1962: tudo começou com 007 Contra o Satânico Dr. No

O nome dele é Bond, James Bond. 00 é licença para matar.

Atuando desde 1962, o agente secreto mais famoso do cinema começa sua trajetória com o filme Dr. No, dirigido por Terence Young. Ou 007 Contra o Satânico Dr. No, título brasileiro.

Sob música tema do britânico Monty Norman – que já faturou mais de meio milhão de euros em royalties –, Bond já foi tantos, em melhores e piores versões, e já são quase 25 filmes da franquia.

007 Contra o Satânico Dr. No.
007 Contra o Satânico Dr. No.

Para quem já viu, rever é imprescindível para entender o mito que nasceria ali, em 1962. A série de origem britânica ganhou o mundo ainda nos anos 1960 e ao longo dos mais de 50 anos tornaria o seu agente um sobrevivente.

Engana-se quem pensa que James Bond é sobrevivente apenas das aventuras, dos tiros e das emboscadas. Ele é sobrevivente, principalmente, das transformações culturais e comportamentais pelas quais o mundo passou desde então.

Ian Fleming, o escritor que criou o mito, ainda viveria para ver seu agente ganhar corpo na pele de Sean Connery. Aos 32 anos, o ator escocês inaugurou esse arquétipo que só viria a sofrer drásticas mudanças quase 50 anos depois, já sendo interpretado por Daniel Craig. James Bond, com Craig, revelou inéditas vulnerabilidades: desde a de se apaixonar depois de grande trauma aos dilemas do envelhecer. Há muito para falar sobre Bond. E Dr. No inaugura a conversa.

O filme foi lançado em 5 de outubro de 1962 e soma 110 minutos de aventura.

O cenário que dá início à trama de Dr. No é a Jamaica. Enviado para investigar o desaparecimento do colega John Strangways, Bond descobre o misterioso e esquisito Dr. Julius No, vivido pelo ator canadense Joseph Wiseman.

O primeiro grande vilão ninguém nunca esquece… Nessa aventura, James Bond conta com a ajuda do agente da CIA Felix Leiter, além do pescador Quarrel, interpretado pelo ator americano John Kitzmiller.

Quarrel é personagem que aparece em dois livros de Fleming: Live and Let Die e Dr. No. Entretanto, nos filmes, só consta mesmo em Dr. No. Esse primeiro filme da série de livros de Ian Fleming foi lançado nove anos depois da publicação do primeiro livro, que é Casino Royale.

De voz empostada, postura imponente e pele bronzeada, Sean Connery dá vida ao personagem petulante, que logo no início de Dr. No finge cair numa armadilha pelo simples prazer de se livrar dos primeiros inimigos. Puro deboche. É quando Bond dirige o primeiro grande carro: o modelo Sunbeam Alpine Series II, de 1962. Uma réplica do veículo, que virou ícone, reaparece em Spectre, de 2015. Curioso é que o carro original de Dr. No não se sabe o paradeiro. Desde então, tudo o que James Bond usa se torna altamente desejável – pelos bolsos capazes, evidentemente.

Tratando-se de roteiro, é evidente que não dá para compará-lo com as rebuscadas tramas atuais. Dr. No deve ser visto e entendido no seu tempo. Interpretá-lo fora do contexto é abrir mão de parte da graça e se ver, inutilmente, enredado pelo que não se pode mudar: o passado. História é transformação, não necessariamente evolução ou retrocesso. Não somos mais livres no presente do que fomos no passado ou seremos no futuro.

Dr. No é incomparável também quando o assunto é tecnologia de produção e efeitos especiais, incluindo os aparatos de Bond, que por sua vez, hoje, também, geram grandes expectativas em seu fiel público toda vez que um longa é anunciado.

Hoje. Porque quando foi lançado, ninguém jamais imaginou que esperaríamos por essas engenhocas. Mesmo o filme sendo tão rudimentar, é impressionante como funciona e se consagra. É interessante notar, por exemplo, a sirene acionada através de uma lâmpada na sala de espera toda vez que M está pronto para receber alguém. Os filmes da franquia 007 sempre deram sinais do amanhã.

M, em 1962, é um homem: Bernard Lee. Outra lenda. Haverá tempo para falar sobre ele. E como dois mais dois são quatro, outra obviedade hoje – mas que sempre causa ansiedade – é saber quem será a bondgirl da vez.

A primeira bondgirl também surgiu em Dr. No. Das cenas clássicas que compõem a trajetória cinematográfica de 007, a loira saindo do mar em seu biquíni bege (nude é uma invenção contemporânea), certamente está entre elas. Tanto que em Die Another Day, Halle Berry, a bondgirl de 2002, repete a cena – também de maneira espetacular com seus cabelos curtíssimos.

Ursula-Andress
Ursula Andress em 007 Contra o Satânico Dr. No.

O nome dela é Ursula Andress. Considerada um dos maiores símbolos sexuais do cinema nos anos 1960, foi comparada por Terence à Vênus de Botticelli.

Pela atuação em Dr. No, Ursula ganhou o Globo de Ouro do ano seguinte. Atuação nada impressionante, diga-se de passagem. Honey Ryder é o nome da personagem, uma caçadora de conchas.

Uma pequena, mas rendosa curiosidade, é que o biquíni que também virou ícone usado por Andress foi leiloado, em 2001, por US$ 80 mil…

Porque foi oficial da Inteligência Naval do Reino Unido, Fleming viveu na prática um pouco do que transportou para seus livros. Diferentemente do que foi apresentado por Connery, a personalidade de Bond, originalmente na mente de Fleming, não era atraente e corajosa. Fleming criou Bond como um sujeito desprovido de qualquer atributo pelo qual poderiam admirá-lo: os homens para copiá-lo, as mulheres para amá-lo. Será?

De acordo com o próprio Fleming, Bond é quieto, duro, implacável, sarcástico e fatalista. Nas relações com as mulheres, Bond mostra as mesmas qualidades que dedica ao trabalho, embora tenha mais delicadeza com elas. E se elas se metem em problemas, Bond está preparado para sacrificar sua vida para resgatá-las. O que nunca acontece é deixar que elas interfiram em seu trabalho. James Bond gosta de jogos de azar, golfe e, claro, automóveis velozes.

Para os padrões atuais, o Bond de Connery é até um tanto quanto ríspido. Exemplo é quando dá ordens à Honey, em vários momentos, e até quando a toma pelo braço. Completamente diferente, inclusive, da versão que vi pela primeira vez no cinema, em 2002, em Die Another Day, com James Bond vivido por Pierce Brosnan.

Os negros, em Dr. No, são sempre os criminosos, os garçons ou os motoristas. Em determinada cena, uma das personagens até chega a ordenar: “Mande o macaco me soltar!“.

John Kitzmiller é a exceção. Assim como a cor vermelha de sua camiseta, que dá destaque às cenas em que predominam bege, verde oliva e verde musgo: desde as cadeiras, as cortinas, os abajures e até o chapéu de Bond na primeira perseguição. O vermelho está no vestido da primeira mulher bonita que aparece, além dos detalhes da decoração e roupas de personagens que não são destaque, mas tampouco podem passar despercebidos.

James Bond foi então a mescla de muitas pessoas que Fleming conheceu durante a guerra. Como Sean Connery não foi a primeira opção dos produtores originais – Albert Broccoli e Harry Saltzman – para dar vida ao agente, a imponência de Connery saiu bastante do script.

Por exemplo, o Bond do protótipo media pouco mais de 1,80 metros e pesava cerca de 65 quilos. Magro, elegante. Sua aparência era sombria e cruel, ainda que as mulheres o considerassem irresistível. Fleming e os produtores foram “obrigados” a mudar as características do personagem. Seu charme acabou apelidando-o de “Mr. Kiss Kiss Bang Bang”.

Antes de Connery, foram considerados Cary Grant, Patrick McGoohan, James Fox e Roger Moore, que era muito jovem na época, mas acabaria assumindo o papel tempos depois.

Para além das posturas afetadas de James Bond e demais personagens, assim como efeitos e fatos que não teriam a menor possibilidade de acontecer na vida real – vale muito a pena entrar no clima e ignorar tudo isso, evidentemente.

007 Contra o Satânico Dr. No é um emblemático filme, cheio de símbolos que atravessam gerações, como veremos nos próximos filmes: as garotas, o drink, os carros, os truques.

Seja como for, quem é capaz de resistir ao Bond, James Bond. Às favas o clichê.

 

Fausto

Fausto

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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