Sheikh Mohamad Al Bukai: “O Islã é garantia de felicidade para a vida toda”

Quando Religião no Contemporâneo começou, não imaginávamos que tamanho horror pudesse acontecer diante de nossos olhos: a execução de dezenas de muçulmanos ao vivo, para todo o mundo. Não, não era mais uma cena de Black Mirror. Se havia qualquer dúvida sobre a importância de falar sobre religião em nosso tempo, acabou ali. Ponto de tensão, de dúvida, de curiosidade, de aceitação, o Islã quase sempre vem às pautas pela violência que a ele dá-se o crédito. Humildade para aceitar que há uma forma completamente diferente de viver? Difícil. Parte da série de eventos realizada pelo Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo, sob direção de Luiz Felipe Pondé, FAUSTO apresenta, com exclusividade, o sheikh Mohamad Al Bukai. Nascido na Síria, vive há mais de dez anos no Brasil. Uma lição de escuta, de alteridade. De ambas as partes. Assim como deve ser.

Sheikh Mohamad Al Bukai
Foto meramente ilustrativa para a entrevista com Sheikh Mohamad Al Bukai da Série Religião no Contemporâneo.

FAUSTO – O que sua religião tem a oferecer?
Mohamad Al Bukai: Não é a minha religião, mas a religião de Deus que eu represento. Religião é uma receita divina. Algo que o ser humano precisa. Religião é uma necessidade humana. Assim como precisamos de ar para respirar, de água para beber, de comida para sobreviver, precisamos de religião para sermos felizes, para a vida ter sentido. Deus criou tudo de forma completa.

Mas posso rejeitá-la…
Para explicar o que é religião, costumo fazer uma analogia. Religião é como água. E nunca conheci alguém que não beba água. Não importa a nacionalidade, a cor, a cultura, todos tomam água. Por que essa bebida é aceita e necessária em todo o mundo? Porque ela não tem cheiro, não tem cor, não tem sabor. Sempre quando colocamos água à disposição, todos bebem. [Aponta para a água próxima a mim, que eu já havia bebido]

Sim…
Contudo, quando a misturamos com algo, seja café ou chá, algumas pessoas não tomam mais. Umas porque não gostam de café, outras porque não gostam de chá. Água pura atende a nossa sede, combina com o nosso corpo, mas é preciso deixá-la como Deus a criou, pura, cristalina. O problema das religiões é que nelas foram misturadas outras coisas. Deixando a religião como Deus a criou, todo mundo vai querer.

Como define a sua religião?
Como a receita divina para a felicidade do ser humano. Nada mais do que isso. Deus não deseja que soframos. O sofrimento vem do uso errado do livre-arbítrio. Quando o ser humano segue o desejo e não a verdade.

Por que temos tanto medo dos muçulmanos? “Temos” no sentido ocidental e não-muçulmano.
[Sorri] Também achamos estranho que tantas pessoas tenham medo de nós. Lembro-me de uma vez ter lido uma história sobre uma criança, prisioneira, que foi criada sob o alerta de que o som da sirene da polícia significava que ela seria levada embora. Só que “ser levada embora” para ela não significava ser livre, pelo contrário. Então, essa criança cresceu fugindo da única coisa que poderia salvá-la. O Islã é algo divino, significa paz.

O sheikh percebe esse medo nas pessoas?
Nas redes sociais, sim.

No trato real, não? Mercado, padaria…
Não. Aqui no Brasil, não. E estou aqui há doze anos. Aqui, há respeito, curiosidade, e até admiração. O que aconteceu é que a partir do 11 de Setembro a mídia ocidental começou a tratar o Al-Qaeda e o Estado Islâmico como práticas do Islã. Eu mesmo fico com medo às vezes porque a maioria das vítimas do terrorismo é muçulmana. Só que criminoso é criminoso, não importa a religião.

Assistiu ao vídeo do atentado à mesquita de Al Noor, em Christchurch, na Nova Zelândia?
Sim. Muito forte. Chocante.

Qual pensamento predominou?
Fiquei em choque. De onde surgiu todo aquele ódio? Onde ele aprendeu tudo aquilo? E acontecer em um país onde não tem esse tipo de coisa…

Sim, pensei algo assim também. Poderia ter sido aqui, no Brasil, onde também não existe esse tipo de coisa…
Sim.

Refleti muito sobre o meu papel como parte da mídia, além do meu veículo que tem como pano de fundo os assuntos de religião. O que eu devo fazer para amenizar isso, compreende?
Sim… Os ataques nas redes sociais são muito cruéis. Muitas vezes usam versículos do Alcorão fora do contexto. E fazem isso para atacar mesmo. A leitura do Alcorão não é para qualquer cidadão. Para fazer uma leitura correta da Constituição Federal uma pessoa precisa estudar, no mínimo, cinco anos. E estamos falando de algo humano, imagina divino! Quanto preparo é necessário? E não só isso, tem a ver com purificação também. Para falar em nome de Deus não basta conhecimento.

É possível falar de religião islâmica sem falar de política?
Claro. O projeto do Islã não é apenas para esta vida. Esta vida é apenas uma ponte para a vida verdadeira, que chamamos de Vida Eterna. Não é objetivo do Islã ter um governo, por exemplo. Não existe uma forma política, nem no Alcorão algo parecido com “como governar”. Existem, sim, valores que o Islã exige de um governo: a justiça, a igualdade. São os direitos humanos. Agora, a forma como esses valores devem ser aplicados pode variar de uma época para outra, ou de um regime para outro, podendo ser aplicado numa democracia ou numa monarquia. O mais importante, contudo, é o foco da religião.

E qual é?
O foco da religião é o ser humano. O propósito da religião é fabricar seres humanos. Quando temos um ser humano bem preparado, bem formado, tudo dá certo. E o que seria esse “fabricar”? É no sentido espiritual, mental. Trata-se do preparo para a vida. Quanto vale a democracia sem educação?

Faz sentido.
Se abrir o Alcorão – a Bíblia ou qualquer outro livro sagrado – você encontrará um discurso dirigido para a consciência do ser humano. O objetivo é ter um ser humano ligado com o seu Criador, um ser humano que não precisa de câmera ligada para fazer o que é correto, que sabe para quem presta contas. Ou seja, alguém preparado para lidar com o outro. É isso o que a religião faz: cria uma pessoa honesta, sincera. Trata-se de valores, para além da coisa chata do “faça” ou “não faça”. São como as orientações de um médico. Sabemos que são para o nosso bem. Então, quando Deus fala comigo, é a mesma coisa. E por que fico chateado? Ele sabe melhor do que eu, Ele me ama. Nem tudo aquilo que é gostoso é saudável.

Islamismo e democracia são incompatíveis?
Uma coisa não contraria a outra. Claro, existe uma diferença…

[Dá risada] Sim, existe…
Alguns valores o ser humano não pode mudar. A democracia em um país islâmico pode ser um pouco diferente porque existem questões que não têm divergência.

Por exemplo?
Se o povo de um país islâmico decidir que a bebida alcoólica é lícita, isso não será válido. Não será porque Deus proibiu. É algo bem claro. Há milhares de outros exemplos. A jurisprudência islâmica é muito ampla. Então, neste caso, não importa o que o povo decidiu. Além do mais, trata-se de questões que se forem mudadas, o ser humano sofrerá. E Deus é o criador, Ele é quem sabe.

Mulheres que estão se convertendo ao Islã estão em busca exatamente do quê? Porque parece contraditório depois da conquista de tantas liberdades converterem-se a uma religião que “oprime”. [Faço gesto de entre aspas]
Entre aspas. [Sorri]

Entre aspas, com certeza! Entretanto, se eu decidisse me converter – considerando minha personalidade, meu jeito de me vestir, meu jeito de falar, tenho total certeza que amigos estranhariam e considerariam um retrocesso…
Como uma mulher na França decide pelo uso do hijad, lá que é o símbolo da liberdade… Aqui, teríamos que voltar para o significado de liberdade. Só que cada um entende e pratica a liberdade de uma forma distinta. É comum pensar que menos roupa é mais liberdade e mais roupa é menos liberdade. Contudo, para uma pessoa a roupa pode significar outra coisa: proteção, por exemplo. E a pessoa faz o que acha melhor. Poder decidir é que é liberdade. É isso que a Lei tem de garantir para cada um, cada uma – por motivos religiosos ou não. Ninguém fala, por exemplo, que as freiras são oprimidas.

Verdade.
As freiras são vistas como santas…

Mulheres que fizeram uma escolha bonita, nobre…
Enquanto as muçulmanas são oprimidas. [Dá risada]

Faz sentido.
Algumas dessas mulheres, em seu modo ocidental de viver, se sentem usadas. Elas são obrigadas a seguir um padrão e quando saem dele são desvalorizadas. Algumas mulheres ficaram com raiva disso. Elas não são apenas corpo, nem idade. Quando ficam mais velhas, perdem o valor, são substituídas. O Islã quer a liberdade de pensamento da mulher, porque ela tem muito a oferecer para a sociedade: sua capacidade, sua inteligência, seu carinho, seu amor. Deus preparou a mulher para ser mãe, ser irmã, para ser. O corpo da mulher não tem que ser avaliado, por exemplo. Isso não existe no Islã. Algumas mulheres ocidentais estão cansadas disso.

Há outros motivos?
Outro motivo é a família. O Islã realmente preserva a família. A maternidade tem sido um motivo também, porque é algo forte. E a mulher que deseja ser mãe quer alguém ao seu lado. Ela não quer alguém apenas enquanto é jovem, porque a vida não é só juventude. O Islã é garantia de felicidade para a vida toda. Para as quatro estações, não só a primavera. E a dignidade da mulher deve ser mantida a vida toda, e não como acontece no mercado. O ser humano tem que sair desse “capitalismo”. Não pode mais querer ser visto como objeto. Ele é o foco da criação.

Que bonito isso.
A mulher que não usa o hijad não deixa de ser muçulmana. Muitas mulheres não usam. Elas rezam, praticam jejum…

Isso não é secularização?
É, mas não tem problema.

Não tem problema?
Não. Por isso digo que não é opressão. Opressão é quando o marido obriga. Só que a mulher muçulmana não usa o hijad por causa do marido, usa por causa de Deus. Claro, pode haver casos, mas no sentido religioso não é por causa do marido. Deus fala diretamente à mulher sobre isso.

Qual é o papel do dinheiro na aceitação do Islã em um futuro médio e longo? Por exemplo, uma pessoa resistente passa a ter melhores propostas de emprego, melhor condição de vida, até de prosperidade, e essa perspectiva faz com que se torne mais receptiva à religião…
[Entristece] Isso não pode acontecer. Quem aceita por essa razão perderá muito…

Mas não é um cenário difícil de prever para o futuro…
A pessoa pode perder mais do que ganhar. A riqueza da fé é muito maior do que a riqueza do dinheiro. E isso cabe para todas as religiões.

 

 

Eliana de Castro Escrito por:

Fundadora da FAUSTO, é escritora, mestre em Ciência da Religião e autora do romance NANA.