Presença de Os Arrais

Ouço Os Arrais porque me sinto por eles ouvida. Os Arrais fazem música para quem tem fé vacilante. Cantam versos sobre quem opera no vazio quase do nascer ao nascer do Sol. É som calmo tempestuoso. Sabe quem conhece os próprios tormentos.

Sábado, 28 de julho de 2018. Marco o tempo pelos meus assombros. Entre dois prédios, a luz alaranjada do fim do dia. “Muitas coisas passo em silêncio porque tenho pressa”, lembro-me de Santo Agostinho.

Entro no táxi. Em pensamento triste busco as razões pelas quais decidi relatar este dia simbólico para os irmãos André e Tiago. Triste não por vontade de voltar atrás. Talvez apenas por vontade de não ir adiante. Então vem à mente a profecia de Dostoiévski: “A beleza salvará o mundo”. Há de me salvar.

Os Arrais
Os Arrais.

Encontrei nas sombras das canções de Os Arrais um canto de paz para descansar meus vazios. Talvez eu tenha apenas medo. Talvez Cioran tenha razão. Sou vítima de uma subjetividade exagerada.

A fila para entrar dava voltas e voltas. De dentro do táxi, por um tempo reparei em muitos dos que esperavam sua vez. Seus tênis, seus jeans, suas feições. Grãos de areia da existência.

A fé popular ensina que todas as coisas essenciais existem desde o princípio do mundo. A fé da música de Os Arrais diz sobre esses pressupostos dos quais nenhuma religião é dona. O ser religioso é todo aquele que pelo menos uma vez na vida sentiu medo.

Encontro um corredor imenso e vazio. Sigo por ele até que vejo uma escada no fim. Subo, me pergunto se o maior desafio do escritor é sair de si e ver o mundo por outros olhos.

Quando chego à sala na qual estão todos à porta está André. Não o conhecia. Seus olhos têm cor diferente. Busco até agora uma definição para descrevê-la.

“Sou Fausto”. Ele então se lembra. Não tenho mais nome. Sou espaço desarmônico instituído. André está aparentemente em paz.

Tiago, meu irmão romântico. Há nele ordenamento imperfeito. Seus passos denunciam inquietação, tem olhar talvez triste. Em minutos de conversa a sós, está posto. Ele não sabe o que dizer e se preocupa por quem se moveu de lonjuras para ouvi-los.

Se esperam palavras? Pode até ser. Creio, porém, que esperam mais as notas certas da abolição do absurdo. Ter sempre o que dizer é ambição iluminista, irmão. Sugiro que se abandone.

Sob a direção de Hugo Pessoa, começa a gravação do primeiro DVD da carreira da dupla. Regente das luzes. Os irmãos cantam, Tiago em erupção, Hugo potencializa sua agonia com imagens e cores.

Assisto de um ponto onde vejo a todos. Hugo vai correndo, volta correndo, é a célula que distribui o sangue pelo corpo da obra. O espetáculo começa com Fogo. E como fogo. Em algum canto, Leonardo Gonçalves de braços cruzados e feição séria. Atenção de irmão mais velho. Um dia ele me disse: “Você precisa ouvi-los”.

São vinte canções na obra sensorial de Os Arrais. Vinte argumentos sobre o meu lugar no mundo. Embalados pelos violões mais comoventes que pude ver e ouvir, há canções que expurgam mais que outras. Há closes de olhos em lágrimas. Há abraços não ensaiados fora do tempo.

Vinte verbos que se dividem em tentativas de dar poder de ação quando apenas a ideia de Deus não basta. Amar, conquistar, realizar, sonhar. Meu verbo é indefinido. Quantos tempos verbais nós temos? Quantos tempos espirituais nós temos?

O maior privilégio de um escritor no bastidor é agir em silêncio antes de dar voz ao que viu. No fim, quando André e Tiago descem as escadas da saída no escuro do detrás do palco, sou a única a ver suas feições.

 

 

Eliana de Castro Escrito por:

Fundadora da FAUSTO, é escritora, mestre em Ciência da Religião e autora do romance NANA.