Como curar a dor de uma traição, Marina Abramovic?

Quem está diante das câmeras em “Espaço Além”: Marina Abramovic, uma mulher de 69 anos que como milhões de outras mulheres sofre a dor de uma traição amorosa ou Marina Abramovic, a mais famosa artista performática de nosso tempo?

Essa é, talvez, a pergunta definitiva do documentário “Espaço Além – Marina Abramovic e o Brasil”. É uma dúvida rasa diante dos inescrutáveis caminhos de cura que as religiões brasileiras propõem? Pode ser. Mas não deixa de ser legítima. Principalmente pela verdade óbvia de que dores emocionais, em maior ou menor grau, assombram a todos. E quem não gostaria de um caminho seguro e certeiro para curá-las?

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Mas este caminho só pode ser apontado por alguém “real”, “inteiro”, “verdadeiro”. Longe de poder oferecer uma resposta sobre qual Marina está ali, fica a reflexão sobre a cura como um processo com começo, meio e fim – e prazo.

“Espaço Além” posiciona diante das lentes do diretor Marco Del Fiol a Marina Abramovic em busca de um alívio para a dor da traição causada por seu ex-marido que partiu com outra. De olhos fechados, em 31 de dezembro de 2012, a artista diz que não deseja entrar em 2013 com aqueles sentimentos. As viagens que faz por diversas cidades do Brasil são para viver as mais conhecidas cerimônias religiosas: do ayahuasca a João de Deus, passando também pelo Vale do Amanhecer e por rituais das religiões afro. O documentário apresenta trechos emocionantes, assim como agonizantes.

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Em cada experiência, Marina faz o que tem de ser feito. Seja beber o chá que a leva a tremendas alucinações ou a tomar banhos de ervas e barro. Tudo é vivido diante das câmeras e a artista não assume uma postura de quem duvida. Longe de ser o cínico Stanley, o personagem de Woody Allen vivido por Colin Firth em “Magia ao Luar” (2014), que enquanto artista se considera imune ao sobrenatural, Marina Abramovic parece apenas percorrer um caminho que pode levar a crer em resultados garantidos. Quando não se pode comprar a volta do amor em três dias, que seja então possível estabelecer um prazo para o perdão e a cura. Mas quase nunca é…

É leviano, assim como desrespeitoso, tratar tudo como fraude – Maria Abramovic não o faria e nem o espectador deve fazê-lo. Os motivos que levam milhares e milhares a esses endereços não devem ser julgados por meia dúzia de crenças na razão e na ciência. É uma atitude arrogante sob qualquer perspectiva. No campo da dor humana a melhor leitura que se pode fazer é como humano. Por isso mesmo, duvidando sempre. Principalmente de si mesmo.

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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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