Stephen Greenblatt: “Lembro-me de meus pais dizendo: ‘Stevie, largue o livro; você machucará seus olhos.'”

Uma celebração da literatura! Assim decidi que seria esta série de entrevistas, que começa com o ilustríssimo e gentilíssimo Stephen Greenblatt, um dos mais importantes historiadores do mundo, além de crítico literário dos mais apaixonados – e pela segunda vez aqui! Decidi porque não tem como ser diferente, uma vez que o amor à literatura é o ponto que nos une em meio a tantas singularidades. FAUSTO tem se tornado um canto seguro no qual a imaginação é cara, preservada com carinho e poesia, assim como tentamos manter vivo o olhar apurado sobre as singelezas do mundo. E que privilégio ter isso como missão! Decidi também que, diferentemente do que faço, escrevendo de maneira impessoal a abertura de cada entrevista, estas serão escritas em tom mais íntimo, porque minha intenção é, sim, fazer com que se sinta como se estivesse entrando em minha casa para tomar um chá e conversar sobre os livros e a magia que nos transformam a cada página virada. Por que Greenblatt? Por sua vida dedicada à literatura a por torná-la ainda mais incrível para nós. Fique à vontade.

Stephen Greenblatt para o aniversário de três anos da FAUSTO.

FAUSTO – Por que lemos? Quando poderíamos fazer qualquer outra coisa…
Stephen Greenblatt: A leitura é a forma quintessencial de absorção. E como nas experiências mais profundas de absorção, nos encontramos e nos perdemos ao mesmo tempo.

A leitura foi um hábito cultivado por sua família? Como era em seus anos de criança e adolescência?
Dada a maneira como acabei, cercado por livros empilhados até o teto e por todos os lados, é surpreendente como havia poucos livros no pequeno apartamento onde passei meus primeiros anos e onde minhas memórias começam.

É mesmo!?
A verdade é que não me lembro de nenhum livro ali, e certamente nenhum livro infantil, embora eu diga a mim mesmo que minha mãe deve ter lido um pouco para mim. Meu irmão mais velho, Marty, garante que se lembra de alguns exemplares de Little Golden Books. Lembro-me de fingir que a cerca de ferro forjado da minha pequena varanda era uma gaiola e que eu era o leão rugindo como aqueles que ela me levava para ver perto do Franklin Park Zoo.

Do que mais se lembra?
Lembro-me de desenhar figuras com giz de cera e contar histórias sobre elas. Tenho lembranças intensas de minha mãe me contando histórias – do meu aconchego no colo dela e dela sussurrando no meu ouvido; ou, mais tarde, do meu sentar numa cadeira de madeira na cozinha e ela se inclinando para mim, desenrolando uma história.

Que bonito isso…
Minha mãe era particularmente boa nisso, ou assim me pareceu. Mesmo com essa grande distância, e com ela há muito desaparecida do mundo e com o meu próprio desaparecimento pairando no horizonte, sinto a intimidade desses momentos. Mas desde a minha infância eu não consigo invocar um único momento em que ela ou meu pai abriram um livro e começaram a ler para mim. Mais tarde, é claro, isso mudou e, quando eu era adolescente, eu já era um “rato de biblioteca”. Lembro-me de meus pais dizendo: “Stevie, largue o livro; você machucará seus olhos.”

Tem alguma memória marcante em que um livro faz parte?
Entre os poucos livros de nossa casa, os mais proeminentes eram os doze volumes pesados, encadernados em couro trabalhado, da Enciclopédia Judaica, comprados por meu pai em memória de seu pai. Em sua grandeza e peso, esses tomos eruditos, altamente renomados até hoje como um monumento culminante do que os alemães chamavam de Wissenschaft des Judentums [ciência dos judeus], eram uma anomalia em nossas escassas prateleiras. Eu os achava fascinantes, não por causa dos artigos, que eram escritos da maneira sóbria e impenetrável típica da erudição germânica, mas por causa das inúmeras fotos e mapas, muitas das quais eram dobradas ou cobertas por transparências.

Mais lúdico.
Mas havia outra fonte de fascinação. Se eu vasculhava tempo suficiente, encontrava muitas coisas entre as páginas: velhas cartas, fitas, flores prensadas, até mesmo um corpete inteiro com um laço rosa.

Que legal! Esses livros continuam contigo?
Eu os tenho guardados em minha sala em Cambridge, mas essas lembranças que uma vez me maravilharam já se foram, exceto o corpete que ainda está impresso no volume 5, entre Estrumsa, “uma família judia oriental que produziu vários autores rabínicos” e ‘Et Sha’are Razon, um longo poema a respeito de Isaque amarrado sobre o altar, escrito por Juda ben Samuel ibn Abbas, um rabino de Fez [Marrocos] do século XII. Entendi que cada um desses passageiros clandestinos tinha uma história para contar, ainda que eu nunca as ouvisse, isso era o suficiente para me manter virando as páginas.

Qual foi o livro mais importante de seus anos de formação?
Estranhamente, o que mais me impactou quando eu estava no ensino médio foi Genealogia da Moral, do Nietzsche. Não tenho ideia de como me deparei com ele ou por que o li. Provavelmente, ouvi alguém, talvez meu irmão mais velho, falar sobre ele. Foi – ainda é – um dos livros mais chocantes e perturbadores que já li.

É importante ter em mente a perspectiva histórica de um livro, antes de lê-lo, ou a leitura não requer nenhuma obrigação?
Não é pré-requisito, eu acho. É claro que existem livros – O Livro Egípcio dos Mortos ou o Popol Vuh dos maias, por exemplo – que são extremamente difíceis de entender sem alguma compreensão prévia dessas culturas. Mas, em geral, fico mais impressionado com o fenômeno surpreendente do acesso a esses textos, devido às grandes distâncias, do que com a dificuldade de compreendê-los. Sinto-me como o artista Albrecht Dürer quando viu pela primeira vez os objetos astecas enviados do México de volta para a Europa – maravilhado com o espantoso talento que podemos encontrar em todo o mundo.

Quando se trata dos clássicos, qual é a importância da literatura crítica? Para quem, especificamente, ela serve?
Primeiro, e acima de tudo, para o prazer derivado do entender mais – do se aproximar – das grandes obras que desfrutamos. E depois para aprender a gostar dos textos clássicos que podemos ter deixado esfriar. Em 1623, os primeiros editores de Shakespeare escreveram no prefácio da edição de suas obras que, se você não gosta dele, provavelmente é porque não o entende. E acrescentaram que o autor – então morto há apenas sete anos – tem amigos dispostos a ajudá-lo no caminho da compreensão. É isso que eu acho que a melhor crítica proporciona: uma ajuda inteligente dos amigos mais queridos do autor.

Se pudesse jantar com qualquer um dos escritores já mortos, com quem seria? E o que gostaria de falar com ele?
Sempre desejei sentar-me para jantar com Montaigne. E pediria-lhe que me dissesse, em voz baixa, algumas das coisas que ele disse que teria incluído em seu grande livro, se tivesse sido capaz de se descrever de forma tão completa e franca quanto gostaria.

Em nosso tempo, tornou-se ainda mais urgente recorrer aos clássicos?
Sim. Nossa cultura parece-me em queda livre, em direção ao barulho, à distração e às mentiras.

Fausto

Fausto

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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