Francisco Bosco: “Esse escuro absoluto é a solidão do mundo”

Impera a sensação de termos sido roubados. O futuro é um elemento lúdico, primitivo, que existe para nos estimular a viver histórias. Impedidos de realizar o banal, refletimos sobre o longínquo. Perdemos a graça de brincar, perdemos o fio da meada. Onde havia o sonho, reina a interrupção; no lugar do abraço, o cumprimento distante e melancólico. A morte sempre foi mesmo a única que nunca precisou de máscaras. Ajuízam os de inteligência sensível. Sem liberdade, torna-se mais claro o que é ser livre. E é nesta atmosfera que inauguramos esse novo tempo de reflexão. Francisco Bosco, o filósofo doutor em teoria literária, imerso na arte e na vida, desfia com a FAUSTO o fio acabadiço desse futuro, hoje, inescapável ao pensamento.

Francisco Bosco
Francisco Bosco.

FAUSTO – É possível refletir sobre a morte sem a experiência da agonia?
Francisco Bosco:
Quando se é ateu, não creio. Afora o jogo de palavras, a condição para não se angustiar com a finitude é não pensar nela. Mas se nos permitirmos adentrar à ideia da finitude, estamos por definição no terreno da angústia. É uma espécie de vertigem, a um tempo cognitiva e física mesmo.

Sente também essa agonia?
Pessoalmente, a sinto em algum lugar entre a barriga e o peito. Lembro-me da primeira vez em que a senti, ainda quando criança. Desde então, é rigorosamente a mesma experiência. Procuro ter com a morte uma relação que eu chamaria de verdade oculta: sei que existe, mas mantenho esse saber encoberto. É deliciosa e verdadeira a boutade de Duchamp: “D’ailleurs, ce sont les autres qui meurent” [De resto, quem morre são os outros]. É uma forma espirituosa de dizer o mesmo que Blanchot, entre outros pensadores, observou: não há experiência da morte, em sentido estrito, porque vida e morte nunca coincidem. No instante em que a morte chega, não se está mais vivo para experimentá-la. Mas nada disso serve de consolo; há experiência da morte sob a forma da angústia, e é terrível. Como se não bastasse essa ideia, nas últimas décadas muitos de nós, que não somos negacionistas, temos feito a experiência da ideia da finitude da espécie humana. É, como se sabe, o campo do antropoceno. A humanidade já lidou com outras formas desse pesadelo de morte da espécie. São variações do tema bíblico do juízo final. Mas me parece ser a primeira vez em que coincidem a angústia do fim da humanidade e uma atmosfera espiritual em grande medida secular, laica.

Falar sobre o significado da vida, a partir de agora, requererá muito mais responsabilidade?
A maior transformação da responsabilidade sobre a vida vem das alterações climáticas. O desafio à frente é enorme, uma vez que desde a invenção do capitalismo a resposta das sociedades modernas aos problemas sociais se baseia no aumento da produtividade. Será preciso pensar em modelos econômicos capazes de conciliar aumento de produtividade e sustentabilidade, ou então abandonar o modelo capitalista de aumento de produtividade. Usei a palavra “pensar”, mas uma transformação dessa magnitude nunca acontece como efeito de ideias, dinâmicas racionais, organizadas etc. Mudanças dessa ordem são efeito do que a psicanálise lacaniana chama de Real. O coronavírus, por exemplo, é o Real. Algo que simplesmente se impõe e a humanidade tem que se adaptar.

Liberdade é uma ilusão? Do nascer ao morrer estamos presos às circunstâncias?
De uma perspectiva histórica, a espécie humana foi passando, digamos, do bem-estar da barbárie ao mal-estar da civilização. O homem do neolítico não conhecia leis escritas, o Estado, todo um conjunto de repressão pulsional que perfazem os temas tão bem estudados por um Nietzsche ou um Freud. Mas essa liberdade significava também a possibilidade permanente da morte iminente. Havia uma insegurança real nas origens da espécie humana. A cultura foi se formando como um sistema de proteção. A cultura é uma repetição que ordena, domestica o caos e a sua violência. No mundo pré-moderno, a cultura foi formando uma camada muito espessa de repetição que produziu uma normatividade rígida: não existia o indivíduo, senão como parte de um todo. Pense na condição de um homem no período medieval; nenhuma mobilidade de classe, nenhuma liberdade de pensamento, normas definidas em todos os aspectos da existência. A emergência da época moderna, como se sabe, tem justamente o sentido de romper com a normatividade da tradição e inaugurar a era do indivíduo, da História, do acidente – e da angústia. Perde-se em segurança, subjetiva e ontológica, o que se ganha em liberdade. Esse é o processo que vai de Copérnico, Giordano Bruno e Galileu até Locke, Descartes, Nietzsche, Sartre, entre tantos outros. Mas, como observa o filósofo conservador Michael Oakeshott, para toda modernidade há uma antimodernidade. Um empuxo reacionário está sempre presente, em maior ou menor grau, tentando reverter essa equação entre liberdade e segurança psíquica. Dito de outro modo, para muitas pessoas a segurança dos valores tradicionais é uma forma superior de liberdade à indeterminação radical moderna, onde o sujeito pode ser o que quiser, idealmente falando.

Quem tem mais chances de ser livre?
Numa perspectiva de classe, é claro que os bem nascidos. Sem que isso deixe de ser verdade, entretanto, a liberdade é muito mais complexa do que isso.

Qual é a diferença entre sentir-se sozinho no mundo e sentir a solidão do mundo?
Eu entendo sentir-se sozinho como uma experiência subjetiva de ordem social: um isolamento, seja de natureza intelectual, política ou afetiva. Já fazer a experiência da solidão do mundo é algo de natureza ontológica. Somos sujeitos descontínuos, ninguém efetivamente se comunica com ninguém, não sabemos como surgimos, para onde vamos, não sabemos, no fundo, nada sobre o universo. Esse escuro absoluto é a solidão do mundo. E tudo o que construímos, desde sempre, é para não o vermos.

O mundo em redes é o alívio que nossos antepassados não viveram em tempos sombrios?
Penso que em geral redes sociais digitais são antes da ordem da compulsão do que do alívio. Mas nessa situação específica de uma pandemia que atinge a socialização concreta, física, elas podem sim ser experimentadas como um alívio e um fator propiciador de coordenação.

Viveremos sob novos paradigmas de vigilância e de consumo?
Cedo para dizer. Durante a pandemia, é natural e mesmo desejável que alguns direitos e liberdades individuais sejam suspensos em nome de um bem maior. É também natural que em situações de ameaça as liberdades sejam postas em segundo plano. É como quando se está gravemente doente. Você não se importa que seu médico diga que você não pode beber. Você só quer se curar. A preocupação fundamental é com a sobrevivência. Mas, com o tempo, será também natural que dilemas difíceis surjam. Basicamente, muitas pessoas se perguntarão: “que formas de vida valem a pena serem vividas?”. Vale a pena viver sem liberdade? Até que ponto? O filósofo Giorgio Agamben, por exemplo, está pensando essa questão desde os primórdios das medidas restritivas na Itália.

O que chamaremos de novo luxo?
Depende do que acontecerá com a pandemia. Se o mundo se livrar dela em relativamente pouco tempo – digamos, um ano – creio que a tendência é o capitalismo voltar com tudo, em busca do tempo perdido. Mas se a atual experiência se prolongar, surgirão problemas que não poderão ser resolvidos nos termos atuais. Problemas econômicos e sociais. Do ponto de vista lógico, me parece evidente que a melhor forma de equacionar o déficit fiscal gigantesco por vir seria uma reforma tributária radical, como aquelas que aconteceram, justamente, em períodos de colapso social, como a segunda guerra mundial, que deu origem à social democracia. Do ponto de vista da real politik, a tendência é que se insista nas respostas erradas o quanto for possível.

No Brasil, o que vale menos: a vida ou a memória?
A vida. O Brasil já era um dos grandes cases de necropolítica no mundo; agora, com Bolsonaro, a gestão da morte foi alçada a outro patamar.

O que aprenderemos agora que não aprendemos com o Holocausto?
É cedo para dizer se aprenderemos alguma coisa. A pandemia está revelando uma série de fraquezas, que vão desde o sistema de produção mundial – é um evidente erro sistêmico a China concentrar a produção de insumos para produtos fundamentais – até a falta de coordenação política internacional e nacional, em diversos países. Mas tudo isso transcorre em meio a forças que tendem a negar a existência desses problemas e dobrar a aposta nos erros. Uma hora o Real se impõe.

 

Damas e cavalheiros,
Agradecemos muitíssimo a leitura! Esperamos que tenha apreciado essa conversa com o nobre cavalheiro Francisco Bosco. Gostaríamos de deixar o singelo convite para nos acompanhar em nosso perfil inteirinho em preto e branco no Instagram. Belíssimo! Estamos à espera também no Facebook. Será para nós uma honra! Ah, indicamos o livro de Francisco Bosco: A vítima tem sempre razão?

Caso deseje ler sobre um assunto relacionado ao citado por Francisco Bosco, temos uma entrevista com Wolfgang Streeck, sociólogo alemão, diretor emérito do Instituto Max Planck, autor de How will capitalism end?

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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