que tem de produzir mudanças de curto prazo que darão parâmetros para coisas maiores, a saber. Sempre fui muito crítico a tudo que a operação produzisse que pudesse, no meu entendimento, fragilizá-la.

Há mais exemplos?
O vazamento da conversa telefônica entre Dilma e Lula. A forma como aturaram na prisão do Mantega. A apresentação em Power Point de Dallagnol foi mais contraproducente do que producente.

O que acontecia quando você criticava?
A porrada comia solta e de maneira impressionante. Mesmo quando eu fazia comentários, no meio, como por exemplo: “Não estou sugerindo que Lula seja inocente de absolutamente nada”. O que o senhor Dallagnol falou, possivelmente é verdade, mas uma coisa sou eu dizer que acho que o Lula estava ciente da corrupção e dela participava, no mínimo pela omissão, e outra coisa é o procurador-chefe da Lava Jato dizer isso sem apresentar um elemento contundente. O mesmo comentário produzia reações de ódio dos dois lados. Atravessei toda a cobertura do impeachment vivendo uma angústia muito grande. No fundo, você quer que o público não só compreenda como concorde com você. É uma pretensão natural. Você diz uma coisa e deseja que a pessoa ouça e raciocine. É claro, que façam ponderações, mas ser esculhambado de A a Z – pelos dois lados – não é fácil. Durante todo o processo de impeachment me mantive na mesma posição, fora das duas tribos.

Vê o impeachment por outra perspectiva?
O impeachment é filho da ausência de resposta das manifestações de 2013. Um falso dilema, produzido pela classe política para engambelar a sociedade que quis mudanças rápidas. A sociedade embarcou na “crise” do impeachment como se ele fosse um divisor de águas, um divisor de grupos, quando não é nem uma coisa nem outra – como estamos vendo. O buraco é muito mais embaixo. A classe política é mais unida do que desunida, muito mais homogênea do que heterogênea. É uma tribo fechada em si mesma. Não é um conjunto de forças díspares reunidas no mesmo espaço físico que é o Congresso. Fiquei meio que gritando sozinho. Era o Reinaldo Azevedo na ponta de lá. Não-sei-quem na ponta de cá. E todos muitos categóricos em defender isso ou aquilo.

Houve muita pressão, fora a do público?
Pressões lícitas de um ambiente profissional. Aliviou quando aconteceram duas coisas. Primeira, eu vinha denunciando que a histeria estava dominando o debate político. O jornal El País, nesse período, fez um estudo sobre redes sociais que apontava como as pessoas estavam lendo e como estavam se posicionando. Nessa reportagem, o único jornalista que tinha um pouco de audiência nas duas tribos – não isento das porradas, mas que as duas partes ouviam – era eu. Aí pensei: “Se eles estão me esculhambando, dizendo que sou ora golpista, ora comunista, ora vendido, mas estão me ouvindo, é porque eles estão movidos pelo ódio, mas pautados por alguma reflexão.” Segundo, o NYT ou Washington Post, mandou um correspondente para cá e pediram que eu falasse exatamente sobre a dificuldade de mediar uma discussão, um bate-papo político diário – em rádio e TV – em um ambiente no qual o ódio estava tão exacerbado, e por isso mesmo difícil de não correr ou para um lado ou para o outro. Muita gente correu.

O que é mais difícil nesse momento?
Propor uma reflexão, um meio do caminho. Fiquei muito angustiado porque eu estava chegando à conclusão de que eu falava só para mim – embora eu acreditasse no que estava falando e não queria ir nem para uma direção nem para a outra. Parecia-me que a ausência de convicções era a posição mais lúcida. Às vezes, um ouvinte escrevia: “É isso mesmo. Segura a onda aí, Boechat”. Comecei a ler as mensagens das pessoas que me atacavam. O rarefeito apoio do público, que foi minoritaríssima naquele momento, me ajudou. Eles mandavam mensagens de apoio, até dizendo que estava todo mundo maluco mesmo. Somando a esses dois eventos do tal “olhar de fora”, fiquei um pouco mais tranquilo. Não estou berrando sozinho no meio do deserto.

Ainda em Spotlight, por que é tão difícil entender as relações comerciais de uma mídia?
Não saberia mencionar isso. Muita gente me escreve dizendo que sabe o porquê de não mencionarmos certas coisas: “porque há relações comerciais em jogo”. Em muitos casos, a tramitação está sujeita a possibilidades de tudo virar pó. Outra razão é porque é da natureza da imprensa lidar com fatos consumados ou prestes a ser consumados. Principalmente uma imprensa como a nossa que lida com um cardápio cotidiano que vai da morte de um ministro em um acidente aéreo – e tinha que ser logo um ministro relator da Lava Jato, com tantos ministros para morrerem – até os fatos mais exóticos, rocambolescos do dia a dia.

Ah, sim.
Já disse no rádio, por exemplo, que eu queria ser dinamarquês por 48 horas. Mais do que isso eu iria enlouquecer. Quais são as manchetes dos jornais da Dinamarca? “Exposição de orquídeas bate recorde de público”. Aqui, não. É estupro, violência, tiro, bala perdida, presidente preso. É a mulher, o marido, o Louboutin, a joia, o empreiteiro. Com esse cotidiano, muita coisa não vai para a pauta diária porque outras vão se impondo. Não existe a possibilidade de uma notícia, de fato, passar em branco em 100% dos jornais devido a um conluio. É quase uma idiotice pensar que os caras da Folha, do Estadão, de O Globo – que se pudessem matariam uns aos outros porque disputam o mesmo mercado – vão se trancar numa sala à prova de som para combinar as edições do dia seguinte. Isso vale para as televisões.

Não há pautas proibidas?
A Petrobras foi a grande anunciante das mídias por décadas. É evidente que se você fosse dar uma notícia que ferisse a imagem da Petrobras, pediriam mais cautela. Não iriam proibir, mas pediriam mais rigor na apuração. Estou falando isso porque eu ganhei um Prêmio Esso, em 1989, com o Aluizio Maranhão e a Suely Caldas, denunciando corrupção na Petrobras. Foi como fazer a reportagem do Boston Globe contra a Igreja Católica. Voltando ao filme, se eles tivessem feito uma matéria sobre pedofilia em uma creche de Boston, as cautelas, os rigores, seriam os mesmos?

Possivelmente, não.
O cenário que eles iam invadir, deixando as vísceras abertas expostas ao Sol, tinha peso muito maior. É ingênuo achar que em determinadas circunstâncias, na apuração, a temperatura não oscile em função do terreno no qual se está pisando. Mas não existe pau na mesa. Não existe “não faça”. Nenhum dono de jornal, da grande imprensa, vai dizer isso ao Augusto Nunes, ao Mario Sergio Conti ou para o Jânio de Freitas. É complicado. Acontece muito, e acho que é inevitável, ter que levar em conta níveis, cautelas, rigores maiores em certas circunstâncias, mas não vejo como censura. O encontro do dono do Boston Globe com o diretor de redação foi censura? Não. Ele foi claro: “Não arrume complicações com a Igreja Católica aqui em Boston. Está seguro?”. O público idealiza a mídia como uma espécie de território da coragem, da independência, do destemor, da ausência de limites. Em certa medida vivemos essa mística dentro das redações. Carregamos esse charme infundado. E há também uma dificuldade de compreender a inevitável presença do capital dentro das redações na forma de anúncio. O público aceita pouco que isso existe. A imprensa livre funciona dessa forma no mundo inteiro. O exemplo do Boston Globe é clássico.

Qual é a figura pública mais nociva do Brasil?
Não tem uma. É uma figura difusa: o Estado. O grande inimigo da sociedade é o Estado.

É muito pior quando uma figura nociva ainda é religiosa?
Sem sobra de dúvida. Era só o que faltava: um Estado como o nosso se transformar numa teocracia. Estaríamos fodidos de vez.

 

 

Eliana de Castro Escrito por:

Fundadora da FAUSTO, é escritora, mestre em Ciência da Religião e autora do romance NANA.