Julián Fuks: “Sem literatura, se arraigaria em nós um empobrecimento da experiência”

É na vida de imaginação que encontramos primeiro as soluções da vida concreta. Se não entramos duas vezes no mesmo rio, como disse Heráclito, não é o mesmo aquele que começa e encerra um livro. Julián Fuks, o premiado escritor paulistano, um dos nomes mais aclamados entre os jovens talentos, viaja conosco numa entrevista lúdica, original e restauradora do mínimo de devaneio que precisamos para chegar ao fim do dia. Devotos da literatura, um dos poucos consensos entre os deuses, brincamos de ser personagem, ser cânone e ser destino. Exclusivo para a FAUSTO.

Julián Fuks
Julián Fuks.

FAUSTO – Se tivesse tido a chance, qual livro teria lido para Jorge Luis Borges?
Julián Fuks: É boa essa primeira pergunta, porque me coloca em um lugar de desejo. Sempre invejei esses afortunados que puderam ler para o Borges, além de travar um diálogo numa circunstância tão especial como essa. Se eu pudesse me encontrar ali e escolher livremente, algo que talvez ele não deixasse, eu escolheria ler Machado de Assis.

Por quê?
Acho que Borges negligenciou bastante os nossos escritores do Cone Sul, com atenção excessiva só aos anglófonos. Faltou a ele um olhar mais apurado para tantos dos que estavam ao redor. E, para além disso, lendo Memórias Póstumas de Brás Cubas, lendo os contos e Dom Casmurro, tenho certeza de que eu testemunharia o encontro de dois gigantes, um grandessíssimo escritor e um enorme leitor que Borges se arvorava de ser.

Qual cena de um clássico ousaria reescrever?
Reescreveria o momento em que Miguilim, do Guimarães Rosa, descobre que precisará usar óculos. Reescreveria, no entanto, à maneira de Pierre Menard, aquele sujeito que se dispôs a escrever, palavra por palavra, todo o Dom Quixote. Reescreveria essa cena do Guimarães Rosa simplesmente para reencontrar o prazer de cada palavra ali, além de poder eu mesmo me fazer autor desse que é um dos momentos mais brilhantes de toda a literatura brasileira.

Vilém Flusser fugiu da Tchecoslováquia com um exemplar de Fausto, do Goethe, e um livro judaico de orações. Se tivesse que se exilar, quais livros levaria?
Costumo me munir de certos livros cativos, livros que sempre andam comigo ou estão por perto para eu pensar determinadas situações, questões e temas. Se está em questão, nesta pergunta, o exílio, penso de imediato em dois autores, com quem gosto de travar intimidade como leitor: Natália Ginzburg, sobretudo As pequenas virtudes. A clarividência que encontramos nos ensaios dela, e pode parecer estranho dizer isso de uma grande autora, ela acaba nos ensinando a viver, nos ensinando a pensar.

E o outro?
O equivalente ao livro de orações seriam os poemas sobre exílio de Juan Gelman, que também com lucidez impressionante retratam o sentimento de isolamento da falta, a nostalgia que nos causa, a distância, enfim, tudo isso que me parece riquíssimo nos poemas dele; um tanto triste, sim, mas de uma tristeza que nos emancipa, nos leva para outra direção. Eu ficaria com esses dois livros, se eu pudesse abraçá-los para atravessar fronteira.

Se esses três professores estivessem a seu dispor, em aulas presenciais, mas pudesse escolher assistir apenas um, qual seria: Harold Bloom, George Steiner ou Vladimir Nabokov?
Não tenho absoluta certeza de que encontraria grande prazer em ser aluno dessa tríade. Entretanto, tendo um para escolher, seria Nabokov, que me parece o mais brilhante entre os três, um escritor de imensa envergadura. Lamento, por outro lado – e lamentaria bastante sendo aluno dele – todo o universo questionável do seu caráter, a imensidão de posturas e ideias antipáticas, para dizer o mínimo; ou nocivas, para dizer algo mais forte. Contudo, ainda assim sinto que há uma interlocução importante aí. Além do mais, sempre devemos ouvir as pessoas, mesmo que desprezemos parte de suas ideias. O exercício de ouvir o diferente é fundamental para que possamos repensar nossas próprias convicções.

Se fosse o pior algoz de todos os tempos, qual livro faria sua vítima, em cativeiro, decorar para recitar até o fim da vida?
Ninguém Nada Nunca, de Juan José Saer. É um livro árido, repetitivo, denso e de aparente vazio de sentido, um livro que propõe uma leitura cansada, nada fluida, nada ligada ao prazer, à primeira vista, ao menos.

Agora deu vontade de ler, pelo desafio!
Dou essa resposta um pouco improvisada e percebo que fui, em algum momento, algoz de mim mesmo, porque esse livro foi o objeto de pesquisa do meu mestrado. Ou seja, foi o livro que li mais vezes em toda a minha vida e quando decidi estudá-lo achei que havia algo de importante a ser assimilado ali, justamente pela experiência profundamente desagradável da leitura, a que tive da primeira vez. Depois de muitas outras leituras, claro, se transformou em algo muito mais íntimo e profundo. Então, é essa primeira experiência, de certa repulsa até, algo que não esqueço, é isso que eu gostaria de impor à minha vítima.

Quem é a mulher mais interessante da literatura, que você convidaria para um jantar?
Se há algum escritor ou escritora que me coloca na posição de fã, na posição de quem ouve e admira, é a Clarice Lispector. Não a levaria para um jantar, mas deixaria que ela me levasse. Eu iria pianinho, acompanharia os passos dela e simplesmente me colocaria a ouvir o que quer que ela tivesse a dizer, porque, em cada frase, de tantas maneiras, e de maneiras tão complexas – às vezes tão obscuras –, ela alcança a genialidade. Só de estar perto disso seria um prazer imenso.

Se pudesse ser um personagem de um clássico, quem seria?
Eu seria o Horacio, de O Jogo da Amarelinha, do Cortázar. Não pela admiração do sujeito em si, que em tantos aspectos chega a ser um fraco, um covarde; perdido e desorientado, numa leitura talvez mais dura. Mas o que me levaria a ser o Horacio é para poder viver no mundo de Cortázar, conseguir existir naquela exuberância narrativa, exuberância de sentidos, em todos os aspectos; exuberância de significações e de vivências sensoriais. Se para viver no grande romance do Cortázar eu tivesse que me transformar no Horacio, não sei, talvez valesse a pena..

E se, de repente, perdêssemos a capacidade de ler? Um a um, todos nós, como em Ensaios Sobre a Cegueira, do Saramago. O que seria de nós?
Em um primeiro momento, pouco se notaria a diferença, mas só em um primeiro momento. Com o tempo, sem a literatura, arraigaria-se em nós um empobrecimento da experiência, um empobrecimento do diálogo, da capacidade de compreensão de tudo o que nos cerca e, talvez – principalmente – o empobrecimento da capacidade de conhecermos a nós mesmos. Pouco a pouco nos tornaríamos sujeitos deslocados, desconfortáveis em nossos próprios corpos, incapazes de diálogo mais ricos, incapazes de ideias novas. A literatura pode manifestar momentos de inutilidade, e a inutilidade pode ser uma de suas funções primeiras, mas na prática, se levada essa ideia até as últimas consequências, veríamos que a literatura desempenha um papel impressionante.

Como seria o protagonista de sua história de terror se tivesse sido desafiado junto com Byron, John William e Mary Shelley?
A princípio, eu deveria me deslocar para outro tempo, outro espaço, cenário e atmosfera, mas vejo que é difícil não enxergar, hoje, em nosso país, na insensatez que tem vicejado, na brutalidade de tudo que temos visto, no caráter tão destrutivo de tudo o que nos cerca, é impossível não pensar neste cenário de hoje, e em nosso lugar, como o mais aterrorizante de todos, e perfeito para um livro de terror. Para ser mais preciso, já que sua pergunta é sobre um protagonista, esse protagonista seria um jovem negro da periferia.

Qual livro o deixou certo de que queria ser um escritor?
Talvez, essa seja a resposta mais sincera entre todas que dei: lembrar-me do Italo Calvino e do papel que ele teve em minha adolescência. A leitura de fascínio e de entrega que tive de alguns de seus romances tão simples: O cavaleiro inexistente, O barão nas árvores, O visconde partido ao meio. São livros riquíssimos em fábula, muito diferentes de qualquer coisa que eu tenha me proposto a fazer, depois. Contudo, creio que aquele prazer na leitura, e uma tentativa de recompor na página algo dessa experiência, sempre estiveram na base do que me fez querer ser escritor.

 

Nobre dama ou nobre cavalheiro,

Desejamos que tenha apreciado nossa diferente entrevista com o nobre Julián Fuks. Foi uma experiência muito divertida para nós, divertida. São perguntas que paramos para pensar, muitas vezes. Quem sabe até respondamos um dia! Aproveitando a deixa, como dizem por aí, já segue nossas redes sociais? Que tal o nosso belíssimo Instagram? E de Julián Fuks, indicamos o livro Procura do Romance.

 

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

Os Comentários estão Encerrados.