Wolfgang Streeck: “O capitalismo está fora de controle”

Caminhamos mesmo para o fim do capitalismo? Fala-se do assunto há séculos, mas até agora nada. Nada? Declínio do crescimento, aumento do endividamento, corrupção, lucros estratosféricos dos bancos, desigualdade como nunca antes. Como se não fosse o bastante, já tem o seu lugar ao Sol nesta crise a cultuada inteligência artificial e a superestimada democracia, também em crise. Se tudo isso não é prenúncio, o que é? E se o fim está próximo, o que vem depois? FAUSTO conversa com exclusividade com Wolfgang Streeck, sociólogo alemão, diretor emérito do Instituto Max Planck, autor de How will capitalism end? Então, o que será de nós?

Wolfgang Streeck.

FAUSTO – Quem de fato tem controle sobre o capitalismo?
Wolfgang Streeck: O capitalismo está fora de controle. É um regime – uma ordem social – que torna o progresso social dependente do crescimento indefinido do capital monetário a ser investido em crescimento adicional. O capitalismo controla a sociedade e não o contrário.

Em quanto tempo prevê uma ruptura catastrófica?
Não podemos fazer previsões, por razões lógicas e factuais. O futuro próximo mais provável, contudo, é um período prolongado de transição, um período em que a velha ordem está decaindo só que sem uma nova ordem pronta para ser instituída.

Essa crise tem ligação com os avanços da inteligência artificial nos métodos de trabalho?
Indiretamente, sim. Se a inteligência artificial substituir a força de trabalho em grande escala, e isso pode ser o caso, então ela atingirá as classes médias mais do que as classes trabalhadoras – que por sua vez já estão sofrendo reestruturações e a transferência da produção para países periféricos com baixos salários. As classes médias nos países capitalistas avançados são as principais defensoras do capitalismo contemporâneo, em sua versão consumista. Se o apoio delas for interrompido, será muito difícil restaurar a estabilidade social.

Os países ricos tendem a sofrer mais – ou sofrer primeiro – do que os países mais pobres?
Os países ricos têm mais reservas, por exemplo, a maioria deles estabeleceu estados de bem-estar social. Normalmente, as crises capitalistas afetam mais a periferia do que o centro. Contudo, desta vez pode ser diferente; a história não se repete.

O quadro se agrava muito com a crise da democracia em que tantos países estão vivendo, inclusive o Brasil?
A crise da democracia faz parte da crise do capitalismo. Para restaurar e manter o crescimento – ou a acumulação de capital – o capital e os governos aliados promoveram a “globalização” da economia. Mas a “globalização” não é possível enquanto houver democracia – no sentido de democracia redistributiva – nos estados nacionais. “Globalização” significa que a democracia deve ser refreada, mais precisamente: deve ser esterilizada em relação à economia política.

Economia e sociedade estão profunda e irreversivelmente ligadas. Políticos oportunistas, que prometem o que o Estado não pode pagar, são ainda mais perigosos em tempos de crise econômica?
Políticos oportunistas são sempre perigosos. Mas o que a economia “pode pagar” não é um problema técnico, mas um problema político. É determinado pela disposição dos capitalistas em investir seu capital, na expectativa de aumentá-lo. A crise é o resultado de capitalistas sem a confiança ou a vontade de investir – ou preferem investir no setor financeiro, onde nenhum emprego é gerado e os impostos são difíceis de coletar. Políticos que afirmam que podem mudar isso enquanto as relações de poder econômico são o que são agora, são principalmente impostores.

Se não houvesse tanta corrupção, seria possível atender aos necessitados ou ainda estaríamos condenados?
Corrupção é um mal. Mas os oligarcas globais não se tornaram o que são por causa da corrupção. Desigualdade e pobreza surgem do funcionamento normal dos mercados, agora globais, se não forem corrigidos pela política democrática; a corrupção é mais um show secundário. Como regra geral, ninguém consegue se tornar um bilionário sem boas conexões com os poderes políticos e econômicos do tempo e do lugar. Por exemplo, ele precisa de muito crédito antecipadamente, e isso requer garantia social ou material.

 

leia fausto

Eliana de Castro Written by:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP.

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