João Pereira Coutinho: “A liberdade de expressão já inclui o desrespeito”

Ele é do time dos politicamente incorretos. Ele é João Pereira Coutinho, jornalista, escritor e cientista político. Nascido no Porto, Portugal, esta às vésperas de completar 39 anos, dia 1 de junho. Há dez, estreou na Folha de S.Paulo, onde toda terça escreve sobre diversos assuntos, e vez ou outra causa alguma polêmica. Formado em História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, doutorou-se em Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, onde hoje é professor do Instituto de Estudos Políticos. Foi ainda acadêmico visitante na Universidade de Oxford e assina, desde 2009, textos para o jornal português Correio da Manhã. O rapaz de texto ágil e humor ainda mais ágil, aqui no Brasil publicou os livros “Avenida Paulista” (Record, 2009), “Por Que Virei à Direita” (com Luis Felipe Pondé e Denis Rosenfield; Três Estrelas, 2012) e “As Ideias Conservadoras – Explicadas a Revolucionários e Reacionários” (Três Estrelas, 2014). Há os que torcem o nariz para suas ideias e os que recebem bem suas ironias e deliciam-se com seus textos belamente escritos. JPC publicou o seu primeiro livro aos 19 anos! Com exclusividade, o escritor conversou com a jornalista Eliana de Castro e revela um pouco mais do que pensa e sobre quem é. Como o mesmo costuma dizer: voilá!

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Quem é você que os seus textos não dizem?
Uma joia de pessoa. Equilibrada, serena e incapaz de contar mentiras.

Dez anos depois de sua estreia na Folha de S.Paulo, você tem mais amigos ou inimigos brasileiros?
Tenho mais amigos. São imaginários, mas são amigos.

Escrever o salva ou o corrompe?
Salva-me e corrompe-me. Ou, se preferir, paga-me as contas, mas também dá hérnia de disco.

Você se lembra do primeiro texto autoral que o fez sentir plenamente realizado?
Felizmente, eu não me lembro do último texto que escrevi na semana passada. Essa amnésia, que alimenta generosamente o abuso e a inconsciência, é talvez a minha principal virtude como escritor.

Qual é a maior contradição da sua vida que teoria alguma conseguiu explicar?
Minha esquizofrenia autoral, creio. Sou como Dr. Jekyll e Mr. Hyde: com um pé na seriedade ensaística e o outro na criminalidade literária. Veremos quem vence no futuro: se o médico, se o monstro. Por mim, vivo bem com os dois, desde que nenhum deles se lembre de ajustar contas com o criador.

Considera-se um homem pós-moderno?
Como dizia o meu amigo (imaginário) Isaiah Berlin, eu gosto de passar o dia com os românticos – e passar a noite no conforto das Luzes. Serei um moderno pós-moderno (ou vice-versa).

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Sofre mais com a vaidade ou com o tédio?
A vantagem do envelhecimento é que as nossas dores são mais físicas que metafísicas. Sofro, sobretudo, com o reumatismo, a acidez do estômago e a insônia ocasional. A idade é ótima porque acaba com a vaidade e nunca há tempo para o tédio entre consultas médicas.

Já se arrependeu de ter escrito alguma coisa, e que hoje, ao reler, ou quando alguém menciona o assunto, sente-se mal?
Claro que sim. Também tenho uma consciência. Quando estou acordado, sóbrio – e com medo de apanhar.

A consciência nos torna covardes?
Talvez. Mas a covardia não é necessariamente um mal. Existe um filme, “The Americanization of Emily”, onde o personagem principal, um covarde em plena Segunda Guerra Mundial, afirma que se o mundo fosse um pouco mais covarde, os conflitos diminuíam consideravelmente. O problema, às vezes, não está na covardia. Está no excesso de destemor. A história do século XX teria sido diferente (e melhor) se Hitler tivesse sido um pouco mais covarde a partir de 1933.

Onde termina a liberdade de expressão e começa o desrespeito, e em casos específicos, até o crime?
A liberdade de expressão já inclui o desrespeito. Só um mundo infantil defende que devemos respeitar tudo e todos. Há situações ou pessoas que não merecem respeito – até para não haver desrespeito por nós próprios. O crime começa quando diferenças de opinião se convertem em armas de agressão. E, para isso, já existem tribunais, não censuras prévias.

Sofremos mais do mal de muito falar e pouco ouvir ou de interpretação de texto mesmo?
Sofremos mais do muito que não dissemos. Nem as pessoas, nem as palavras, devem ser poupadas. Para o bem e para o mal.

O amor e a fome ainda mantêm coesos os mecanismos do mundo?
A “fome” e o “amor”, não sei. Mas a “fome de amor”, não tenho dúvidas.

Qual o maior mito que persegue o conservador?
O mito de que ele é um conservador. Como dizia o outro, um conservador nunca se explica, nunca se justifica. E nunca se classifica.

Seríamos mais felizes se fossemos educados para a contemplação?
Seríamos mais felizes se fossemos educados para a felicidade. A cultura reinante promete a felicidade com os instrumentos que normalmente a destroem: o sucesso rápido, o dinheiro fácil e a aparência temporária. Três deuses que exigem muito e dão muito pouco em troca.

O que jamais falaria em uma entrevista?
A minha fórmula secreta para fazer omeletes perfeitas.

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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com