Luz da minha vida, Emil Cioran

“Sou tão triste e tão feliz que minhas lágrimas refletem o céu e o inferno com a mesma precisão”, escreveu Emil Cioran, luz da minha vida, em Nos cumes do desespero, seu primeiro livro, escrito em 1933 e publicado um ano depois, 1934. Cioran tinha apenas 22 anos. Eu, hoje, 35.

Nascido em 8 de abril de 1911, o filósofo romeno está entre os nomes mais pessimistas do cardápio do pensamento e, claro, indigesto para muitos. Amargor em prato frio.

Como alguém de alma tão distante é capaz de ser luz?

Emil Cioran Fausto Livro Nos cumes do desespero
Emil Cioran, filósofo romeno, autor de “Nos cumes do desespero”.

Porque assim o denomino, luz da minha vida. Em Cioran me encontro em poesia, em Cioran me organizo. Nele estão as minhas palavras: “Que nada reste além da minha assombrosa expansão subjetiva e meu desejo de luz e trevas.”

Ainda que soe demasiado triste, e faça correr léguas de mim qualquer um, seria desonesto não reconhecê-lo. Não dizer que com ele tenho tanto em comum – não menos ou mais do que gostaria – é enganar a quem desejo ardentemente conquistar, gente que nem sei quem é.

Da insônia, “ausência criminosa de esquecimento”, à solidão aguda, “quanta solidão é necessária para termos espírito!”, por honestidade intelectual devo admitir: minha pena embebece da tinta do seu lirismo. E, como bem diz: “Não há lirismo autêntico sem um grão de loucura interior.


Só Emil Cioran escreve Nada com N maiúsculo. Alguém mais? Seria respeito por algo a que nunca seremos capazes de vencer?


Corra! Está livre para afastar-se. Fique apenas se entende na própria pele o que são esses terríveis momentos de intensidade, os que se convertem ao Nada. Só Emil Cioran escreve Nada com N maiúsculo. Alguém mais? Seria respeito por algo a que nunca seremos capazes de vencer?

Mergulhe em Nos cumes do desespero. Ou melhor, suba-os. Sem ferramentas, em um único fôlego. Duvido que consiga. O livro é tão denso – mesmo em aforismos – que sem pausas pode durar para sempre o seu efeito e tornar irreversível uma volta à vida urgente que grita o seu nome e o meu.

É na solidão, que Cioran entende como necessária para ter vida interior, que é possível se conhecer – nela, me escondo estranhamente tranquila, embora eu saiba que há quem duvide. Houve um tempo em que eu tinha medo de saber quem eu era. Hoje, quem eu sou é que me faz suportar todo o resto. Meu humor afiado, que se diz presença de espírito, é como ele diz: “indica déficit de vida, muita solidão e sofrimento prolongado.”

“Uma lágrima sempre tem raízes mais profundas que um sorriso.” Não impeça o marejar dos olhos em qualquer sentença desse livro. Livros existem para nos acolher como somos. Diante deles não precisamos nos enganar ou enganar quem quer que seja. Nem a Deus ou aos demônios. Ora, Deus até pode se revelar através deles, embora sejam os demônios que os fazem ser escritos.

Cioran é este estranho amigo, inalcançável, aquele que não julga fraquezas íntimas. Diz ele, e sempre sorrio quando recordo: “Quem desaprova os estados caóticos não é criador, ao passo que quem despreza os estados doentios não tem o direito de falar sobre o espírito.”

Se não é luz quem é assim, não sei quem pode ser. Minha luz certamente o é.
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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