Georges Bataille: “O que designa a paixão é halo de morte”

Georges Bataille é o autor do erotismo. Vivido no século XX, tornou o transgressivo mais fácil de entender, sem tantas cismas. Nascido em 1897, em Billom, França, assina suas primeiras obras com pseudônimo. No subsolo do seu pensamento mora Marquês de Sade. O filósofo e ensaísta francês morre em 1962. Último entrevistado da Série Além – Entrevistas do outro mundo, prestamos tributo a Bataille, recebendo-o na FAUSTO como uma forma de celebrar isso que para nós também é sagrado: o erotismo. A linguagem é erótica, o texto é erótico, a literatura, essa que não podemos viver sem, é erótica e é a paixão que em nós inflama que nos dá coragem para enfrentar tudo, até a morte. Como escreveu nosso convidado: “A literatura é mesmo, como a transgressão da lei moral, um perigo. Sendo inorgânica, ela é irresponsável. Nada repousa sobre ela. Ela pode dizer tudo.” Convidamos para essa reflexão todo aquele que escreve ou lê apaixonadamente.

Georges Bataille
Georges Bataille.

FAUSTO – O que é o erotismo?
Georges Bataille: É a aprovação da vida até na morte. Propriamente falando, não é uma definição, mas penso que essa fórmula dá sentido ao erotismo melhor do que qualquer outra.

Somente os homens fizeram da atividade sexual uma atividade erótica?
A atividade sexual de reprodução é comum aos animais sexuados e aos homens, mas, aparentemente, apenas os homens fizeram de sua atividade sexual uma atividade erótica, ou seja, uma busca psicológica independente do fim natural dado na reprodução e no cuidado com os filhos.

O senhor diz que o erotismo é a “exuberância da vida”. Muito bonito isso!
Toda a operação do erotismo tem por fim atingir o ser no mais íntimo, no ponto em que o coração desfalece. A passagem do estado normal ao de desejo erótico supõe em nós a dissolução relativa do ser constituído na ordem descontínua. Esse termo, dissolução, corresponde à expressão familiar vida dissoluta, ligada à atividade erótica. No movimento de dissolução dos seres, o parceiro masculino tem em princípio papel ativo, a parte feminina é passiva. É essencialmente a parte passiva, feminina, que é dissolvida enquanto ser constituído. Mas, para um parceiro masculino, a dissolução da parte passiva só tem um sentido: ela prepara uma fusão em que se misturam dois seres chegando juntos, no final, ao mesmo ponto de dissolução.

É de fato muito bonito. Penso, inclusive, que é raro. Porque, de alguma forma, pode levar ao tormento.
Para aquele que a experimenta, a paixão pode ter um sentido mais violento do que o desejo dos corpos. Jamais devemos esquecer que, a despeito das promessas de felicidade que a acompanham, ela introduz, antes de mais nada, a perturbação e a desordem. A própria paixão feliz acarreta uma desordem tão violenta que a felicidade de que se trata, antes de ser uma felicidade de que seja possível gozar, é tão grande que se compara ao seu contrário, ao sofrimento.

Sim, totalmente. Esse é o sentido da paixão no senso comum. Paixão no é felicidade.
A paixão nos repete incessantemente: se possuísses o ser amado, esse coração que a solidão estrangula formaria um só coração com o do ser amado. Ao menos em parte, essa promessa é ilusória. Mas, na paixão, a imagem dessa fusão toma corpo, às vezes de modo diferente para cada um dos amantes, com uma louca intensidade.

Por que em partes? Há verdade nisso?
Para além de sua imagem, de seu projeto, a fusão precária, que reserva a sobrevida do egoísmo individual, pode até entrar na realidade. Não importa: dessa fusão precária e ao mesmo tempo profunda, é o sofrimento – a ameaça de uma separação – que, a mais das vezes, deve manter a plena consciência.

Consciência do quê?
De duas possibilidades opostas. Se a união dos dois amantes é o efeito da paixão, ela evoca a morte. O desejo de assassinato ou de suicídio. O que designa a paixão é halo de morte.

Qual é a relação desse pensamento com Marquês de Sade?
Há na passagem da atitude normal ao desejo uma fascinação fundamental pela morte. O que está em jogo no erotismo é sempre uma dissolução das formas constituídas.

E essa fascinação é capaz de nos fazer esquecer tudo?
A perturbação erótica imediata nos dá um sentimento que ultrapassa tudo, de tal forma que as sombrias perspectivas ligadas à situação do ser descontínuo caem no esquecimento.

Ou seja, o erotismo é um dos aspectos da vida interior do homem, como o senhor escreveu.
Enganamo-nos quanto a isso porque ele busca incessantemente no exterior um objeto de desejo. Mas esse objeto responde à interioridade do desejo.

Qual a diferença entre erotismo e sexualidade animal?
O erotismo do homem difere da sexualidade animal justamente por colocar em questão a vida interior. O erotismo é, na consciência do homem, o que nele coloca o ser em questão.

Que profundo.
A sexualidade animal também introduz um desequilíbrio, e esse desequilíbrio ameaça a vida, mas o animal não o sabe.

Na literatura podemos viver o erotismo e tudo o mais?
O caráter gratuito dos romances, o fato de que o leitor está de toda maneira ao abrigo do perigo, impede normalmente de ver isso com clareza, mas vivemos por procuração o que não temos a energia de viver nós mesmos.

E às vezes a possibilidade de viver nós mesmos.
Se dispuséssemos sem conta de recursos morais, amaríamos viver assim nós mesmos. Quem não sonhou ser o herói de um romance? Esse desejo é menos forte do que a prudência – ou a covardia –, mas se falamos da vontade profunda, que apenas a fraqueza impede de realizar, as histórias que lemos com paixão nos oferecem seu sentido.

Para finalizar, vamos falar um pouco da filosofia…
Em geral, o erro da filosofia é se afastar da vida.

A filosofia – assim como a ciência – não tem respostas definitivas e está em constante movimento?
Uma filosofia é sempre um canteiro de obras, nunca uma casa. Mas seu acabamento não é o mesmo da ciência. A ciência elabora uma multidão de partes acabadas e só o seu conjunto apresenta vazios. Uma filosofia é uma soma coerente ou não é nada. Consequentemente, ela deve manter uma abertura aos desenvolvimentos que se seguirão no pensamento humano. É então um ato de consciência não buscar um estado definitivo que nunca será dado, mas sem por isso deixar de levar a elucidação ao limite das possibilidades imediatas.

 

Nota 1: Devo a ideia da série ao grande escritor Mario Prata, quem me impressionou pela genialidade e criatividade, em 2015, com o maravilhoso livro Mario Prata entrevista uns brasileiros.

Nota 2: Todas as respostas são trechos autênticos dos livros de Georges Bataille. Nada foi alterado ou adaptado. Tive o imenso cuidado de preservar a integridade de seus pensamentos.

Referências Bibliográficas
BATAILLE, Georges. O erotismo. Belo Horizonte: Autêntica, 2014.
BATAILLE, Georges. Teoria da religião. Belo Horizonte: Autêntica, 2016.
BATAILLE, Georges. A literatura e o mal. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

 

Eliana de Castro Written by:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP.

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