Michelle Obama

Desde que entrei, relutante, na vida pública, fui considerada a mulher mais poderosa do mundo e apontada como uma “mulher negra raivosa”. Queria perguntar aos meus detratores qual parte da expressão eles consideram a mais relevante – “mulher ”, “negra” ou “raivosa”?”

Fazia tempo que eu não lia algo tão instigante, tão inspirador.

E também tão bem escrito. Cada capítulo conduz ao outro como feitiço. Verdade.

Toda a calma, talvez típica de uma mulher que ocupa o posto de a mais poderosa do mundo, jorra incontida e envolve muitíssimo íssimo.

Michelle Obama.

O motivo é claro. Michelle Obama se revela nas mais de 400 páginas de forma surpreendente – para além do sentido banal da palavra, hoje meio vazia de sentido.

Surpreendente porque muito do que se lê não é protocolar. Ou quase tudo. Ou tudo.

Michelle não esconde o que, talvez, muitas mulheres no topo esconderiam – e esconderiam por medo de parecem indignas da posição de privilégio que agora ocupam, mesmo com todo o mérito do mundo.

A mulher bem-sucedida do nosso tempo tem a marca do silêncio de suas próprias dúvidas. O topo, ainda que já possível, não admite, contudo, incertezas ou inquietudes típicas de nossa natureza.

Michelle Obama não esconde, por exemplo, que se opôs praticamente toda vez que seu marido, Barack, quis se candidatar a um posto maior do que aquele que ocupava.

Claro, estando longe da Casa Branca, hoje, Michelle pode falar o que nos oito anos como primeira dama não pode.

Em nenhum momento também esconde a resistência – e até certo desprezo – pelo poder.

Fácil escrever isso depois de tanto tempo cercada do mais inimaginável luxo? Duvido. A garantia das linhas tocantes de tão humanas é justamente a admissão das quantas vezes que errou.

Para muito além do sentido banal da palavra inspirador, está a impressionante força de caráter de Michelle Obama. Justamente o que, maldosamente, rotularam como “raivosa”.

Serei mais uma, entre milhões e milhões, a usá-la como modelo dessa força de caráter, de determinação e, principalmente, de autopreservação. “O fracasso começa como um sentimento“, ela escreve.

E é verdade. O primeiro sentimento de fracasso nasce de coisas tão banais que, por isso mesmo, aumentam a sensação de estarmos loucas.

Acontece que ainda há lugares que não podem ser ocupados por uma mulher de personalidade. Grifo consciente.

Não escrevo sobre discriminação racial, nem de gênero, porque a força do relato de Michelle, para mim, ultrapassa. Escrevo sobre um tipo de discriminação mais sutil, mas nem por isso menos devastador: o da autenticidade.

Autenticidade supera ambição, ousadia e, nalguns casos, até poder político.

A autobiografia de Michelle Obama cai em minhas mãos como novo espelho. Nele vejo não só quem sou, hoje, mas quem posso ser, amanhã, a despeito de qualquer realidade que tenha sido cenário de minhas experiências.

Rótulos que insistem tanto em nos definir não passam de espíritos obsessores. “Mulher”, “negra”, “raivosa”.

Os que dizem por aí serem os meus rótulos, recito-os todos os dias, de manhã, na antessala que dá para a rua. Meu intento é não voltar com eles para casa.

Michelle carregou muitos deles, desde sempre, e para sair de um bairro pobre de Chicago e chegar a Harvard, precisou sentir, sim, muita raiva por causa dos olhares de desdém de tantos.

Por ser negra, por ser mulher, por ser, não raivosa, mas decidida, dedicada, disciplinada.

Como ambiciosa que sou – e há um fogo que queima, queima, queima, dentro de mim, como vela romana, lembrando Kerouac em verso – perpassar a trajetória de Michelle Obama é relembrar que não importa o quanto peçam que eu mude minha essência. É justamente quando resisto a qualquer tipo de enquadramento que encontro, como mágica, o meu lugar no mundo. Todo enquadramento é prova de que alguém ousou nova forma.

Na autobiografia de Michelle Obama há histórias de aborto, fertilização, carreira, maternidade, os anos em Princeton e Harvard, o namoro, o noivado, o casamento com Barack, além do dia a dia na Casa Branca como mulher, mãe, primeira dama e seus mil protocolos.

Mas há também algo mais poderoso! O atestado (histórico) da força de uma mulher que não fez concessões – a não ser pelos que ama – para ascender.

Evito a todo custo palavras da moda, principalmente as de viés ideológico. Todavia, é destas páginas que encontrei, pela primeira vez, o real significado de empoderamento.

O abrir de coração de Michelle Obama teve – e tem – o efeito devastador de nos levar, ao mesmo tempo, às mais simples lembranças daquilo que nos forma.

Os gatilhos são os mais singelos: discos de vinil, um carro velho, sorrisos arrebatadores, roupas jogadas no chão ou tardes de domingo.

Bem ou mal, de forma triste ou alegre, são essas mesmas lembranças que lançam luz ao futuro que pode ser esplêndido – como o de Michelle – ou nada mais do que o suficiente – o que já é muito.

Se compartilho com Michelle um histórico de vida de infância, adolescência e começo de vida adulta num bairro pobre, distante, tendo que acordar muito cedo para pegar transporte público lotado para ter a chance de estudar e sonhar com um futuro diferente do visto ao meu redor, me ponho também a sonhar: e se eu me tornasse a mulher mais poderosa do mundo?

Eu escreveria em minhas memórias: doerá do começo ao fim, sem tréguas, mas nenhuma dor é mais lancinante do que a de ter que abrir mão da pouca verdade que temos certeza de ter sobre nós mesmos.

 

Fausto

Fausto

Fausto

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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