Nosso Irmão: família, esse inesgotável

Nosso Irmão, espetáculo espanhol de Alejandro Melero, em cartaz no Tucarena, trata do inesgotável: a família.

No elenco da montagem que já passou pelo Uruguai e Peru estão Regiane Alves e Marina Elias, embora seja Bruno Ferian que nos leva à exaustão.

Exaustão que não é êxtase, embora bem que poderia ser; mas é exaustão mesmo a palavra.

Porque saímos cansados da peça; pois o personagem de Ferian nos faz esquecer que estamos diante de uma encenação.

Em outras palavras, brilhante!

Com direção de Dan Rosseto, Nosso Irmão conta a história de três irmãos de Madri, que se reencontram por ocasião da morte da mãe; mas, que, logo após o sepultamento, entram em conflito.

As duas irmãs passam a vasculhar a casa de nascença à procura do testamento, buscando, ao mesmo tempo, decidir o destino do irmão especial.

Curioso é que a sinopse o descreve como alguém que possui uma “deficiência intelectual”.

Bruno Ferian dá vida a Jacinto, um personagem e tanto! Porque é ingênuo ao mesmo tempo em que é inteligente; e é alheio ao mesmo tempo em que é onisciente.

Onisciente!

Não no sentido religioso do termo, evidentemente.

Trago a onisciência no sentido daquilo que supera as limitações humanas; quero dizer sobre uma compreensão natural que pouquíssimas pessoas têm do passado, do presente e do futuro.

Jacinto, o truão.

Porque Jacinto não deixa de perceber as emoções e as intenções de suas irmãs, menos ainda o que significou a mãe, com todos os seus cuidados e seus hábitos, sem falar na rotina de seu entorno, o vilarejo.

Há uma cena esplendida em que as irmãs conversam sobre o paradeiro da receita do bolo de canela com mel da falecida — portanto, uma relíquia —, mas elas não ousam perguntar ao irmão, que todos os dias assistia o preparar do doce mais simbólico das mesas de uma existência em família.

Regiane Alves é Teresa, irmã mais velha, casada e com filhos, que, como ditam os ditames da moda — linguagem transcendente porque é silenciosa — expressa a identidade de uma madame.

O poá da blusa, a bolsa Louis Vuitton, o iPhone mais recente, o leque que prenuncia uma mudança de estação em sua pele perfeita.

Cientes ou não, somos uma tela em branco e com a moda pintamos nossas singularidades. Decidimos, ao longo da vida, o que desejamos que o mundo admire em nós.

Ou que pense que desprezamos, como é o caso do aparente desapego que assume Maria, vivida por Marina Elias.

O que ela veste esconde todo o seu corpo, como prega o panfleto contrário à beleza feminina, porque é a pele a roupa mais bonita, ainda mais se um tecido fino a precede.

Figurino muito bem feito por Priscila Soares.

Maria, solteira, não pode ter filhos, trabalha na televisão, num programa — supõe-se — de qualidade duvidosa, porque Teresa não cansa de apontar.

Não é de hoje que sabemos do talento de Regiane Alves em ser vilã. Tão raro saber ser desagradável.

Em Nosso Irmão, ela desempenha seu papel de nova líder da família não deixando uma única farpa sem entrar na carne de seus irmãos, atuando distante do politicamente correto que tanto entedia nossas artes.

A Maria, de Marina Elias, esmagada por um segredo, é abatida. Jacinto em sua vivência sem filtro ressalta seu traço incontestável.

Foram os laços que não se fortaleceram com os homens que amou, o emprego do qual não se orgulha, a sobrevivência que bate à porta, e tudo o mais que precisa ficar escondido porque, afinal, como assumir que o estilo de vida que adotamos não passa de apatia.

Em Nosso Irmão, de cenário construído para funcionar como arena, belo trabalho de Kleber Montanheiro, mas é loteria perder ou ganhar olhares virtuosos, próprios da atuação. De onde assisti, tive o privilégio de ganhar minuciosamente dois.

O primeiro, quando Maria se dá conta de que suas feridas emocionais são tão visíveis quanto seu rosto abatido. Que suas roupas não vendem o glamour de madame por uma espécie de incapacidade profunda pelo mais ordinário da vida: amar quem é difícil de amar, porque requer muito de nós.

Nesse momento, revela-se, implicitamente, o motivo de Maria não ter tido filhos.

A coragem coxeia.

O segundo é quando Teresa lamenta o crescimento dos filhos, quando eles deixam de ver a mãe como o que há de mais importante no mundo.

As duas atrizes brilham nas frases mais corriqueiras.

Entre brigas, ofensas, acusações e jogos de interesse, Nosso Irmão revela o que a esmagadora maioria das pessoas vive em suas casas, mas jamais admitiria em rodas sociais, e questiona a relevância de trocas humanas verdadeiras.

Veja, que pena. O fim do último parágrafo soou assustadoramente vazio.

Família, esse inesgotável.

Eliana de Castro Escrito por:

Fundadora da FAUSTO, é escritora, mestre em Ciência da Religião e autora do romance NANA.

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